Economia derrete: sobrou pro Banco Central

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A economia brasileira, que há dez dias, na visão cor de rosa do ministro Paulo Guedes, “estava bombando”, derrete a cada dia. Ontem, a inflação do IPCA subiu 1,25% em outubro, puxada pela disparada dos combustíveis e do dólar, levando a taxa em 12 meses a 10,67%. Nesta 5ª feira, o IBGE anunciou, como consequência da corrosão da inflação sobre o poder de compra da população, uma queda de 1,3% no volume de vendas do varejo em setembro, após tombo de 4,3% em agosto. Assim, bancos e consultorias estão revisando para baixo o crescimento da economia em 2021 e 2022 e aumentando as projeções de inflação para os dois anos, bem nos juros (a Selic está em 7,75% ao ano). O comércio está repensando o Black-Friday.

Para piorar, houve o anúncio (ainda não oficial, mas veiculado pela Abegás) de que a Petrobras propôs aumentar entre duas e quatro vezes o preço do gás natural em 2022, nos contratos que a estatal está negociando com as distribuidoras estaduais. Vai sobrar para o consumidor final de gás canalizado. Aquele que acreditou no “coque do gás” do ministro Guedes, de que que com a criação do “novo marco regulatório do gás”, os preços iam cair de 30% a 50%. Parece que tinha um espelho refratário na frente, pois deu-se justamente uma alta superior a isso só este ano.

Mas tinha que sobrar para alguém a responsabilidade pela sucessão de erros da política econômica, que cede aos caprichos do presidente Jair Bolsonaro para aplainar, com o “tratoraço” das emendas dos deputados e senadores no Orçamento Geral da União, o até aqui pedregoso caminho da reeleição. E o bode expiatório da vez foi o diretor de Política Econômica do Banco Central, Fábio Kanczuk, cujo mandato que acabaria em 31 de dezembro, não será renovado.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, indicou o economista Diogo Abry Guillen (ex-economista-chefe da Itaú Asset Management e professor ligado ao Insper). Mas a tarefa não será fácil. Com mandato até 2023, se for aprovado em sabatina no Senado, Guillen, que é bacharel e mestre pelo Departamento de Economia da PUC-Rio e PhD em economia por Princeton University, seria o 2º em membro do Itaú a integrar o Comitê de Política Monetária (Copom)

Num jantar esta semana com deputados federais, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, deixou escapar, num jantar com deputados esta semana em Brasília, a propósito da aprovação da PEC dos Precatórios, que dificilmente qualquer diretor do Banco Central ou membro do Copom deixará de ter um trabalho de Sísifo (subir uma montanha carregando uma pedra que rola por uma das encostas) no controle da inflação. Campos Neto teria dito que a proposta da PEC ou qualquer maior ou menor (transparência) no controle orçamentário não é determinante para consertar o desequilíbrio ou condenar a política fiscal ao fracasso. Campos alertou que a deterioração de expectativas é um processo gradual [que tem se acelerado fortemente].

Se a diretoria de Política Econômica errou em não perceber esses fatos, não será um novo ator que irá corrigir o problema. A recuperação da credibilidade perdida (ancoragem das expectativas) será um trabalho de Sísifo. Já disse aqui, várias vezes, que os modelos macroeconômicos não são suficientes para avaliar as variáveis da economia quando um insumo básico como o petróleo (e os combustíveis e milhares de derivados) tem os preços em escalada por impacto externo e agravado pela deterioração da taxa de câmbio.

Trabalhadores autônomos e prestadores de serviços que usam frequentemente o automóvel ou recorrem a aplicativos estão costumam incorporar as altas da gasolina, etanol, diesel e GNV à sua tabela de preços. E o IPCA de outubro mostrou ainda os impactos das altas do querosene de aviação nas passagens aéreas, que subiram mais de 33% e nas tarifas dos aplicativos (tipo Uber) que aumentaram mais de 18% em outubro.

 

IGP-M mostra repique no atacado

Os primeiros números do IGP-M de novembro também preocupam, pois mostram repique de inflação no atacado. A 1ª prévia do IGP-M passou de uma queda de -0,91% em outubro para +1,57% em novembro. O IPA-Industrial passou de uma deflação de -2,20% em outubro para alta de +3,02% em novembro. Indústria Extrativa, Artigos do vestuário, Madeira desdobrada e produtos de madeira, Produtos químicos, Produtos derivados do petróleo e biocombustíveis, Artigos de borracha e de material plástico e Veículos automotores, reboques, carrocerias e autopeças foram os principais responsáveis por esta relevante aceleração do índice.

Menos mal que o IPA-Agropecuário passou de +0,12% em outubro para deflação de -0,70%, muito por conta das quedas de arroz, milho, feijão, banana, mamão, café, bovinos, leite in natura, suínos e ovos, como também pela desaceleração de soja, abacaxi, tomate, laranja e aves.

Mesmo assim, o IPA como um todo passou de -1,52% em outubro para +1,93% em novembro. Os preços no varejo passaram de +1,0% em outubro para +0,35% em novembro, pela desaceleração de Alimentação e Habitação, bem como pela queda de Educação, leitura e recreação. Por fim, o INCC passou de +0,25% em outubro para +0,40%, pois a categoria de materiais e serviços acelerou.

 

Safra maior não compensa queda no consumo

O IBGE divulgou nesta 5ª feira, 11 de novembro, duas importantes estatísticas econômicas. A 1ª estimativa para a safra de grãos de 2022. Graças à chegada das chuvas em outubro, que salvaram as lavouras, mas ainda estão longe de normalizar a situação nos reservatórios das hidrelétricas até 2022, o IBGE estima que o Brasil vai colher uma safra recorde de 270,7 milhões de grãos, cereais, leguminosas e oleaginosas em 2022, um aumento de 7,8% (ou mais 19,5 milhões de toneladas) frente a 2021.

Afetada pelos problemas climáticos causados pela La Niña, na estimativa de outubro, a safra de 2021 chegaria a 251,2 milhões de toneladas, 1,2% menor (ou menos 3,0 milhões de toneladas) que a de 2020 (254,1 milhões de toneladas).

As safras agrícolas são a parte mais expressiva do agronegócio, complementada pelas atividades da pecuária e da silvicultura (madeiras para exportação e a construção civil e para a produção de papel e celulose). A pecuária vai depender muito da demanda da China (maior consumidor) por proteína animal.

O surgimento de casos isolados da doença da “vaca louca” no rebanho brasileiro, levou a China a suspender as compras e provocaram dois meses seguidos nos preços domésticos da carne. Ainda variando acima dos demais alimentos e da inflação. Alimentos mais baratos em 2022 são um bom aliado na redução das expectativas da inflação.

Mas o governo não pode repetir (pelo 4ª ano seguido) o erro de não formar estoques reguladores para garantir o abastecimento doméstico. Em setembro de 2020, o país “celeiro do mundo” importou soja em grão para fazer óleo!

O Ministério é da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA). Mas, parece que, em função da política geral do “laissez-faire, laissez-aller, laissez-passer”, tiraram o último A do MAPA.

 

Quebra do varejo derruba PIB

A queda de 1,3% no volume de vendas do varejo restrito (mercados e supermercados, farmácias e drogarias, combustíveis e lubrificantes, móveis e eletrodomésticos, entre outros setores) acendeu o sinal de alerta nos painéis de bancos e consultorias. Na série com ajuste sazonal, entre os oito setores investigados pela Pesquisa Mensal do Comércio para o comércio varejista e os dez do comércio varejista ampliado, houve predominância de taxas negativas,

No varejo restrito, a escalada dos preços atingiu seis das oito atividades pesquisadas: Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-3,6%), Móveis e eletrodomésticos (-3,5%), Combustíveis e lubrificantes (-2,6%), Outros artigos de uso pessoal e doméstico (-2,2%), Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-1,5%) e Tecidos, vestuário e calçados (-1,1%) lideram as quedas.

Duas atividades apresentaram estabilidade: Livros, jornais, revistas e papelaria (0,0%) e Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (0,1%).

Chama a atenção a desaceleração da taxa em 12 meses do varejo restrito, que caiu de 5% em agosto para 3,9% em setembro.

Outro destaque foi o tombo de 1,7% no comércio varejista ampliado. A atividade de Veículos, motos, partes e peças teve queda de 1,7% em setembro, enquanto Material de construção caiu 1,1%, após variação de 0,3% e queda de 1,2% registrados em agosto. Os comerciantes estão com medo do fracasso da Black-Friday, sem atrativos maiores que a queda dos preços.

Como a agricultura foi fraca no 3º trimestre e a indústria exibiu três meses negativos, os dados do PIB entre julho e setembro podem decepcionar muito.

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