Itaú: PIB do Brasil será dos mais fracos em 2021 e 2022

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O Brasil ficou com as mais baixas projeções de crescimento para 2021 e 2022 na revisão das estimativas para as principais economias do mundo feita pelo Departamento de Estudos Econômicos do Itaú. Segundo o banco, a variante Delta do coronavírus, mais concentrada na Ásia, deve ter efeito limitado sobre a economia mundial, mas vai reduzir de 6,4% para 6,2% o crescimento do PIB global este ano. Em compensação, haverá um pouco mais de expansão em 2022 (de 4,6% para 4,7%). No Brasil, o movimento é inverso: a projeção do PIB de 2021 caiu de 5,8% para 5,7% e o de 2022, encolheu de 2% para 1,5%.

Segundo estimativas do Itaú, os Estados Unidos, dono de 22% do PIB global), terão o crescimento reduzido de 6,7% para 6,2%, numa perda de 0,4 ponto percentual, mas recuperarão parte em 2022, quando cresceriam 5% (4,7% na estimativa de junho). A retomada da economia nos EUA, graças ao avanço da vacinação no 1º semestre (em ritmo lento no 2º), trouce impacto na inflação, levando o Fed (o banco central americano) a anunciar retirada de estímulos monetários e recompra de títulos (“tapering”).

Mais serviços, menos exportação

Em consequência, para o Itaú, isso vai levar a que a curva dos juros suba, fortalecendo o dólar, o que deve mexer com as exportações globais. Se as exportações impulsionaram a economia desde o 2020, daqui para a frente será o setor de serviços que vai ditar o crescimento e isso afetará o Brasil.

A China (18,78% do PIB global) teve a projeção encolhida em 0,3 p.p., para 8,2%, porque terá “um 2º semestre desafiador”, com o 2º maior porto do país fechado para isolar a variante Delta e mantida a taxa de 5,8% em 2022. Para a Zona do Euro foi mantida a previsão de crescimento de 4,9% este ano e 5,2% em 2022. Na Ásia, onde estão concentrados os casos da variante Delta, a maior parte dos países será afetada em suas economias.

A Indonésia (4º país mais populoso do mundo, com 276 milhões e menos de 11% da população vacinada com duas doses) terá perda de 1,3 p.p. em relação às projeções anteriores. A Índia, 2º país mais populoso (1.380 milhões) e responsável por 7,19% do PIB global), terá perda de 1 ponto percentual, mesmo nível das Filipinas. Malásia e Tailândia perderão 0,9 p.p. em relação à estimativa anterior e Cingapura, terá encolhimento de 0,3 p.p. nas projeções.

Com atuação muito forte na América Latina, o Itaú fez análises das seis economias mais expressivas da região e as projeções mostram que o desempenho do Brasil, dono do maior PIB regional, deixa a desejar perante todas as demais economias, que tendem a se recuperar melhor neste ano e no ano que vem do tombo do ano passado (o Brasil encolheu 4,1%). Em grande parte, o melhor ou pior desempenho está vinculado ao avanço da vacinação e ao impacto da variante Delta na população.

A visão do Itaú para a AL

Na América Latina, após a contração de 7% no PIB do ano passado, o Itaú espera agora um crescimento regional de 6,5% (6,3% no cenário anterior). Mas o banco enxerga dois problemas que mudarão o cenário: alta da inflação exige maior aperto da política monetária. Em segundo lugar, com o dólar fortalecido e a mudança do mix do crescimento global, as exportações perderão força.

“As exportações líquidas foram o principal motor do PIB após o choque causado pelo aparecimento da Covid-19 no ano passado, contribuindo com 0,7 p.p. em 2020 e 2,4 p.p. no 1S21. No entanto, vemos moderação nas exportações no 2S21, à medida que o mix de demanda externa migra do consumo de bens para serviços. O indicador de novos pedidos de exportação de manufaturados aponta para essa tendência de queda adiante”, diz o Itaú.

“O dólar permanece sustentado pelo ciclo do Fed, pelos maiores riscos na China e pelos riscos fiscais na América Latina. Embora apenas alguns países da região (Chile e Uruguai) tenham vacinado grande parte da população, os números de novos casos e mortes por Covid-19 estão diminuindo rapidamente. Apenas no México, onde é provável que a Delta seja predominante, o contágio vem se acelerando”, sublinha. Por sinal, o México embora tivesse aumentado de 6,3% para 6,5% a previsão de aumento do PIB este ano, teve reduzida de 2,3% para 2,1% a previsão de 2022

“A mobilidade está aumentando na região e os últimos dados de atividade em muitos países surpreenderam positivamente, refletindo também um forte estímulo de políticas macro, termos de troca elevados e menor sensibilidade da economia às medidas de distanciamento social”.

“Revisamos nossas projeções de crescimento em 2021 de 6,5% para 7,0% na Argentina, de 8,5% para 10% no Chile e de 6,5% para 7,8% na Colômbia.

No Brasil, reduzimos ligeiramente nossa expectativa de 5,8% para 5,7%, refletindo em parte a escassez de oferta na indústria automotiva (que também representa risco de baixa para nossa estimativa de crescimento do PIB no México, de 6,5% este ano). O Brasil tem o pior desempenho nos dois anos.

Brasil fica para trás no PIB mundial (%)

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. (Foto: .)

 

Homenagem aos economistas

Hoje, quando se completam 69 anos da regulamentação da profissão de Economista (em 13 de agosto de 1951), o Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo comemorou a data com uma transcrição de um ideário para os economistas traçado nada menos por John Maynard Keynes (1883-1946), considerado o mais completo economista de todos os tempos.

Disse o autor da monumental “Teoria Geral do Emprego, do Juro, e da Moeda”, defensor da necessidade de intervenção do Estado na Economia, que baseou o “New Deal” do presidente Roosevelt nos Estados Unidos para superar a grande depressão, e dos alicerces de reconstrução do sistema monetário e político mundial após a 2ª Guerra (ONU, FMI e Banco Mundial) que “O Estudo da Economia não parece exigir capacidades especiais ou extraordinárias. Não será, no plano intelectual, uma coisa mais fácil do que os ramos especializados da filosofia e da ciência pura? É, de facto, um domínio de investigação bastante fácil, mas onde muito poucos são os que conseguem brilhar”.

E definia a seguir os predicados de um grande economista: “ter de possuir uma combinação rara de capacidades. Tem de ser, em maior ou menor grau, matemático, historiador, estadista, filósofo. Tem de compreender a simbologia rigorosa, mas tem de falar com palavras. Tem de analisar o particular em termos do geral, utilizando argumentos concretos e abstractos, ao mesmo tempo. Tem de estudar o presente à luz do passado e com vista ao futuro. Não pode deixar de estudar todos os pormenores da natureza humana e das instituições. Tem de ser pragmático e desinteressado, neutral e incorruptível como um artista, mas também por vezes, tão materialista como um político”.

Os mais destacados no Brasil

Não sou economista de formação. Quando fiz vestibular de Economia, em 1969, para a UFRJ, fui reprovado, como 60% dos vestibulandos em matemática (cátedra do atuário Ruy Nogueira; a maior nota foi 6, de um engenheiro já formado, colega de um irmão engenheiro). Como o vestibular não era unificado, meu amigo Chacal (melhor que eu em Matemática e também reprovado) me convenceu a fazer vestibular para Comunicação (também na UFRJ). Passei em 2º lugar entre 550 candidatos a 50 vagas. Não queria ser economista da área financeira, como nosso colega do André Maurois, Álvaro Bandeira (aprovado), reconhecido craque do mercado de capitais, e nem sonhava ser jornalista (desejava ser engenheiro agrônomo). Mas em vez de trabalhar para grande latifundiário, pretendia mudar o modelo econômico como economista (planejador, sonhos de juventude). Acabei virando jornalista e especializado no mercado financeiro (“open Market”) nos anos 70.

Conheci centenas, senão milhares, de economistas, no governo, na iniciativa privada ou na academia. Entre os que foram de governo, cito alguns: Delfim Neto, Ernane Galveas, Octávio Gouvêa de Bulhões, Eugênio Gudin, Roberto Campos, João Paulo dos Reis Veloso, e o mais brilhante (e mais próximo da definição de Keynes): Mário Henrique Simonsen, multifacetado, adorava discutir conosco, jovens jornalistas, e nos convencer com argumentos, ao contrário do Delfim, autoritário e avesso a ser contestado em discussões.

E ainda Edmar Bacha, Pedro Malan, pela disciplina. Na vida acadêmica, destaco Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa, Luiz Gonzaga Belluzzo, Dionísio Dias Carneiro. Da geração mais jovem, Pérsio Arida (uma mente brilhante) e André Lara Resende, com pensamento arrojado e aberto até hoje.



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