Inflação de 1,20% do IPCA-15 assusta mercado

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Era só o que faltava. Com a inflação futura alimentada pela escalada dos preços dos combustíveis, que acabam balizando preços no setor de serviços, sobretudo nas atividades mais informais, e o horizonte sombrio com o descontrole fiscal, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) se reúne agora à tarde para decidir amanhã sobre o aumento da Selic (as apostas são de 1,50 pontos percentuais, para 7,75%) e o futuro da política monetária com a notícia bastante negativa de alta de 1,20% no IPCA-15, que é a prévia do IPCA de outubro (em outubro de 2024 o IPCA-15 foi de 0,94% e o IPCA subiu 0,86%). Isso indica que a taxa em 12 meses continuará a subir na casa de dois dígitos. E o resultado imediato foi o salto inicial de 42 pontos na taxa do DI futuro, de vencimento em janeiro de 2023, na abertura do mercado.

Foi a maior variação do IPCA-15 para um mês de outubro desde 1995, quando o índice foi de 1,34%, e a maior variação mensal desde fevereiro de 2016 (1,42%). Em 2021 a alta acumulada chega a 8,30% e, em 12 meses, de 10,34%, acima dos 10,05% registrados na mesma base em setembro. Dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados, oito apresentaram alta.

O maior impacto veio de Transportes que subiu 2,06% e contribuiu com 0,43 pontos para a inflação mensal, pelo impacto da alta de 2,05% dos combustíveis nos veículos e nas passagens aéreas. A gasolina subiu 1,85% e acumula 40,44% nos últimos 12 meses. Os demais combustíveis também subiram: etanol (3,20%), óleo diesel (2,89%) e gás veicular (0,36%). Exceto o GNV, todos voltam a subir hoje, quando entra em vigor o novo reajuste de 7,04% para a gasolina e de 9,15% para o diesel nas refinarias da Petrobras (ontem muitos postos anteciparam os reajustes em todo o país).

O 2º item de maior alta foi Habitação, com alta de 1,87% e impacto de 0,30 p.p. no IPCA-15. Alimentação e Bebidas teve alta de 1,38% e impacto de 0,29 p.p. no índice. Em 12 meses subiu 12,41%, acima da inflação. Digno de registro foi a primeira redução nos preços da carne bovina (-031%), em consequência da suspensão temporária das exportações para a China e a maior oferta no mercado doméstico. Até então a carne acumulava 16 meses de altas seguidas. No ano a carne subiu 10,27% e acumula alta de 22,75% em 12 meses.

Se a carne bovina deu uma trégua, seu principal substituto de proteína animal na mesa dos brasileiros que podem comer melhor (há um crescente contingente de famintos que ficaram impossibilitados de comprar qualquer tipo de proteína animal) a carne de frango em pedaços subiu 5,11% e o frango inteiro (4,20%). No ano, o item Aves e Ovos (outro substituto da carne) subiram 22,07%, acumulando aumento de 27,85% em 12 meses.

Só 4 capitais têm menos de 10% de inflação

No levantamento do IBGE, só quatro capitais estão com inflação acumulada em 12 meses abaixo de 10% (a média nacional é de 10,34%). São elas Brasília, com 9,05%, Rio de Janeiro, com 9,14%, São Paulo, com 9,80% e Salvador, com 9,81%. Coincidentemente, as cidades onde residem os familiares do presidente Jair Bolsonaro são as que exibem as menores taxas.

A liderança da inflação depende muito do calendário de reajuste das tarifas públicas, especialmente de energia elétrica e água e esgoto. Curitiba (PR) acumula a maior inflação pelo IPCA-15: 13,42% nos 12 meses terminados em outubro. Porto Alegre vem a seguir, com 11,85% e Fortaleza tem taxa de 11,14%.

Perda de referência dos preços relativos

Pouca gente já percebeu – e espero que o Copom atente para isso – mas o país está vivendo um ambiente de hiperinflação. Não pela magnitude da escalada de preços (se bem que alguns segmentos mostram isso, como combustíveis e energia). E a questão é que o descompasso entre a alta de alguns produtos chave na formação de preços, como os combustíveis, estão provocando uma espiral inflacionária de reajustes em atividades menos sujeitas à concorrência do mercado.

Nestes segmentos, como na mão de obras de serviços prestados às famílias – pedreiro, bombeiro, marceneiro, eletricista, atendimento de TI, entre outras – o parâmetro de reajuste costuma se guiar pelo custo do deslocamento no transporte. Quando ele é feito em carro próprio, os reajustes de 7% na gasolina (dois, este mês) servem de motivação para novos reajustes. A política monetária se torna impotente para frear esse fenômeno. Secundário, mas que tende a crescer.

Projeções para o futuro

A alta de 1,20% no IPCA-15 surpreendeu o mercado. A LCA Consultores previa 0,90% de aumento: previa alta de 1,07% em alimentos e bebidas (deu 1,38%; e de 1,62% em Transportes (deu 2,06%). Por isso, com o novo reajuste dos combustíveis, os departamentos econômicos de bancos e consultorias estão refazendo os cálculos do IPCA este ano.

A LCA Consultores considera que os dois últimos aumentos nos preços da gasolina (7,04%) e do diesel (9,15%) pela Petrobras terão impacto total de 24 pontos base no IPCA de 2021 (o impacto afeta pouco outubro, se concentra em novembro e reverbera para dezembro, se até lá não houver novos reajustes).

Para a reunião do Copom, a LCA espera que a Selic suba “amanhã 125 pontos base, para 7,50% ao ano. Em dezembro, ocorreria nova alta de mesma magnitude. No primeiro trimestre de 2022, o Copom subiria o juro em 50 pontos em cada uma das duas reuniões programadas. O juro final deste ciclo passou a ser 9,75%, ante a expectativa anterior de 9,0%”.

Já o Departamento de Estudos Econômicos do Itaú, considera que “o reajuste do preço do combustível tem impacto de 18 pb no índice de inflação IPCA, que já havíamos antecipado em nossa projeção de 9,0% para 2021”.

O Itaú acredita “que o Copom irá aumentar a taxa Selic em 1,50 p.p. em sua próxima reunião, em 26 e 27 de outubro” (...) devido ao “aumento recente do prêmio de risco doméstico poderia provocar uma deterioração adicional das expectativas de inflação, ensejando, assim, uma postura de controle de danos, o que implica em ajuste mais tempestivo da política monetária”.

O banco espera que “o comitê sinalize um outro aumento de mesma magnitude para a próxima reunião, em dezembro, e que reforce o alerta sobre a necessidade de reduzir a incerteza sobre as perspectivas fiscais, que já era indicada como uma fonte de assimetria altista no balanço de riscos para a inflação. As autoridades também devem repetir a mensagem que a taxa Selic irá até o nível necessário para trazer a inflação para a meta no horizonte relevante para a política monetária, com maior foco em 2022. Dado o contexto de mudança no regime fiscal, isso implicará, a nosso ver, uma taxa Selic de 11,25% ao final do ciclo de aperto monetário em março de 2022”, diz o Itaú.

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