Banco Central já estuda a inflação do futuro

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Através do Comitê de Política Monetária, vulgo Copom, que procura imitar no Brasil o papel do FOMC (o Federal Open Market Committee, do Federal Reserve Bank, o banco central americano) na formulação da política monetária, nosso Banco Central procura se municiar de dados para se antecipar às tendências e assim interferir na formação de expectativas futuras da inflação.

Para tal, além do manejo dos instrumentos de política monetária (definição de juros do redesconto e do piso do mercado – a taxa Selic – e de níveis de encaixe compulsório em dinheiro ou títulos, o BC faz intervenções diárias no mercado aberto de títulos públicos e também no mercado de câmbio, com sucessivas operações de swap. Como o Brasil se transformou em grande exportador de “commodities” agrícolas, minerais e de petróleo, acompanhar a trajetória futura é tão importante quando administrar o câmbio, que pode acelerar ou não as pressões inflacionárias vindas de fora.

Nem sempre o Banco Central (em várias administrações) teve sucesso em antecipar movimentos inflacionários os quais, por sua vez, nem sempre podem ser contidos pela política monetária (uma quebra de safra impacta os preços dos alimentos e não adianta o Copom elevar os juros, pois vai esfriar o consumo e setores que nada têm a ver com isso, sem conter a alta especulativa com os estoques de alimentos (sobretudo os de cinco curto, como os hortifrutigranjeiros, mais sensíveis à variações climáticas).

O impacto do dólar no diesel e no IPCA

A atual administração errou em não controlar a alta do dólar no ano passado, que acelerou inicialmente a inflação dos alimentos e desde dezembro, a escalada dos preços dos combustíveis. Vejam o caso recente da inflação brasileira: o ano começou com o mercado estimando, na Pesquisa Focus de 31 de dezembro de 2020, a inflação de 2021 em 3,38%, para a qual uma alta para 5% na taxa Selic seria capaz de acomodar os preços para a meta de inflação de 3,50% em 2022. E o PIB cresceria 3,40% este ano e 2,50% em 2022.

Graças à boa safra da soja, colhida basicamente no 1º trimestre, o Produto Interno Bruto cresceu 1,2% na largada do ano e as previsões em 20 de agosto apontam agora crescimento de 5,27% no PIB, mas com inflação de 7,11% (7,18% nos últimos três dias) o que obrigará o Copom a elevar a Selic a 7,50% até dezembro, nível mantido para 2022. (há apostas no mercado em 8%).

Se houve boa safra na largada (os efeitos das geadas de julho são passageiros e vão se dissipar), por que as projeções de inflação vêm crescendo semanas a semanas? Você pode perguntar, caro leitor, com perplexidade, como isso ocorre sem que a economia esteja bombando? Ao contrário, com a escalada da inflação dos alimentos e da energia [crise energética agravada por falta de controle sobre o crescimento excessivo do consumo de indústrias eletro-intensivas em 2020, quando a alta do dólar estimulou exportações] as previsões do PIB caem semanalmente para 2021 e 2022.

A explicação está na alta do dólar, que o BC não conseguiu frear porque foi tímido nos movimentos de alta da Selic a partir de março. Se, em vez dos 0,75 pontos iniciais que surpreenderam o mercado (esperava 0,50%), repetidos em maio e junho, o Copom tivesse engrenado uma escalada de 1 ponto percentual nas três primeiras altas do ano, não estaria hoje correndo atrás do rabo (elevou em 1 p.p. em agosto e deve repetir a dose em setembro), sem refrear o dólar.

O dólar subiu 3,60% este ano, sendo 3,15% este mês. Com isso está anulando o refresco recente da desaceleração dos preços, em dólar, do petróleo (caiu 6% em 30 dias), da soja (baixou 10,37% em 30 dias) e do milho (queda de 5,77% no mesmo período). Até o preço da arroba da carne (15 kgs) caiu 2%. Se o dólar está subindo, a culpa é do Banco Central, sem dúvida.

Se a gasolina, o etanol, o gás natural, o GNV e o diesel estão subindo e inflamando os caminhoneiros (donas de casa e motoristas em geral) a culpa não é dos governadores e prefeitos pelos impostos na bomba (ICMS estadual), como procura desviar a responsabilidade o presidente Jair Bolsonaro. A culpa é da sua política econômica, comandada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e o Banco Central, comandado por Roberto de Oliveira Campos Neto.

Se o BC tivesse se antecipado na alta dos juros, o real poderia ter se recuperado e o câmbio abaixo de R$ 5 traria menos pressão sobre combustíveis e alimentos. E o barril de Brent tem tendência de alta de outubro (quando o outono aumenta a demanda por aquecimento no Hemisfério Norte) até maio de 2022, quando a temperatura sobe com a proximidade do verão.

Mas o BC olha para o futuro

Se o Banco Central tem falhado em tempos recentes (critiquei muito Ilan Goldfajn no governo Dilma) a palestra do atual presidente Roberto Campos Neto, feita em inglês, dia 19 de agosto, aos membros do Conselho das Américas traz uma luz de esperança. Enquanto o governo Bolsonaro parece ignorar os últimos compromissos dos países signatários do Acordo de Paris, que reduziram em 10 anos (ao menos) as metas de redução de emissões de CO2 de 2060 para 2050), visando conter o aquecimento global, esta foi a 1ª apresentação de um alto membro do governo Bolsonaro que demonstra preocupação de estar olhando a economia para os próximos 20 anos.

Para um país que está pelo menos dois anos atrasado na implantação da banda 5G na telefonia, que facilitaria um salto tecnológico na indústria brasileira (indústria 4:0), ampliando a integração nas cadeias globais de produção, é música para os ouvidos saber que o Banco Central já está fazendo simulações sobre a demanda de novos metais e tecnologias para substituição dos modelos vigentes atualmente. O BC simulou os novos metais que serão demandados pelo avanço do carro elétrico (de produção ainda tímida no país), bem como no avanço da energia eólica (em terra e no mar) e na energia solar.

É um cenário no qual as grandes corporações já estão se debruçando há mais de uma década. Mas, o Brasil da família Bolsonaro parece preocupada em fazer “avançar a agenda conservadora”, como era o mote da campanha de reeleição do filho 02, o vereador Carlos Bolsonaro para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro (Republicados). Semana passada, o Ministério de Minas e Energia, à frente o ministro almirante Bento Albuquerque, e mais as cúpulas da ANP e da PPSA saíram em “road show” pelo mundo para tentar atrair grandes companhias de petróleo para leilões de campos de petróleo da cessão onerosa do pré-sal que não foram arrematados em 2019.

Quase todas as “majors” petrolíferas, incluídas as estatais chinesas, que ainda precisam de muito petróleo nesta fase de transição, já estão engajadas em novas fontes de energia e no mundo do carro elétrico, que vai criar um cenário totalmente novo de consumo de combustíveis e metais, e incremento do consumo de equipamentos eletrônicos (hoje o gargalo da produção industrial, especialmente de automóveis, em todo o mundo).

Nesta palestra, que pode ser acessada no site do BC (bcb.gov.br), Campos Neto apresentou um gráfico com a escalada no uso de componentes eletrônicos no valor final de um carro: no começo deste século, a produção mundial usava só 18% de chips nos carros; em 2010 saltou para 27%, pulou para 40% em 2020 e deve chegar a 45% em 2030.

A tendência de uso cada vez maior de carros elétricos ou híbridos em relação aos modelos com motores a gasolina (etanol no Brasil) ou a diesel também muda o consumo nacional que usavam gasolina. O aumento do uso de energias limpas pela Humanidade deve fazer o uso de gasolina baixar dos atuais 70/71% para 40% em 2049. No diesel, o declínio seria dos atuais 26% para a faixa inferior a 15%.

BEV afeta combustíveis e metais

Ambos dariam lugar ao avanço dos veículos elétricos movidos a bateria (BEV na sigla em inglês), que acelerariam dos atuais 2% para mais de 30% em 2049. Considerando a fatia de 12/13% em 2049 de carros híbridos (motores elétricos convivendo com motores a combustão), a energia das baterias comandaria a movimentação do Homem em terra. O impacto já estudado pelo Banco Central afetaria não somente o mercado de combustíveis, mas também o de metais.

Os carros atuais usam muito peso de aço e metais mais leves, como alumínio. O carro elétrico vai demandar lítio (componente básico das baterias) cobalto, níquel cobre e metais das chamadas terras raras. O perfil da Vale, por exemplo, já estava mais próximo desta diversificação há uma década, mas voltou a se concentrar em minério de ferro e cobre. Espera-se que a maior mineradora do Brasil avance nestas novas áreas.

O avanço na mineração é visto pelo governo Bolsonaro como um “liberou geral” para os garimpeiros avançarem na mineração do ouro e outros minerais mais nobres em terras indígenas. A exploração de minerais nobres (encontrados em terras raras, como nióbio e grafite, ou grafeno) exige escala industrial competitiva, muito maquinário e capital. Não é para amadores

O avanço da energia eólica vinda do alto mar (fronteira mais promissora que a obtida em terra) vai exigir maior consumo de metais não oxidáveis como cobre, zinco, cromo, terras raras (nióbio, por exemplo) e manganês. A energia solar vai demandar muito cobre e silício (o grafite será o material mais explorado no afinamento de placas de mais absorção de energia do sol).

Nada mais revolucionário que o carro elétrico. O atual, movido a motor a explosão, carrega, em média, 28 kgs de componentes de cobre e 8 kgs de manganês. No carro elétrico, rodarão, em média, 52 kgs de cobre, 4 kgs de lítio, 45 kgs de níquel, 25 kgs de manganês, 5 kgs de cobalto e, aproximadamente, 80 kgs de grafite (ou grafeno). Vejam a projeção do avanço do consumo de novos minerais no mundo da energia limpa (Acordo de Paris).

Macaque in the trees
. (Foto: .)



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