FMI: PIB cai e inflação cresce no mundo; aqui é pior

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O Fundo Monetário Internacional divulga na 3ª feira, 12 de outubro, sua 2ª rodada de previsões para a economia mundial este ano. A diretora-gerente do fundo, Kristalina Georgieva, adiantou hoje, 5 de outubro, que a entidade reduzirá a previsão para o crescimento da economia global em 2021 devido aos riscos crescentes de inflação e as disparidades nas campanhas de vacinação entre vários países, com ameaça de os surtos na Ásia agravarem ainda mais os problemas mundiais na cadeia de suprimentos da indústria.

Em julho, o FMI previra que a economia mundial cresceria 6% este ano, após queda de 3,2% em 2020. Os bancos e consultorias já vinham revisando para baixo as previsões de crescimento da economia mundial, enquanto subiam as projeções sobre inflação, que ganharam impulso com a recente alta do barril do petróleo e do gás, com a chegada do frio (outono-inverno) no Hemisfério Norte. Após muitos anos, as restrições do governo Biden à exploração do “shale gas” nos Estados Unidos fizeram o país pressionar o mercado de energia.

No Brasil, o cenário de desaceleração da economia mundial pode ajudar a esfriar os preços das commodities, que atiçam a inflação, com a desvalorização do real ante o dólar. Mas a desaceleração da economia é um fato, confirmado por dois indicadores: em agosto, segundo o IBGE informou hoje, a indústria encolheu 0,7% em relação a julho. Os dados surpreenderam o mercado, com previsões entre a estabilidade e queda de 0,4%.

Na 2ª feira, a Fenabrave, que reúne as revendedoras de automóveis de todo o país, divulgou o resultado das vendas em setembro. Foram emplacados 155 mil veículos novos em setembro, um recuo de 25,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Na série dessazonalizada, trata-se de uma queda de 10,2% na margem, a terceira consecutiva, que foi explicada pelo desempenho negativo tanto do segmento de veículos leves como de veículos pesados.

Os próximos meses devem seguir desafiadores à recuperação da oferta na indústria automobilística, dado que a normalização da cadeia global de semicondutores deve levar tempo. No entanto, a produção e as vendas devem começar a se recuperar de forma bastante gradual neste 4º trimestre, prevê a LCA Consultores. Isso se a produção industrial engrenar.

Na semana passada, o Banco Central previu que o PIB brasileiro vai crescer 4,7% este ano e 2,1% em 2022. O FMI costuma se fiar nas previsões oficiais dos países membros (além de fontes privadas) para elaborar suas projeções. O Itaú reduziu, em setembro, a previsão de crescimento do PIB mundial de 6,2% para 6,1% e deve fazer ajuste este mês. Para o Brasil, o Itaú deve rever para baixo sua previsão de alta de 5,3% este ano, já que reduziu de 1,5% para 0,5% a projeção de 2022, em função da crise energética causada pela estiagem. A LCA Consultores prevê 4,8% para este ano e 1,7% em 2022. O Bradesco manteve a previsão de alta do PIB de 2021 em 5,2%, mas reduziu o de 2022 de 1,8% para 1,6% na semana passada.

Pressão da inflação atinge o seu pico

O motivo, além da crise hídrica, que afeta a produção industrial e o consumo, pela elevação dos custos da energia e seu impacto nos preços finais, tirando renda dos consumidores, é que a inflação trocou de patamar em todas as projeções e com isso obrigará o Banco Central a elevar mais a taxa Selic.

O Bradesco vinha esperando inflação de 7,8% este ano e de 3,3% em 2022, medido pelo IPCA, com o que trabalhava com a previsão de que a Selic (elevada para 6,25% em 22 de setembro) fecharia o ano em 7,50%, assim se mantendo até o final de 2022. Na última 6ª feira, 1º de outubro, o Bradesco elevou para 9% a previsão do IPCA deste ano e para 3,8% o de 2022. Em consequência, aumentou a previsão de que a Selic fechará 2021 em 8,25% ao ano, subindo para 8,50% em 2022.

A LCA, que espera inflação de 8,7% este ano e de 4,5% em 2022, espera a Selic em 8,25% este ano e de 8,75% em 2022, mas já admite que possa chegar a 9%, com alta de 0,50 pontos percentuais em janeiro e um ajuste adicional de 0,25 p.p. em março. O Itaú condiciona tudo à intensidade da restrição de energia em 2022, que vai determinar menor PIB e maior IPCA.

O dado que pode mudar as projeções será dado nesta 6ª feira pelo IBGE, com a divulgação do IPCA de setembro. As expectativas estão subindo para 1,27%, na visão do Bradesco, a 1,30%. Como a inflação em 12 meses acumulou 9,68% em agosto e a taxa de setembro de 2020 ficou em 0,64%, se a taxa mensal subir 1,27% o IPCA em 12 meses alcança 10,3%. Se der 1,30, vai a 10,4%.

BC revela Brasil à frente na alta de preços

Em apresentação na 2ª feira, 4 de outubro, na reunião do Conselho Político e Social (COPS), da Associação Comercial de São Paulo, em São Paulo, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto procurou mostrar que a tendência de alta de inflação é uma tendência mundial, agravada de um lado pela retomada das atividades econômicas devido ao avanço da vacinação no mundo, e de outro pelos problemas da cadeia mundial de chips e componentes eletroeletrônicos para suprimento da indústria, e, de outro, pelo ajustes das economias mais avançadas às metas ambientais do Acordo de Paris.

Tudo é fato, mas ele só esqueceu de fazer o “mea culpa” por não ter o Banco Central, que tem por função ser “o guardião da moeda”, conseguido administrar bem a taxa de câmbio do país e deixado, com as tergiversações sobre o endurecimento da política monetária e das taxas de juros (só agora em setembro) deixado a situação sair do controle e o repique do dólar ter pressionado mais a alta dos combustíveis derivados de petróleo.

Num dos gráficos apresentados, tendo por base dezembro de 2019, o Brasil, praticamente autossuficiente em petróleo e com oferta diversificada de fontes próprias de energia, lidera a alta dos preços da energia entre os países emergentes, com aumento acumulado de 28% até agosto de 2021. A Turquia, importadora de petróleo e gás, vinha em 2º, com alta de 22%. O Peru acumulava 19% e a Índia (também importadora de petróleo) tinha alta de 18%.

Macaque in the trees
. (Foto: Bloomberg)

 

O que aconteceu na energia repetiu o erro da equipe econômica do governo Bolsonaro em 2021 (quando o barril de petróleo estava em baixa), mas a disparada do dólar encareceu os alimentos, exportados e cotados em dólar, para o consumidor brasileiro. Em meio ao forte desemprego, isso aumentou a miséria e a fome da população de baixa renda.

Macaque in the trees
. (Foto: Bloomberg)

No gráfico sobre a escalada dos índices de preços ao consumidor (IPC) entre os emergentes, nos quais os custos da alimentação e da energia e combustíveis têm grande influência, o Brasil está também no “grid” de largada. Tomando como ponto de partido janeiro de 2020, até agosto de 2021 a liderança é da Turquia (importadora de alimentos e petróleo), com 27% de alta, seguido pelo Brasil, com 10%, a Rússia com 9% e a Índia com 8%. Só que o “celeiro agrícola” e o dono do pré-sal, não tem atenuantes como os demais.



Gilberto Menezes Cortes
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