O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

O OUTRO LADO DA MOEDA

Serviços empurram PIB para baixo

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Publicado em 14/12/2021 às 13:18

Alterado em 14/12/2021 às 13:18

Gilberto Menezes Cortes CPDOC JB

A recuperação do setor de serviços (o mais importante da economia brasileira, pois incluindo o comércio, com peso de 13,8%, atividades financeiras e de seguros, peso de 7,1%, e atividades imobiliárias, peso de 10,4%, representa mais de 70% do PIB) era a grande aposta do governo na retomada da economia, junto com o retorno da segurança de circulação nas áreas de lazer e turismo, trazido com o avanço da vacinação.

Mas, antes mesmo de a ômicron, a nova variante da Covid-19, deixar o mundo ressabiado, e temeroso de novo tropeço da recuperação da economia global, o volume de vendas do segmento de Serviços pesquisado mensalmente pelo IBGE (que representa cerca de 55% do PIB de Serviços, excluindo comércio, serviços financeiros e atividades imobiliárias) sofreu uma queda inesperada de 1,2% em outubro de 2021, frustrando as expectativas do mercado, entre a estabilidade e alta de 0,1%. O enfraquecimento do setor joga o PIB para baixo.

Em setembro e outubro a queda chega a 1,9%, insuficiente para eliminar o ganho do período abril-agosto de 2021 (6,2%), mas reduz o distanciamento com relação ao nível pré-pandemia. Em outubro, o setor de serviços estava 2,1% acima do patamar de fevereiro de 2020. O recuo de 1,2% do volume de serviços em outubro se repetiu em quatro das cinco atividades investigadas, com destaque para serviços de informação e comunicação (-1,6%) e de outros serviços (-6,7%), seguidos por serviços profissionais, administrativos e complementares (-1,8%) e de transportes (-0,3%). A única taxa positiva ficou com serviços prestados às famílias, que subiram 2,7% em outubro, seu sétimo avanço consecutivo, período em que acumularam alta de 57,3%.

O índice de média móvel trimestral caiu 0,5% no trimestre encerrado em outubro de 2021 frente ao nível do mês anterior, interrompendo a trajetória predominantemente ascendente iniciada em julho de 2020. Quatro dos cinco setores de atividades tiveram quedas: outros serviços (-3,5%); serviços profissionais, administrativos e complementares (-1,1%); transportes (-0,5%); e informação e comunicação (-0,4%). Os serviços prestados às famílias (2,8%) permanecem com comportamento positivo desde junho de 2021.

 

Os dilemas do Copom

Os dados da economia andando de lado mostram que os membros do Comitê de Política Monetária do Banco Central tiveram o bom senso de descartar a proposta, discutida na reunião de 4ª feira passada, 8 de dezembro, conforme a Ata divulgada hoje pelo BC, de elevar a Selic acima de 1,50 ponto percentual (para mais do que os 9,25% ao ano adotados).

O nervosismo no mercado de câmbio, com a possibilidade do Fed, o Banco Central dos Estados Unidos, determinar, a partir de amanhã, a aceleração na redução dos volumes de recompra de títulos no mercado (o que virou incógnita depois da ômicron), forçando o BC a fazer pesadas recompras de dólar à vista na 6ª feira e ontem, mostra que o BC está sob um dilema.

Ele está vislumbrando sinais de arrefecimento da inflação, arrastada para baixo com a desaceleração da economia e com a ajuda da queda do preço do petróleo Brent, mas não pode errar a mão no câmbio, cuja queda (apreciação do real) será um importante elemento para reversão de expectativas.

Há muito tempo critico o Copom pela falta de ousadia (lá atrás) para aumentar mais fortemente os juros e frear a escalada do dólar. Agora, seria fora de hora.

 

O presente de Natal da Petrobras

Após sucessivos aumentos, com alta de mais de 50% no ano, a Petrobras esperou uma semana, mas, na onda da queda de mais de 10,5% nos preços do petróleo no exterior, anunciou hoje o que o presidente Jair Bolsonaro tinha insinuado há 10 dias: a partir de amanhã, 15 de dezembro, o preço médio de venda da gasolina A nas refinarias para as distribuidoras, cairá 3,13%, de R$ 3,19 para R$ 3,09 por litro, refletindo redução média de R$ 0,10 por litro.

Com a mistura obrigatória de 27% de etanol anidro e 73% de gasolina A para a gasolina vendida nos postos, a parcela da Petrobras no preço do litro na bomba cairá para R$ 2,26, em média. Uma baixa de R$ 0,07. Papai Noel espera agora a queda do etanol para o frete do trenó ficar mais em conta.

 

Os sinais do papelão

Entre os vários indicadores antecedentes acompanhados pelos economistas para antecipar sinais positivos ou negativos da economia e do consumo, está o da expedição de papel ondulado (usado nas embalagens de mercadorias, sobretudo bens de consumo).

E os dados de novembro, de acordo com os dados prévios da Empapel, ajustados sazonalmente, mostraram queda de 2% na produção em relação a outubro. Foi o 5º recuo nos últimos seis meses. Isso, no mês da “black friday” e às vésperas do Natal, é de assustar.

Na comparação anual foi a 4ª baixa seguida, agora de 3,7%. Na média trimestral, também houve queda pelo 8º mês seguido, de -0,7%.

 

As perdas de oportunidades do pré-sal

Quando o pré-sal foi descoberto, no governo Lula, em 2007, a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, que tinha sido ministra de Minas e Energia, resolveu suspender os leilões de partilha. Confiante de que o Brasil tinha “tirado um bilhete premiado”, como dizia Lula, o governo sentou em cima do pré-sal, buscando recriar os leilões em novo formato, preservando a riqueza da União e a redistribuindo para mais estados.

Em 2010 foi feita a capitalização da Petrobras (só quem subscreveu as ações foi o distinto público, do Brasil e do exterior; a União, dona das jazidas do subsolo, sejam petróleo, gás, minério ou até água, fez um aporte com parte das reservas, com acerto posterior a ser definido com a Petrobras - a chamada cessão Onerosa). Como as apostas eram de que o barril de petróleo valeria, na década de 20, mais de US$ 240, criou-se até um programa educacional que seria alimentado pelos impostos do petróleo &gás).

Só que no meio do caminho surgiu enorme uma pedra. A crise financeira mundial de agosto/setembro de 2008 derrubou os preços do barril e outros ativos na maior crise econômica mundial desde a grande depressão.

Os leilões demoraram a ser retomados e a primeira área de cessão onerosa leiloada em 2019 só encontrou compradores para duas das quatro áreas: todas controladas pela Petrobras e com apenas 10% de participação das estatais chinesas no mega campo de Búzios. Em 2020, a pandemia da Covid-19 derrubou o barril a menos de US$ 30 (há um mês o preço subiu a US$ 82,46; aí veio a ômicron e os preços caíram mais de 10,5%, para US$ 73,45, hoje).

Ante a nova realidade de transição energética aprovada na COP-26, de Glasgow, Escócia, o Brasil faz nesta 6ª feira, talvez último grande leilão do pré-sal com áreas escolhidas pelo governo, sistema adotado em 1999. Para se medir o impacto da mudança dos ventos da biruta, os dois campos, sem interessados em 2019, Atapu e Sépia, voltam agora com preços 70% menores. E a 17ª rodada de concessões, este ano, teve só cinco blocos comprados, entre uma centena, e encalhe de áreas no pré-sal da bacia de Santos.

 

Tentativa de novo modelo

Por isso, atendendo a sugestão do ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Décio Oddone, o governo vai testar neste leilão um novo mecanismo para buscar expandir a produção nacional: a Oferta Permanente. É uma espécie de estoque de ofertas contínuas de blocos, que podem ser licitados quando houver investidor interessado.

As rodadas que estavam sendo preparadas para 2022 – 18ª de concessões e 7ª e 8ª de partilha de produção -, foram incluídas na nova modalidade, que pode ser adotada permanentemente.

A medida já foi alvo de críticas de Henrique Jager, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep). Para ele, botar áreas do pré-sal na vitrine de Oferta Permanente reduz a transparência de ativos que pertencem à sociedade (União) e pode desvalorizá-los.

É o tal negócio enquanto se desconfia de que alguém quer passar para trás o dono do tal “bilhete premiado”, o país perde oportunidades de explorar o filão.

 

Castro celebra o desastre

O governador Claudio Castro anuncia amanhã, 4ª feira, às 10 horas no Palácio da Guanabara, a tão desejada revitalização do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/Galeão-Antônio Carlos Jobim. Mas, calma, caro leitor, não solte fogos do réveillon antecipado. Lembre-se que o maestro soberano dizia: “O Brasil não é para principiantes”.

É que na cerimônia, com participação dos secretários de Estado de Turismo, Gustavo Tutuca, e de Esporte, Lazer e Juventude, Gutemberg Fonseca, não haverá nenhum CEO de companhias aéreas. Quem estará presente é o presidente da Stock Car, Fernando Julianelli.

Antes que você pergunte se não pegou o voo errado, que seria no Santos Dumont, aqui vai a explicação: o governador, em vez de lutar para que o Galeão volte a dividir a porta de entrada do Brasil com o aeroporto de Guarulhos (SP), ele vai anunciar que a cidade do Rio de Janeiro voltará a receber a Stock Car Pro Series em 2022, (isso não ocorria desde 2022, quando foi desativado o Autódromo de Japarepaguá), em circuito montado no Galeão.

É a celebração do fracasso, atestado dramático da ociosidade do 2º maior aeroporto do Brasil. Mas podia ser pior: nos planos originais de Castro e do presidente Bolsonaro, o Rio voltaria a sediar provas de Fórmula1, Stock Car e outras corridas de moto e automóvel no ex-futuro Autódromo de Realengo.

Se a ideia tivesse ido adiante, a floresta do Camboatá teria vindo abaixo. Na eternidade, Tom Jobim, amante da natureza, deve ter gostado de saber que os pássaros continuam a cantar e a se multiplicar pelas bandas de Realengo.

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