Inflação dos mais pobres chega a dois dígitos

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Em economia, olhar pelo para-brisa é muito mais importante que pelo retrovisor (salvo se um caminhão-jamanta vier por trás, a toda velocidade). No momento, há alguns caminhões-jamanta na pista: a conta de energia, que disparou 50% a partir de 1º de setembro, para conter o consumo e evitar o racionamento, e caminhoneiros mesmo, insuflados pelo presidente Jair Bolsonaro a mobilizar greve nacional contra o Supremo Tribunal Federal e governadores.

O alvo está errado. O STF não interfere no preço da gasolina (que subiu 2,80% em agosto), do diesel (+1,79%), do GNV (+2,06%(, do etanol (+4,50%), além do GLP (+2,40%) no mês passado, pressionados pela alta das cotações internacionais e pela queda do real frente ao dólar. Mas dá para pedir serenidade aos liderados por um tal de “Zé Trovão” e insuflados por um presidente que trafega pelo acostamento da Constituição e ameaça o golpe?

Os caminhoneiros não acreditaram nos apelos do presidente da República na noite de ontem para que liberassem as estradas (afinal, foram mobilizados para a “guerra” ou “golpe” do 7 de setembro durante dois meses) e Bolsonaro teve de renovar os pedidos na manhã de hoje para as barreiras serem desfeitas.

De acordo com o IBGE, que divulgou nesta 5ª feira, 9 de setembro, a inflação de agosto, de 0,87% medida pelo IPCA - muito acima das previsões do Itaú e da LCA Consultores (+0,70%) e do Bradesco (+0,71%), na maior alta para o mês de agosto deste 3º milênio -, a alta de 2,96% nos combustíveis foi o principal fator do recorde para agosto, que gerou alta de 1,46% no item Transportes, com contribuição de 0,31 ponto percentual no IPCA mensal.

O 2º maior aumento veio da Alimentação e Bebidas (+ 1,39%, impacto de 0,29 p.p.). Em 3º lugar veio o item Habitação, com alta de 0,68% e contribuição de 0,11 p.p., influenciado pela alta de 1,10% em energia elétrica (pelo calendário de reajustes anuais, sem ainda computar a alta de setembro) e pela elevação de 2,70% no gás encanado e de 2,40% no gás de botijão (GLP).

Queda do dólar traz alívio

Menos mal que após o dia tenso de 4ª feira no mercado financeiro, quando o Ibovespa despencou quase 4% e o dólar comercial subiu 2,89%, as ações se recuperaram ligeiramente na B3 e o Ibovespa subia 0,05 ao meio dia, com 113.473 pontos, enquanto o dólar caí 0,92% para R$ 5,27 por volta do meio dia.

Mas as projeções do mercado financeiro são preocupantes. Até o fim do ano a taxa acumulada em 12 meses, que chegou a 9,42% no IPCA (a inflação oficial que mede os gastos das famílias com rende mensal até 40 salários mínimos – R$ 44 mil) e rompeu os dois dígitos no INPC, que mede as despesas das famílias com renda até 5 SM – R$ 5.500 e chegou a 10,42%, tende a cair. Mais pelo efeito calendário. Nos quatro últimos meses de 2020 os índices mensais foram muito altos: 0,64% em setembro, 0,86% em outubro, 0,89% em novembro e 1,35% em dezembro, salvo um desastre, a inflação cairá para a faixa de 7,70%, como prevê o Itaú e a LCA Consultores. Mas isso pode mudar se o país tiver de caminhar para mais restrições no uso da energia, com apagões pontuais, por sobrecarga no sistema elétrico (Sistema Integrado Nacional).

O cenário de 2022

Com as últimas manifestações lideradas pelo presidente Bolsonaro, o ano de 2022 entrou mais rápido à frente do parabrisa. A pressão inflacionária deve forçar o Comitê de Política Monetária, que decide a taxa de juros básica (Selic) em 22 de setembro a elevar o atual nível de 5,25% ao ano para 6,25% e sinalizar nova alta de 1 p.p. em outubro. Juros em alta para conter a inflação tendem a refrear o consumo e interromper a recuperação da economia e do emprego no mercado de trabalho. O que só tende a acirrar o cenário de 2022.

O mercado financeiro (segundo a última pesquisa Focus, divulgada dia 5 pelo Banco Central) está prevendo nível entre 7,50% e 8% este ano. Mas a nova rodada de pesquisa a ser fechada amanhã e divulgada dia 12, promete nova escalada da Selic e quedas do PIB. A LCA está prevendo que a Selic feche o ano em 8% e assim permaneça até dezembro de 2022.

Neste cenário, depois da queda de 0,1% no PIB do 2º trimestre e com os problemas pontuais na agricultura e na indústria, está prevendo alta de 5% no PIB de 2021 (com risco de queda) e colocou viés de baixa na sua previsão (otimista) de alta de 2% no PIB em 2022. O Bradesco espera alta de 1,8% (era de 2,2%) e o Itaú reduziu a projeção de 1,8% para 1,5%. Já a MBA associados espera não mais que 1,4%, com tendência de baixa.

O presidente Jair Bolsonaro deve ter percebido que a sua mobilização foi meio um tiro no pé (aliás, sua pregação de que um fuzil é mais relevante do que o feijão) caiu mal entre o povão, até mesmo aliados políticos viram na comparação um tiro pela culatra. A alimentação segue em alta e pressionando as famílias mais pobres, que são a maioria do eleitorado que decidirá em 2022.

Impacto dos combustíveis

Os reajustes dos combustíveis nas refinarias da Petrobras se refletiram no IPCA e no INPC. Nos primeiros oito meses do ano, a gasolina teve alta de 31,09%. No diesel, o aumento acumulado foi de 28,02%. O etanol também registrou altas sem precedentes: 62,26% em 12 meses, 40,75% no ano, e 4,50% em agosto.

Os efeitos em cascata dos reajustes dos combustíveis atingiram duramente também os transportes, que subiram 1,46% em agosto, e 11,44% no ano. O gás de botijão teve alta recorde de 23,79% nos primeiros oito meses deste ano, acumulando em 12 meses, até agosto, 31,70%. O reflexo da alta do gás de cozinha foi sentido no item alimentação e bebidas, que aumentou 13,94% em 12 meses, ou 4,77% de janeiro a agosto.

Em termos de impacto, as famílias com renda mais baixa, cuja cesta de consumo é captada pelo INPC, são as que estão sofrendo mais: já vivem, na média nacional, uma inflação de dois dígitos (10,42% nos 12 meses terminados em agosto). Mas nada menos que em 11 das 16 cidades e regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE, os números já passam de dois dígitos.

Curitiba (capital do estado que é um dos celeiros do Brasil), com influência do reajuste anual de energia elétrica, acumula a maior inflação pelo INPC (12,92%) e no IPCA (12,08%, onde o item Alimentação e bebidas acumula 15,07% em 12 meses). Rio Branco (Acre) tem a 2ª maior inflação (12,21% no INPC e 11,97% no IPCA).

Estranhamente (e o IBGE precisa esclarecer melhor isso, pois ainda não voltou a fazer plenamente pesquisas de campo nos mercados e supermercados, devido às restrições da pandemia da Covid-19), Brasília e Rio de Janeiro, cidades de residência da família Bolsonaro tem das mais baixas taxas de inflação do país. Em agosto, Brasília acumulou 8,61% no IPCA em 12 meses e 9,75% no INPC. Já no Rio de Janeiro as altas foram, respectivamente, de 0,05% (INPC) e apenas 8,09% no IPCA, a menor do país.

 

Inflação de dois dígitos na maioria das cidades

Região INPC (%) / IPCA (%)

Brasil 10,42 / 9,68

Curitiba (PR) 12,92 / 12,08

Rio Branco (AC) 12,21 / 11,97

Campo Grande (MS) 12,08 / 11,26

Vitória (ES) 11,81 / 11,07

Fortaleza (CE) 11,65 / 11,20

Porto Alegre (RS) 11,34 / 10,42

São Luís (MA) 10,90 / 11,25

São Paulo (SP) 10,55 / 9,12

Goiânia (GO) 10,34 / 10,54

Recife (PE) 10,28 / 9,65

Belo Horizonte (MG) 10,11 / 9,67

Brasília (DF) 9,75 / 8,61

Salvador (BA) 9,14 / 8,59

Rio de Janeiro (RJ) 9,05 / 8,09

Aracaju (SE) 8,84 / 8,79

Belém (PA) 8,70 / 9,76

Fonte: IBGE

Itaú: Selic não deve subir acima de 8%

Não sei se serve de alento ou alerta. Estudo publicado ontem por três economistas do Departamento de Estudos Econômicos do Itaú - Guilherme Martins, Julia Gottlieb, Julia Passabom) dando conta de que a necessidade do Banco Central adotar “uma taxa Selic aproximadamente 1,0 p.p. acima da taxa de juro neutro parece consistente com o desvio atual das projeções do IPCA [7,7% pelo Itaú] com relação à meta” [de inflação, de 3,50% em 2022].

Entretanto, eles ressalvam: “Reconhecemos que há chance considerável da taxa Selic precisar subir além deste nível, dado que o risco inflacionário permanece elevado (choque de energia, gargalos no setor de bens, recuperação do mercado de trabalho formal e maior inércia inflacionária) e que existe a possibilidade de o juro neutro ser mais alto devido ao prêmio de risco fiscal”.

Um alento: algumas condições atuais (inflação de serviços inicialmente baixa, hiato no mercado de trabalho, expectativas ancoradas e abrangência da política monetária) são mais favoráveis do que quando comparadas, por exemplo, com o último ciclo inflacionário de alta de juros (em 2013/15). Tais diferenças devem permitir que a taxa Selic chegue no fim do ciclo atual em nível bem menos restritivo do que o observado no ciclo anterior”.

Isso também explica muito a escalada dos juros futuros desde 8 de setembro.