Bolsonaro contrata inflação para 2022

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A taxa de 1,14% para o IPCA-15 de setembro (prévia da inflação cheia do mês que será divulgada dia 8 de outubro pelo IBGE) não foi só a maior inflação para setembro no Plano Real, criado em 1º de julho de 1994, elevando a taxa acumulada em 12 meses para 10,05%. A taxa do IPCA-15 superou todas as previsões (o Bradesco previa 1,06% e a média do mercado, 1,03%) e a LCA Consultores já prevê taxa de 1,23% para o mês cheio. Seria a maior taxa mensal desde os 1,35% de dezembro de 2020. E elevaria a inflação do IPCA em 12 meses a 10,3%.

Nada menos que sete da 10 regiões metropolitanas e cidades pesquisadas no IPCA-15 pelo IBGE (no IPCA cheio, são 16 localidades) já estão com inflação de dois dígitos. Curitiba lidera a lista com 12,61%, seguido por Fortaleza, com 11,49% e Porto Alegre, com 11,37%. Curiosamente, as duas cidades de residência do presidente da República estão com as menores inflações em 12 meses no IPCA-15: o Rio de Janeiro tem a menor taxa, de 8,75% e Brasília, tem 9,07%. Salvador vem a seguir, com 9,08%, e São Paulo tinha 9,39%.

Mas o efeito mais danoso da entrada no patamar de dois dígitos da inflação em 12 meses – de resto já atingido pelos itens Alimentação e Bebidas, que subiu 1,27% no IPCA-15 de setembro, chegando a 13,36% em 12 meses; em Habitação, que subiu 1,55% e acumula 12,86% em 12 meses; de Artigos de Residência (alta mensal de 1.23% e 13,18% em 12 meses) e de Transporte, o grande vilão do mês, com 2,22% (o dobro da taxa de agosto) e que acumula 17,25% em 12 meses – é o repique inflacionário que a indexação de preços administrados (corrigidos pela inflação passada) vai reservar para o ano eleitoral de 2022.

Entre os quatro itens que estão com índices acumulados em 12 meses bem abaixo da média de 10,05% do país, tirando vestuário que acumula 6,97% pela retração do consumidor, três deles são os que têm reajustes anualizados pela inflação passada: Educação que teve queda de 0,01% em setembro (o reajuste é no começo do ano e subiu apenas 2,85% este ano, pela inflação de 2020); Comunicação, que acumula apenas 0,98% em 2021; e Saúde e Cuidados Pessoais, com alta de 3,36%. Este item é muito influenciado pelos reajustes anuais dos Planos de Saúde (que este ano estão tendo redução pelo menor uso de consultas e serviços, apesar e devido à Covid-19) e pelos medicamentos (em situação semelhante). Tudo indica que os reajustes destes segmentos vão dobrar ou triplicar.

Acima do esperado

Ao comentar o resultado, na retrospectiva da “Semana em Foco”, o Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco foi direto ao comentar a segunda surpresa altista mensal seguida: “O resultado venho acima do esperado. A prévia da inflação foi puxada pela forte alta de alimentação no domicílio, em função dos problemas climáticos que impactaram os preços de produtos in natura, e pela alta de preços monitorados, refletindo o encarecimento das contas de energia elétrica (com aumento do valor da bandeira de energia elétrica) e combustíveis (alta do etanol pressionando os preços da gasolina). Adicionalmente, os núcleos seguiram apresentando dinâmica desfavorável, com a persistência das altas em bens industriais e de serviços, diante da reabertura da economia”, conclui o Bradesco.

Em transportes, cuja alta de 2,2% contribuiu com 0,46% na formação da taxa mensal de 1,14% do IPCA-15, as maiores pressões vieram de combustíveis (3,00%), acima da registrada em agosto (2,02%). A gasolina subiu 2,85% e acumula 39,05% em 12 meses. Esse subitem exerceu o maior impacto individual do mês no IPCA-15, o mesmo da energia elétrica: 0,17 ponto percentual. Os demais combustíveis também apresentaram altas: etanol (4,55%), gás veicular (2,04%) e óleo diesel (1,63%).

O resultado do grupo Alimentação e bebidas (1,27%, que contribuiu com 0,27 pontos percentuais na inflação) foi influenciado pela alimentação no domicílio, que acelerou de 1,29% em agosto a 1,51% em setembro. As carnes subiram 1,10% e contribuíram com 0,03 p.p. de impacto. Além disso, houve altas também nos preços da batata-inglesa (10,41%), do café moído (7,80%), do frango em pedaços (4,70%), das frutas (2,81%) e do leite longa vida (2,01%). Houve queda pelo 8º mês consecutivo nos preços do arroz (-1,03%) e pelo 6º mês seguido nos preços da cebola (-7,51%).

Terceiro maior impacto (0,25 p.p.) no IPCA-15) a alta de 1,55% no grupo Habitação foi causada novamente pela energia elétrica (3,61%), embora com alta inferior aos 5% de agosto, quando vigorou a bandeira vermelha patamar 2, com acréscimo de R$ 9,492 a cada 100 kWh consumidos. A partir de 1º de setembro, passou a valer a bandeira tarifária de Escassez Hídrica, que acrescenta R$ 14,20 para os mesmos 100 kWh. Além disso, houve reajuste de 8,92% nas tarifas em Belém (10,24%), a partir de 7 de agosto.

Ainda em Habitação, destaca-se a redução na taxa de água e esgoto (-0,08%), devido à mudança na metodologia de cobrança das tarifas em Belo Horizonte (-9,47%), em 1º de agosto. Mas houve reajustes de 11,93% em Recife (10,07%), a partir de 19 de agosto, e de 9,07% em uma das concessionárias de Porto Alegre (4,44%), vigente desde 14 de agosto. O gás encanado subiu (2,20%), decorrente dos reajustes de 5,71% no Rio de Janeiro (3,24%), aplicado desde 1º de agosto, e de 10,80% em Curitiba (10,80%), também em 1º de agosto e apropriado integralmente no IPCA-15 de setembro.

 

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Itaú: racionamento faria PIB cair 1,5% em 2022

No cenário de pesadelos cercando a candidatura à reeleição do presidente Jair Bolsonaro, a inflação parece ser o menor dos problemas a impulsionar, junto com a desastrosa condução da pandemia da Covid-19, a candidatura do ex-presidente Lula, na liderança absoluta das pesquisas. O Departamento de Estudos Econômicos do Itaú-BBA soltou agora há pouco um estudo especial em que considera um cenário desastroso se vier o racionamento de energia em 2022.

O banco lembra que “em meio a um cenário de chuvas abaixo da média e reservatórios em níveis baixos, o risco de uma crise energética cresceu, aumentando, assim, a possiblidade de um episódio de racionamento, como o que ocorreu em 2001”.

Na ocasião, lembra o estudo “o racionamento para indústrias e residências (que teve início em junho) foi um choque de oferta, isto é, teve impacto negativo na atividade econômica e na inflação (via efeito direto da energia elétrica mais cara, depreciação do câmbio e maior inércia inflacionária)”.

Relembra o Itaú que “os preços dos ativos também foram impactados: a taxa de câmbio depreciou 10%, o Ibovespa caiu 19% e as taxas de juros de mercado subiram aproximadamente 200 pontos-base durante o período inicial do racionamento (maio e agosto de 2001). No mesmo período, o Banco Central (BC) subiu a taxa Selic em 275 p.b., de forma a combater os efeitos secundários sobre a inflação”.

Racionamento derrotou Serra e elegeu Lula

O Itaú esqueceu de dizer e eu relembro, que a eleição do ex-ministro da Saúde, José Serra, como sucessor de Fernando Henrique Cardoso, após oito anos de mandato do PSDB começou a desmoronar no final de abril quando uma estiagem semelhante à que atingiu o Brasil desde o ano passado foi esvaziando o nível de água nas hidroelétricas até o governo criar um “Gabinete de Crise”, comandado pelo então chefe da Casa Civil, Pedro Parente.

A economia foi prejudicada, a inflação acelerou, a produção caiu e o desemprego aumentou, favorecendo Lula. Mas a matriz energética mudou com a implantação de dezenas de usinas termoelétricas (movidas a gás natural principalmente), além de unidades de energia eólica e solar pelo país afora (essas duas fontes já representam quase 8% da energia total atual e poderiam ter sido melhor acionadas para poupar as águas nos reservatórios.

Hipótese a considerar

Cauteloso, mas como todo bom planejamento econômico tem de contemplar dois ou três cenários: o provável, o otimista e o pessimista, o Itaú conjectura:

“Hoje, as medidas de redução voluntária no consumo de energia já foram tomadas, restando, portanto, se a crise continuar, medidas de punição/racionamento”, já admite e prossegue.

“Se o racionamento for decretado no próximo ano (considerando, por exemplo, uma queda forçada na demanda de energia elétrica de 10%), o PIB pode contrair 1,5%, a inflação subiria aproximadamente 150 p.b. (especificamente, o IPCA projetado para 2022 iria de 4,2% para 5,7%) e haveria depreciação adicional de 5% da moeda”.

“A resposta do Banco Central seria a elevação da taxa básica de juros para entre 10,25% e 11,25%, combatendo os efeitos secundários do choque”.

Bolsonaro e filhos deveriam ter pensado nisso antes, assim como Paulo Guedes.



Gilberto Menezes Cortes
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