Com IPCA de 6,9% Itaú prevê Selic de 7,5% este ano

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Com a inflação já elevada nos segmentos de Alimentos e Bebidas e nos insumos energéticos e combustíveis, o setor de serviços também acelerou a alta de preços no segmento mais importante da economia e o Departamento Econômico do Itaú revisou de 6,1% para 6,9% a alta do IPCA este ano. “Devido à inércia maior”, o Itaú também revisou a projeção de 2022 para 3,9% (ante 3,7%). Diante do salto da inflação, o banco também elevou de 6,5% para 7,5% a previsão da alta da taxa Selic de 2021, ficando parada neste nível em 2022..

O Banco espera altas de 1,00 p.p. nas reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) em 4 de agosto e 22 de setembro, de 0,75 p.p. em 27 de outubro e de 0,50 p.p. em 8 de dezembro. Para o Itaú, “o Copom deve ajustar sua política monetária para lidar com uma deterioração adicional do cenário para a inflação”. O banco estima que as projeções de inflação do comitê no cenário base (que inclui taxa de câmbio seguindo a paridade do poder de compra e taxa de juros de acordo com a pesquisa Focus) devem passar de 5,8% para 6,7% em 2021, de 3,5% para 3,7% em 2022 e de 3,3% para 3,2% em 2023.

Ao sustentar a expectativa de elevação da Selic em 1,00 p.p., para 5,25% a.a. em sua próxima reunião, o Itaú diz que ela “é consistente com a sinalização da autoridade de realizar uma normalização mais rápida se (i) a evolução dos preços mais inerciais no setor de serviços mostrasse uma aceleração da inflação (ii) as expectativas de inflação para 2022 continuassem a subir”.

O Depec Itaú entende que “ambas as condições se materializaram e que o risco para inflação continua sendo de alta, justificando um ajuste mais tempestivo, de 1,00 p.p., dos estímulos monetários” e espera “que o Copom comunique que pode ser adequado levar a taxa Selic para nível ligeiramente acima do nível neutro, sinalizando para a reunião de setembro uma nova alta de 1,00 p.p., mas sem descartar a possibilidade de voltar ao ritmo de 0,75 p.p. caso a pressão inflacionária arrefeça.

Onde a inflação aperta

O Depec Itaú decompôs as previsões para os diversos segmentos de bens e serviços. Para os preços livres no IPCA em 2021, ele espera alta de cerca de 4,0% em serviços, 8,0% em bens industriais e 7,0% em alimentação no domicílio. Sobre o último grupo, preço de grãos em dólar têm feito pico, mesmo que em patamares altos, indicando, ao menos, arrefecimento da pressão no preço de alimentos. A janela de clima nos EUA ainda é importante, mas dados de acompanhamento pelo USDA apontam que a atual safra de grãos deve ser boa, indicando um balanço melhor para essas commodities a partir do próximo ano.

O banco assinala que “os alimentos passam nessa metade do ano por um choque vindo das ondas de frio e geadas nas principais regiões produtoras do país. Embora o clima tenha impacto relevante na inflação de curto prazo, principalmente em produtos in-natura e em quebras de safras específicas, como café, esse tipo de choque tende a se dissipar adiante, uma vez que as condições climáticas se normalizem”.

Já sobre a inflação de industriais, vemos commodities metálicas fazendo pico nos níveis de preços atuais, o que deve trazer alguma desinflação para preços no atacado. No entanto, o repasse desse alívio de custos para os preços finais ao consumidor pode ser atrasado em função o hiato apertado na indústria (a utilização de capacidade segue elevada, atingindo 80,1% em julho) e de gargalos de produção, diz o estudo do Itaú “Cockpit do Copom”..

“Para os preços administrados, projetamos aumento de aproximadamente 9,5%. Esperamos alta de quase 30% na gasolina em 2021. Sobre o sistema de apreçamento da energia elétrica, esperamos bandeira vermelha 2, de junho a novembro deste ano, e bandeira vermelha 1 em dezembro. Tendo em vista o cenário de chuvas abaixo da média no curto prazo, no entanto, há viés para uma bandeira mais alta no final do ano. A adoção de bandeira vermelha 2, em dezembro de 2021, teria impacto adicional entre 0,40 e 0,50 p.p. no IPCA do ano, a depender do novo valor aprovado pela Aneel (entre R$ 9,492/100kWh e R$ 11,500/100kWh)”, conclui o Itaú.

Caged X PNAD, o emprego na gangorra

O Brasil tem dois indicadores oficiais sobre o mercado de trabalho, O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que registra as contratações com carteira assinada (ou regime especial) e os desligamentos. O Caged tem defasagem de menos de um mês entre o fechamento de cada mês e a divulgação dos dados.

O 2º indicador é a PNAD Contínua do IBGE, que registra, com dois meses de defasagem a média trimestral de pessoas empregadas (com ou sem carteira assinada) e os que estão desempregados e procurando emprego na semana da pesquisa. Metodologicamente, há diferenças entre os dois indicadores que, isoladamente, fornecem visão parcial do mercado de trabalho. Assim, uma visão em conjunto é mais abrangente.

O Caged de junho, divulgado dia 29 (5ª feira) registrou a criação de 309.114 vagas com carteira assinada, superando a previsão dos analistas (270 mil vagas e do Bradesco – 306 mil). Na visão da LCA Consultoria, na série com ajuste sazonal, houve a criação de 345,6 mil postos formais em junho ante 284,1 mil postos em maio, uma alta mensal de 2,2% nas admissões, contra uma queda de 0,7% nos desligamentos. Um resultado positivo robusto.

Para a LCA “é possível que parte da forte alta das admissões observada em junho tenha sido uma compensação da queda de abril, relacionada às restrições impostas para frear o contágio da Covid-19, que se agravou no segundo bimestre de 2021”. De outra parte, o movimento pode ser explicado pelo aumento da mobilidade de pessoas observada nos últimos meses, com o avanço da vacinação, protegendo os indivíduos mais vulneráveis”.

A LCA considera que as medidas governamentais, como o Programa Bem, têm ajudado a limitar o número de desligamentos desde o ano passado e em 2021. Com uma melhor perspectiva de reabertura econômica, é de se esperar que, assim que terminado o período de garantia provisória de emprego deste programa, muitos empregados não precisem ser desligados. Até o dia 27 de julho, tinham sido celebrados 3,1 milhões de contratos entre 2,5 milhões de trabalhadores.

Os dados de junho mostram criação líquida de empregos formais em todos os setores. O setor de Serviços, que tem maior participação no estoque de trabalhadores e o mais afetado pela pandemia, teve boa recuperação: 647,1 mil vagas de um total de 1.556,8 milhão. Neste setor, o destaque negativo é o subsetor Alojamento e alimentação.

"Para 2021, reavaliaremos novamente nossa projeção atual de 2,0 milhões de vagas para 2,7 milhões de vagas, em função da progressiva normalização das atividades de serviços com o avanço da vacinação", conclui a LCA Consultores..

Já a PNAD Contínua referente ao trimestre março-maio registrou taxa de desocupação de 14,6% no período, com um total de 14,8 milhões de pessoas procurando emprego (na semana da pesquisa). Houve um aumento de 400 mil pessoas em busca de emprego frente ao trimestre dezembro-fevereiro. E nada menos que 809 mil pessoas conseguiram emprego. Este movimento é considerado natural. Toda a vez que a economia aquece, as pessoas que estavam desalentadas e nem iam procurar emprego, saem em busca de ocupação (formal ou informal).

Mas a prova é de que a situação está longe da volta à normalidade, apesar da taxa de desemprego ter cedido frente aos 14,7% das médias trimestrais de março e abril, é que a taxa de subutilização da mão de obra (as pessoas estão trabalhando aquém da sua capacidade ou sequer trabalham) passou a 29,3% no trimestre março-maio, num total de 32,9 milhões de pessoas, contra 29,2% no trimestre dezembro-fevereiro (32,6 milhões de pessoas). No mesmo período de 2020 (quando houve o maior impacto das demissões da pandemia) a taxa era de 27,5%.

Outro indicador de como é longo o caminho a percorrer é que o nível da ocupação (percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar) chegou a 48,9%. Subiu um pouco frente ao trimestre móvel anterior (48,6%) e caiu 0,6 p.p. ante igual trimestre de 2020 (49,5%). A população subocupada por insuficiência de horas trabalhadas (7,360 milhões de pessoas) foi recorde da série histórica iniciada em 2012, com altas de 6,8% (mais 469 mil pessoas) ante o trimestre móvel anterior e de 27,2% (mais 1,6 milhão de pessoas) na comparação anual.