O conto do "bilhete premiado" da CEF

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Mário Henrique Simonsen, um dos mais completos e íntegros economistas que conheci no Brasil, tinha uma frase lapidar sobre a responsabilidade dos gestores da coisa pública. Comparava o hábito dos governantes de gastar irresponsavelmente receitas públicas sem pensar no amanhã (na curva das projeções macroeconômicas) à atitude da família de classe média que “vendia o apartamento para passar férias na Europa”.

A frase foi dita nos anos 70. Hoje, boa parte da classe média brasileira, em vez de tomar um banho de cultura civilizatório em viagem às principais cidades europeias e do Oriente Médio, iria gastar dólares frivolamente na Flórida. Em especial nos parques temáticos da Disney ou nos shoppings e "out-lets" de Miami. O jornal “O Globo” traz hoje uma reportagem que, se não for “merchandising” do grupo Disney e operadoras e companhias de aviação especializadas em levar brasileiros para lá, é uma prova de futilidade de muita gente. Uma comediante, que não vou dizer o nome, confessa já ter estado “15 vezes” nos parques da Disney...

O caso das viagens da classe média me veio à memória ao ver nesta 5ª feira os balanços do 2º trimestre e 1º semestre da Caixa Econômica Federal, comemorados efusivamente pelo presidente Pedro Duarte Guimarães. No “release” oficial a Caixa lucrou R$ 6,3 bilhões no 2º trimestre (na verdade R$ 6,259 bilhões), com aumento de 144,7% sobre o 2º trimestre de 2020, e R$ 10,844 bilhões no 1º semestre (na verdade, R$ 10.843,5 milhões), com aumento de 93,4% sobre o mesmo período do ano passado.

Na comunicação ufanista a CEF destaca ter, finalmente, conseguido publicar os balanços auditados (pela PricewaterhouseCoopers), sem as ressalvas, referentes ao período compreendido entre o 4º trimestre de 2017 e o 1º trimestre de 2019 (início da gestão Pedro Guimarães), por falta de transparência nos prejuízos de negócios feitos por ex-dirigentes entre 2009 e 2015 com recursos do fundo de investimentos FI-FGTS da CEF, como na Sete Brasil, que faria plataformas de petróleo da Petrobras e malogrou.

Alguns ex-dirigentes, como o vice-presidente de fundos e programas, o ex-deputado Geddel Vieira Lima, foram presos e condenados. No balanço divulgado, esses investimentos, no montante de R$ 32 bilhões, valem só R$ 7,6 bilhões (um megaprejuízo de R$ 24,4 bilhões). Pedro Guimarães diz que a “Caixa é o maior banco brasileiro em número de clientes, responsável por 36,1% de depósito em poupança no Brasil e 67,3% do crédito habitacional”.

Analisando, à distância, os números da CEF, a impressão é de que ela ficou mais eficiente que o Banco do Brasil. Afinal, o BB lucrou R$ 5 bilhões no 2º trimestre e R$ 10 bilhões no 1º semestre (com evolução de apenas 48,4% sobre igual período do ano passado). Observando os números do balanço não é bem assim. A CEF, sem ter capital aberto ou ações negociadas em bolsas, não publicava balanço com a transparência exigida pela IFRS (normas internacionais), só adotando os critérios nacionais da BrGAAP. Só em abril deste ano se enquadrou nas normas da IFRS. Mas ainda falta mais clareza sobre o rateio do prejuízo do FI-FTGS. A CEF diz que garantiu o rendimento mínimo aos trabalhadores, donos das cotas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, que administra. E distribuirá, depois de muitos anos passados em vermelho, R$ 8,13 bilhões de lucro do FGTS.

Lucro com a venda de ativos

Chama a atenção nos inflados lucros do 2º trimestre e 1º semestre estarem ambos atrelados à venda de ativos, mas só se vê isso na leitura atenta do balanço. Nos bancos isso é considerado lucro não recorrente (fatos extraordinários, não ligados à atividade bancária). Do lucro líquido consolidado de R$ 6,259 bilhões do 2º trimestre, a própria CEF atribui em notas explicativas que a operação de venda das ações ON do Banco Pan da controlada CaixaPar para o BTG-Pactual, em 19 de maio deste ano, por R$ 3.693.571 mil, resultou no impacto positivo nas participações da CEF líquido de tributos de R$1.862.799 mil (R$ 1,862 bilhão).

Já o lançamento de ações da Caixa Seguridade na B3, em 24 de abril, trouxe receita de R$ 3.270.168 para a Caixa, sendo 1.458.851 de impacto tributário e R$ 1.788.299 líquido de tributos. As duas operações e outras extra-bancárias geraram ganho não operacional de R$ 3,170 bilhões no 2º trimestre. Ou seja, mais de 50% do lucro veio de resultados não recorrentes. No lucro semestral de R$ 10,843 bilhões, os ganhos destas operações de alienação de patrimônio somaram R$ 4,325 bilhões.

Como mascarar a inadimplência

Há muitas formas de se mascarar resultados ruins em balanços bancários, como a inadimplência. A CEF sempre se gaba de ter inadimplência inferior à média do Sistema Financeiro Nacional. Natural. A maior parte de seus créditos é habitacional, com garantia de hipoteca do próprio imóvel. Para não perder o bem valioso, o devedor se vira ou recompõe a dívida com a CEF na maioria dos casos. Compara-se carteira de elefantes com a de girafas.

Mas a CEF tinha pesados prejuízos quando foi acionada no governo Dilma a prover créditos ao grupo Norberto Odebrecht. A Atvos, braço na agroindústria canavieira, não conseguia levantar créditos na rede bancária tradicional. Pois a CEF “ajudou” o grupo com crédito rural para a Atvos. A inadimplência ocorreu, como em toda a CNO depois de ser pego na Lava-Jato.

Qual a fórmula da Caixa para baixar a incômoda inadimplência? Expandiu fortemente a carteira de crédito rural (45,7% no 2º trimestre). Ao aumentar a base, as operações em atraso ficaram diluídas (eventuais inadimplências de operações do 1º semestre só surgirão no fim do ano ou em 2022/23). A caixa informa que sua carteira finalizou o 2º trimestre de 2021 com um índice de inadimplência de 2,46%, redução de 0,02 p.p. em 12 meses. Mas a decomposição mostra números bem maiores que os de Bradesco, Itaú e Santander e até o Banco do Brasil.

Os créditos a pessoas físicas com atraso acima de 90 dias somavam 4,13% do total em junho. Nas pessoas jurídicas, os créditos com recursos livres (extra FGTS e fundos oficiais) tinham o altíssimo índice de 4,16% (era de 6,19% no 1º semestre de 2020). No Bradesco, Itaú e Santander as operações com grandes empresas estão abaixo de 0,5%. Já nas operações de crédito imobiliário o índice era de 2,55% (muito alto). Não se sabe como a Caixa vai encontrar novos “bilhetes premiados” adiante. Ou novos “imóveis” para ir à Disney.

Caiu a ficha no mercado: Ibovespa cai e dólar sobe

Adeus às ilusões. Esse parece ser o resultado de uma sucessão de nuvens negativas que vinham se acumulando no horizonte e formaram a tempestade perfeita para derrubar as esperanças no mercado financeiro brasileiro, sob influência da mudança de ares no "front" externo. A queda das ações de empresas de commodities, como Vale e Petrobras, principalmente, e a alta do dólar refletem a (tardia) percepção geral de que o cenário mudou.

Enquanto a variante Delta da Covid-19 avança na Ásia (onde vivem 2/3 da população mundial) e pode agravar a crise mundial de fornecimento de microchips, que está desacelerando a cadeia industrial global, por falta de suprimentos, o Fed (o Banco Central americano) anuncia breve retirada dos estímulos monetários), o que fortaleceria o dólar. Como as cotações das commodities são expressas em dólar, se o dólar fortalece e os juros americanos tendem a subir, está claro que a gangorra trocará de posições.

Só que o cenário já se desenhava há muito tempo. O que precipitou o pânico no mercado é que a deterioração do cenário doméstico ficou claro. Não pelo agravamento do quadro fiscal (ruim há tempos), mas porque as expectativas de crescimento da economia (que arrastaria para cima a arrecadação e melhoria os índices de sustentabilidade da dívida em relação ao PIB) murcharam. Só o que cresceu foi a inflação, que exigirá mais remédio amar de juros altos. O inimigo mais mortal do mercado de ações - depois da Covid-19, é claro.

“Wishful trinking” ou realidade?

Após prever em julho crescimento de 5,8% este ano e 2% em 2022, o Itaú reduziu, semana passada, a previsão para 5,7% e 1,5%, respectivamente. (o mercado prevê 5,28% e 2,04%, respectivamente. Vale lembrar que, em maio, quando o IBGE divulgou o aumento de 1,2% no PIB do 1º trimestre, puxado pela alta de 5,7% (descontando efeitos sazonais) da agropecuária, “pitonisas” e apoiadores de Bolsonaro previram 7% este ano e continuidade em 2022. Mais “wishful trinking” eleitoral que real possibilidade.

Para começo de conversa, a contabilização do desempenho da agropecuária se concentra muito no 1º trimestre (colheita da soja, que tem efeitos multiplicadores na produção de aves e suínos, engordados com milho e soja). E as safras caíram no 2º trimestre e a produção do 3º trimestre será afetada pelo forte frio e as geadas de julho, que já produziram forte alta especulativa dos preços agrícolas. E a ameaça de crise energética pesa sobre 2021 e 2022.

Ninguém afeito aos meandros da economia previa repetição do crescimento deste ano em 2022. As projeções macroeconômicas situam o potencial de crescimento do PIB brasileiro em 2,50% (a alta deste ano, após queda de 4,1% no ano passado, é mais um efeito estatístico – comparada às principais economias, a recuperação brasileira deixa a desejar).

Mas já há previsões de que além de crescer pouco em 2023, a economia brasileira vai crescer menos que os 2,5% potenciais em 2023, diante da necessidade de o Banco Central manter juros altos em 2022 (as apostas são de que a Selic ficará entre 7,50% e 8% ao ano). O Santander já reduziu de 2,50% para 2,30% a projeção de avanço do PIB em 2023.