Correndo atrás do rabo, ou casa de ferreiro...

.

CPDOC JB
Credit...CPDOC JB

Vejam com a inflação, que já atingiu os 9,68% nos 12 meses terminados em agosto, corrói o poder de compra da população e influi no consumo, quando o Banco Central precisa puxar o freio de mão dos juros para refrear a alta do dólar (um dos fatores de realimentação da inflação) e reduzir a velocidade da engrenagem de indexação que permeia boa parte da economia.

A Fecomércio RJ informa ter assinado ontem, 13 de setembro, a convenção coletiva de trabalho para os comerciários do município do Rio de Janeiro, referente ao período 2021/2022. O reajuste salarial concedido foi de 5%, e será pago em duas parcelas: a primeira de 2,5% retroativa ao mês de maio de 2021 e a segunda, também de 2,5%, a partir de outubro do corrente ano. O mesmo percentual será aplicado nos pisos salariais.

Com a inflação rodando a casa de 10% (previsão do Itaú e da LCA Consultores para o mês de setembro) a entidade máxima do comércio e de serviços da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro só pode conceder reajuste na metade da inflação corrente. Que fecha 2021 em 8,2%, para a LCA.

Reposição de metade da inflação

Para o passado – inflação de 4,50% em 2020, pelo IPCA, ainda dava um ganho salarial. Mas agora, não repõe metade do que a inflação está corroendo. E o setor de comércio e serviços é o que mais depende da elasticidade-renda da população para que o faturamento cresça.

Para a faixa dos que ganham até cinco salários mínimos (R$ 5.500,00), o grosso dos comerciários e prestadores de serviços, a inflação em 12 meses pelo INPC atingiu os 10,41% em agosto.

Entretanto, como as atividades de recreio, alimentação e hotelaria ainda estão a meia bomba, o reajuste salarial seguiu o que era possível. Hoje, o IBGE divulgou o resultado do segmento de serviços que pesquisa mensalmente (no cálculo do PIB o segmento abarca o comércio e atividades financeiras e de seguros e ainda as imobiliárias). Houve avanço de 1,1% no volume de serviços, mas com redução frente à velocidade de junho (+1,8%) e maio (+1,9%). E a atividade turística só cresceu 0,5% no mês de férias escolares.

Em julho, último mês pesquisado pelo IBGE, o volume de vendas do varejo cresceu 1,2% sobre junho, enquanto o varejo ampliado (que inclui carros, motos, autopeças e materiais de construção) teve avanço mensal de 1,1%.

Mas a escalada dos preços dos combustíveis (que prossegue até este mês) reduziu em 0,3% o volume de vendas em julho. E a alta dos juros (na tentativa do Banco Central de domar as altas labaredas da inflação, diante dos maiores gastos com combustíveis, transportes e energia elétrica) provocou queda de 1,4% nas vendas de móveis e eletrodomésticos, muito dependentes das vendas a crédito. As vendas de materiais de construção, que já tinham caído 3,7% em junho, encolheram mais 2,3% frente ao mês anterior em julho.

BC: “o gato subiu no telhado”

A uma semana da reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), quando os dirigentes da autoridade monetária devem guardar o período de silêncio, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou por duas vezes afirmou hoje, 3ª feira, 14 de setembro, no “Macro Day 2021”, evento virtual do BTG Pactual, que o Copom levará a Selic “para onde precisar levar” a fim de cumprir as metas de inflação.

As reuniões do Copom transcorrem em dois dias (sempre às terças e quartas feiras, a cada 45 dias). No primeiro, após as 13 horas, os oito diretores e mais o presidente se debruçam sobre os indicadores econômicos do país e do mundo. No segundo dia, decidem sobre a taxa de juros e os rumos da política monetária. Por isso, o período de silêncio começa à zero hora da 4ª feira da semana anterior à reunião. No caso da 241ª reunião (dias 21 e 22 de setembro), começa amanhã o período de silêncio.

No comunicado divulgado após a última reunião do Copom, em 4 de agosto, quando elevou em 1 ponto percentual (para 5,25% ao ano) a taxa Selic, o BC assinalou que “o Comitê antevê outro ajuste da mesma magnitude”, mas colocou um porém:

“O Copom enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar o cumprimento da meta de inflação e dependerão da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte relevante da política monetária”.

Como a conjuntura ficou extremamente negativa – o IPCA de agosto foi de 0,89%, 22 pontos percentuais acima dos 0,67% esperados pelo mercado (e o BC), elevando a taxa anual a 9,68% e houve reajuste de 50% na tarifa de energia em setembro, que deve gerar inflação de 1% este mês, nos cálculos do Itaú - estão dadas as condições para o Copom subir a Selic além de 1%.

Muito embora Campos Neto tenha feito a ressalva de que o BC não reagirá “sempre a[à divulgação de] dados de alta frequência”, para bom entendedor (e relembrando a velha piada do mordomo português), está insinuando que o gato de uma alta de 1,25 a 1,50 pontos percentuais subiu no telhado.

Façam suas apostas.

Ibovespa entende o recado

Como todos sabem, os juros altos são os maiores inimigos do mercado acionário. Não apenas porque os investidores podem ser tentados a deslocar aplicações da renda variável para a renda fixa (que ainda está perdendo feio para a inflação), mas, porque as posições nos mercados futuros e de opções têm de se ajustar à nova trajetória das taxas de juros.

Antes, estava quase todo mundo acreditando que até outubro a Selic subiria 1 ponto percentual a cada reunião do Copom, chegando a 7,25% em 27 de outubro. A montanha russa do Ibovespa mostra a rápida tentativa de mudança de posições. O índice abriu o dia a 116.404 pontos e subiu rapidamente a 117.269 pontos. Mas aí, às 10:34, veio o balde de água fria de Campos Neto e o índice desceu à mínima de 116.275 pontos. Por volta do meio dia estava em 116,220, queda de 0,16%. Os investidores estão nervosos.

É que amanhã, dia 15 é o dia do acerto do vencimento de opções do Ibovespa na B3 e no dia 17 (6ª feira) é o dia do vencimento das opções de ações.

No mercado do dólar, como ainda falta uma semana para a decisão do Copom, as cotações subiram 0,34% para R$ 5,2323 ao meio-dia.

Petrobras também no alvo

Quando o presidente Jair Bolsonaro anunciou, em fevereiro, que trocaria o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna no comando da estatal – o que se consumou em meados de abril, após o término do mandato de dois anos de Castello Branco – escrevi aqui no JB online que a intenção do presidente era fazer uso político da Petrobras nos reajustes dos preços dos combustíveis na campanha eleitoral de 2022– como fizeram Lula e Dilma para garantir suas reeleições (2006 e 2014).

Pois essa audiência hoje (14) na Câmara, com a presença de Silva e Luna, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), um dos maiores aliados do presidente da República, pegou pesado no populismo para a área de combustíveis acusando a estatal de praticar preços elevados para a população:

“Está tudo caro: gasolina, diesel, gás de cozinha".

Quando congelou os preços dos combustíveis em 2013, para garantir sua reeleição (o GLP já vinha congelado desde 2012) Dilma gerou um prejuízo (com perda de faturamento, enquanto o dólar e o preço do barril subiam) de quase R$ 100 bilhões. Tão grande quanto os superfaturamentos da Lava-Jato.

O investidor em Petrobras PN (Petra 4) já sentiu o clima de que pagará o preço para recuperar a popularidade do candidato e a ação cai 1,56% para R$ 25,82 pouco depois do meio dia. E Petra 3 (PN) tem baixa de 1,41% a R$ 26,50.



Edifício sede da Petrobras na Avenida Chile, centro da cidade.
Gilberto Menezes Cortes