Brasil tem tantos CPFs quanto habitantes

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“Isto pode Arnaldo?”, diria Galvão Bueno, ao ler a informação, no balanço da Receita Federal do Brasil sobre a arrecadação de impostos em agosto de 2021, de que o país tem 212,7 milhões de CPF regulares e 19,6 milhões de CNPJ ativos. Como se sabe, a frase era o mote para o locutor tirar dúvidas sobre lances de uma partida com o ex-árbitro da Fifa, Arnaldo César Coelho.

A pergunta cabe porque o número de Cadastros de Pessoas Físicas regulares segundo a Receita é quase igual ao da população projetada hoje (23 de setembro, às 16h20) para o Brasil pelo IBGE: 213,633 milhões de habitantes.

CPF normalmente é tirado por brasileiros acima de 16 anos (para menores de 18 anos a operação tem de ser feita com acompanhamento dos pais). Estrangeiros em atividade no país também podem tirar CPF para recolherem impostos e terem direito no acesso a serviços públicos no Brasil.

Pelas estimativas do IBGE, em 2021 a população com idade de zero a 14 anos (que dificilmente teria CPF) representaria 20,65% da população total (ou pouco mais de 44 milhões de pessoas). Admitindo que houvessem um milhão de estrangeiros com CPFs registrados no país (o que é muito), sobrariam 180 milhões de brasileiros aptos a tirar CPF.

Com 212,7 milhões de CPFs, segundo a RFB, 42 milhões deles seriam fantasmas (de documentos falsos a números de pessoas já falecidas). Mesmo considerando as quase 600 mil mortes por Covid-19, é um exagero. Isto explicaria tantos golpes na praça.

O que não se entende é por que a Receita não fecha o cerco? O INSS faz a prova de vida para confirmar se o segurado/pensionista ainda está aqui entre nós. Em uma agência do Banco do Brasil vi ontem um segurado ser convidado (relutou a princípio) fazer “a prova de vida”, que só demorou 10 minutos.

Arrecadação é pista para crise energética

A arrecadação total de agosto de 2021 atingiu R$ 146,463 bilhões, com crescimento real (descontado o IPCA acumulado de 9,68% em 12 meses) de 6,05% sobre agosto de 2020. Segundo a Receita Federal, de janeiro a agosto, a arrecadação somou R4 1 trilhão 199,7 bilhões, com aumento real (descontada a inflação) de 22,71% no período.

O governo comemora a arrecadação, fruto da inflação maior, do crescimento da produção e da redução/fim das desonerações fiscais e reduções de contribuições trabalhistas autorizadas em 2020 para aliviar a situação das empresas em dificuldades pela pandemia da Covid-19.

Tudo bem. Mas alguns indicadores mostram que a equipe econômica comeu mosca ao não desconfiar que o crescimento exagerado de algumas atividades industriais voltadas à exportação (preços em alta, influenciados pela desvalorização do real ante o dólar) teriam implicado elevado consumo de energia elétrica (pelo esvaziamento exagerado dos reservatórios das usinas) que agora ficaram em níveis críticos, com a ocorrência de forte estiagem.

Os estudiosos dos fatores de agravamento do descasamento entre o estoque de águas nos reservatórios das usinas hidroelétricas ao fim do 1º semestre de 2020 e o mês de agosto de 2021 apontaram o crescimento do consumo de energia dos setores eletrointensivos voltados à exportação.

Notadamente os setores de mineração (de ferro e não ferrosos, como cobre e alumínio), a produção da metalurgia, dos produtos petroquímicos e os de borracha e material plástico. Todos com taxas de crescimento (segundo o IBGE) bem acima da média da indústria no período.

Com o dedo na tomada

A própria Receita listou algumas atividades entre as que ela própria arrecada (R$ 400,4 bilhões, com aumento real de 35,11 (excluindo as contribuições previdenciárias) em que a arrecadação cresceu muito (combinação de aumento de produção/volume X preço) de janeiro a julho deste ano em comparação com o mesmo período de 2020:

 

Segmento / Variação real

Receitas apuradas pela RFB / +35,11%

Extração de minerais metálicos / +167,56%

Metalurgia / +106,21%

Fab. Borracha e Mat. Plásticos / +60,42%

Fab. Produtos Petroquímicos / +40,29%

Comércio atacadista / +31,17%

Entidades Financeiras / +17,64%

 

Só não viu quem não sabe correlacionar oferta e demanda nos grandes números da infraestrutura do país, onde se destaca a eletricidade.

Após Copom, Bradesco dá adeus às ilusões

Um dos bancos mais otimistas até a reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central, que ontem elevou de 5,35% para 6,25% a taxa Selic e anunciou nova alta de um ponto percentual em 27 de outubro e recrudescimento da política de aperto monetária, o Bradesco já anunciou hoje que irá alterar suas projeções para a inflação, Selic, PIB e dólar em 2021 e 22.

O Bradesco esperava que a Selic subisse a 7,50% até dezembro e assim permanecesse até dezembro de 2022. E previa inflação de 7,76% este ano, com o dólar fechando em R$ 5,00, e de IPCA de 3,34% em 2022, com dólar a R4 5,50. Já o PIB cresceria 5,20% este ano e 1,80% em 2022.

Mas, “sob a ótica do modelo da autoridade monetária, nas quais as projeções do IPCA atingem 8,5% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,2% em 2023, considerando uma Selic de 8,25% a.a. ao final de 2021, que se eleva para 8,5% em 2022 e cai para 6,75% em 2023”, (...) a nossa projeção para a taxa Selic, atingindo 7,5% ao fim deste ano, deverá ser reavaliada em nossa revisão mensal do cenário”, diz o Depec Bradesco.

A LCA Consultores trabalha com a hipótese da Selic chegar a 8,25% em dezembro subir para 8,75% em fevereiro, ficando assim até o final de 2022.

O Itaú desenha cenário semelhante à LCA e avalia que “o aperto monetário se estenderá até o começo de 2022; e entendemos que o ciclo se encerrará com a Selic chegando a 8,75%”, destacando que o comunicado do Copom, após a reunião “parece sugerir que as chances de um aperto ainda maior seguem significativas”, o que vai ser mais explicitado na divulgação da Ata, na 3ª feira, 28 de setembro.

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