BC mostra a PIB do Brasil mal na fita

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Credit...CPDOC JB

Em jantar, 3ª feira, em Brasília, com parlamentares da Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo (FPE), o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, apresentou números (repetiu hoje, em inglês, em encontro sobre mercados emergentes promovido pelo Bank Of America) que colocam o PIB do Brasil com um dos mais fracos desempenhos entre nove países emergentes.

Conforme a apresentação, se, em 2020 - ano em que quase todas as economias, com exceção da China, que cresceu 2,3%, encolheram - o Brasil não fitou tão mal na fita (a queda de 4,1% só foi superada pelo desempenho) da China e a queda mais suave (3%) do PIB da Rússia e a de 3,4% dos Estados Unidos (ficando melhor que a Zona do Euro -6,5%, quando alguns países encolheram em mais de 11% o PIB), em 2021, o Brasil está com o 3º pior desempenho entre o grupo, mas ficará na rabeira do crescimento das economias emergentes em 2022, segundo as projeções do Relatório Focus, que aponta 4,8% em 2021 e 0,70% no ano que vem.

Projeções para o PIB 

 

 

Macaque in the trees
. (Foto: reprodução)

 

 

Desempenho é pior no Norte e no Sul

 

Macaque in the trees
. (Foto: reprodução)

 

No Boletim Regional que o Banco Central divulgou nesta 4ª feira, com o desempenho das diversas regiões do país no 3º trimestre, quando o PIB nacional, medido pelo IBC-Br (uma antecipação do PIB oficial, que o IBGE divulga dia 2 de dezembro) recuou 0,14% no trimestre, frente ao 2º trimestre deste ano, o melhor desempenho foi da região Centro Oeste, que cresceu 0,7%. Em seguida veio o Nordeste, com expansão de 0,5% (após 0,8% no 2º trimestre). O Sudeste, região de maior população e PIB do país, cresceu 0,4%.

Em sentido contrário o Sul do país, que abriga os estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, teve retração de 0,7% na economia. O pior desempenho foi da região Norte (queda de 1%, após avanço de 2,6% no 2º trimestre), devido aos problemas de suprimento da cadeia mundial de circuitos eletrônicos importados pela Zona Franca de Manaus. Isso afetou a produção de celulares, computadores, eletroeletrônicos e motos e fez a economia do Amazonas encolher 3,1%. O Pará teve expansão de 0,9%, influenciado pelas exportações de minério de ferro, de Carajás, e bauxita, de Barcarena.

Por sinal, a região Norte foi a mais poupada pelo surto inflacionário de 2021. O IBGE faz levantamentos do IPCA (renda das famílias até 40 salários mínimos) e do INPC (até cinco salários mínimos – R$ 5,5 mil) em Belém (PA) e Rio Branco (AC). Manaus, a cidade mais populosa, ainda não tem levantamento sistemático. O IPCA em 12 meses ficou em 9,58%, contra 10,67% na média nacional. Já a região Sul, além de ter sofrido recessão, teve a maior inflação (12,69%) em 12 meses, sob influência do calendário de reajustes anuais das tarifas de energia elétrica e de água e esgoto em Curitiba e Porto Alegre.

O Nordeste ficou ligeiramente abaixo da média nacional de inflação, com 10,63% em 12 meses. No Centro-Oeste, maior produtor agrícola do país e onde está encravada Brasília (no coração de Goiás), a inflação do IPC ficou em 10,39%. No Sudeste, graças ao calendário dos reajustes de energia no Rio de Janeiro e em São Paulo, a inflação acumulou apenas 10,18% em 12 meses até setembro.

 

Retórica para dourar a pílula

Não é de hoje, e já no governo Dilma era assim. Os redatores do IBGE e do Banco Central precisam fazer contorcionismo para não dizer que a situação está ruim. Vejam este texto sobre o mercado de trabalho no Norte e Nordeste.

Depois de dizer que os impactos iniciais da pandemia sobre o consumo de bens e serviços nas regiões Sudeste e Nordeste foram “mais acentuados, com quedas respectivas de 32% e 31% em abril de 2020 em relação a fevereiro do mesmo ano, enquanto o Sul retraiu 26%”, o texto assinala que a “recuperação ao longo do restante do ano foi mais intensa no Nordeste , refletindo possivelmente a maior importância relativa do Auxílio Emergencial (AE) na manutenção da renda das famílias da região”, como atesta o crescimento das compras de móveis e eletrodomésticos no NE no 2º semestre de 2020.

Já em 2021, “com o recrudescimento da pandemia no início do ano, a diferença de comportamento do consumo entre as regiões se repetiu, com maior queda no Sudeste e no Nordeste”. (...) Assim, o crescimento econômico do Nordeste no trimestre encerrado em setembro foi liderado pelos serviços, destacando-se os destinados às famílias e de transportes, em ambiente de recuperação gradual da mobilidade.

 

E aqui começa a contradição, ou melhor, o contorcionismo do redator:

“O mercado de trabalho, apesar do aumento do desemprego, manteve a geração de postos de trabalho. A indústria de transformação, diferentemente das demais regiões, também cresceu, porém, a expansão não foi disseminada entre as atividades”.

A verdade dos números é que, a recuperação do emprego foi puxada pelo setor de serviços, sobressaindo comércio e alojamento e alimentação. Segundo o Caged, no trimestre encerrado em setembro foram gerados 46 mil empregos com carteira assinada por mês, acima dos 44 mil no 2º trimestre (dados dessazonalizados). Porém, indicando um certo voo de galinha, as vagas geradas em setembro foram cerca de 30% menores que as criadas no bimestre julho-agosto e a ociosidade do mercado de trabalho permanece alta.

A taxa de desocupação, segundo a PNADC-T, com dados dessazonalizados, passou de 17,8% no trimestre findo em março para 18,1% no terminado em junho, na medida em que a busca por trabalho cresceu mais do que a população ocupada. E, com a grande oferta de mão de obra, os rendimentos do trabalho estão 8,8% abaixo do verificado no mesmo trimestre de 2020.

O Banco Central não esconde que a grande aposta do governo Bolsonaro é a injeção de recursos pelo Auxílio Brasil (R$ 400 mensais, mas com encolhimento de 20 milhões de beneficiários comparados ao Auxílio Emergencial). “Adicionalmente, a atividade econômica será favorecida pelo início dos pagamentos do Auxílio Brasil, dada a importância relativa do programa na composição da renda da região”, diz trecho da análise.

 

Os grãos avançam na Amazônia (

O governo Bolsonaro (como de resto os empresários do agronegócio) argumentam, com um pouco de razão, que as alegações dos produtores europeus para restringir a entrada de soja (em grão ou sob a forma de farelo) e milho (em grão e farelo) brasileiro em seus países, sob a acusação de que avançam em áreas que eram florestas tropicais da Amazônia.

Nos gráficos do Boletim Regional do Banco Central de Setembro, pode-se ver que, apesar do avanço da agricultura na região Norte, sua participação é ainda inexpressiva na safra de soja (há alguma coisa no Pará e em Rondônia), mas não há registro de produção de grãos de soja e milho no Amazonas, no Amapá e em Roraima, tradicional produtor de arroz.

A questão é que sendo áreas pioneiras, os índices de produção serão sempre ascendentes, embora com números proporcionais ínfimos. Mas lançar mão de bons argumentos parece estar fora do alcance do governo Bolsonaro.

 

 

Macaque in the trees
. (Foto: reprodução)

 

 

Macaque in the trees
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A confiança foi embora

Quando assumiu o Ministério da Fazenda do governo Temer, em maio de 2016, o ex-presidente do Banco Central do governo Lula, Henrique Meirelles, atual secretário de Fazenda do governo de São Paulo (João Dória) insistia que a “volta da confiança” seria capaz de provocar a retomada dos investimentos e do crescimento. Em 2017, o PIB voltou a crescer (1,32%), após recessão de 3,5% em 2015 e de 3,3% em 2016. E teve crescimento de 1,8% em 2018, puxado pela boa safra agrícola. Mas a confiança não moveu moinhos.

Pois hoje, a Fundação Getulio Vargas apresentou o índice de confiança do consumidor em novembro. Uma má notícia para os comerciantes que apostavam na “Black Friday” e no movimento de Natal para ativar as vendas: a confiança do consumidor recuou 1,4 ponto, para 74,9 em novembro, menor nível desde abril de 2021. Além disso, a impressão seguiu com alta de 1,0 ponto em outubro. O resultado foi impulsionado por quedas tanto no componente situação atual (-2,1 pontos., para 66,9 pontos), quanto no índice de expectativa (-1,0, para 81,4 pontos). Amanhã a FGV divulga expectativas na construção civil e na 6ª o termômetro de expectativas dos industriais.



Gilberto Menezes Cortes
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