Após a alta da Selic dólar já caiu 8,98%

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O comportamento do câmbio, com a apreciação de 8,918% do real ante o dólar desde o recorde do ano, de R$ 5,797, em 9 de março, quando o Banco Central anunciou a disposição de elevar a taxa básica de juros, a Selic, já na reunião de 17 de março, mostra que o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) poderia ter evitado o forte aumento da inflação este ano se tivesse sido mais ágil na administração dos juros e do câmbio.

O Copom aumentou a Selic em 0,75 pontos percentuais em março e anunciou novo reajuste de igual magnitude (0,75 p.p. em 6 de maio). E na reunião de ontem, o Copom já adiantou que pode elevar a Selic em mais 0,75 p.p. em 17 de junho. Essa alta de 112,5% na taxa Selic de março a junho (de 2% para 4,25%) já teve efeito imediato no mercado do dólar, que hoje voltou a cair mais de 1,57% (a queda passou de 1,7% por volta das 11:45, quando as cotações voltaram a subir).

A relação entre o câmbio super (depreciado) e as taxas de juros na influência da formação de preços da economia é básica para qualquer economista recém-formado. No Brasil, forte exportador de commodities agrícolas (soja, milho, algodão, açúcar, café, suco de laranja, frutas, celulose e carnes bovina, suína e de frango), minerais (minério de ferro) e petróleo e combustíveis, tal relação não podia ser ignorada pelos condutores da política econômica.

Ano passado, o erro foi ainda mais grosseiro. A forte alta do dólar ante o real turbinou as exportações de alimentos que acabaram faltando na mesa dos brasileiros (seja pela escassez – o governo teve de importar soja, arroz e milho em setembro para suprir o mercado interno – ou pelo preço fora do alcance da população). Na falta de grão para esmagamento, o óleo de soja subiu mais de 100%, o arroz encareceu mais de 75% e as carnes mais de 40%. A escalada do dólar só não contaminou o preço dos derivados de petróleo porque a cotação internacional do barril estava em baixa até novembro.

Mas a partir de novembro, com a eleição do Democrata Joe Biden para presidente dos Estados Unidos e o início da vacinação no país e na Europa em dezembro, houve uma mudança considerável nos mercados futuros de energia. Desde então, as pressões de alta externa do petróleo pressionaram a Petrobras, comprometida em alinhar os preços domésticos dos combustíveis levando em conta os preços internacionais alinhados ao dólar, para atrair compradores para suas refinarias.

Desde dezembro, o petróleo tipo Brent (do Mar do Norte), que é a principal referência do mercado internacional, subiu mais de 60%. E o dólar só começou a parar de subir desde meados de março. Foi isso e não a troca de Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Luna e Silva na presidência da Petrobras que permitiu a baixa do diesel e da gasolina nas refinarias em 1º de maio. É que em abril, quando o Brent subiu mais de 5%, o dólar caiu mais de 7%, tornando possível um alívio para o consumidor.

Qual o preço da demora na alta dos juros?

Quantas outras altas de produtos sensíveis e que pesam no bolso do consumidor não poderiam ser atenuadas se o dólar não tivesse disparado tanto? Foi a combinação da imperícia da equipe econômica (que cometeu o desatino de imaginar que com a simples mudança do calendário fiscal – em 31 de dezembro – a pandemia da Covid-19 teria acabado, pois deixou extinguir, sem providenciar a extensão para 2021, o Auxílio Emergencial quanto as medidas de apoio à manutenção do emprego e do capital de giro para milhares de pequenas e microempresas, até a prorrogação da cobertura do FIES foi esquecida) com a pasmaceira do Banco Central.

Com mais de US$ 350 bilhões em reservas, o BC tem cacife suficiente para evitar a disparada do dólar. Quem vai fazer voltar atrás o reajuste dos remédios, pressionados pela alta do câmbio? E nos combustíveis e na energia elétrica (pelo menos 35% da energia vem de Itaipu Binacional que opera com tarifas em dólar)? O Banco Central comeu mosca e teve de agir mais cedo que esperava o mercado (em março, não em maio) para elevar os juros.

Eu considero que em 20 de janeiro já podia ter elevado a Selic, abreviando o processo de ajuste. Como demorou a agir, a inflação já tinha trocado de patamar, exigindo ajuste mais brusco nos juros. O próprio Copom admitiu que o cenário do mercado (com muita influência do dólar) estima para este ano em 8,4% a alta dos preços administrados (combustíveis, tarifas de energia, comunicações, planos de saúde, remédios, mensalidades escolares, pedágio, tarifas de água e esgotos e tarifas de transportes urbanos) e de 5% em 2022.

Detalhe, o compromisso do Banco Central é manter a inflação dentro da meta: 3,75% este ano e 3,50% em 2022 (ano em que o BC já está mirando), tendo margem de desvio até 1,5 ponto percentual (5,25% em 2021 e 5% em 2022) no teto. Se as políticas monetária e cambial fossem melhor calibradas, a escalada de juros poderia ter sido mais precoce e mais fulminante para baixar o dólar. O economista Manuel Jeremias Leite Caldas, que defendeu em março uma escalada mais brusca e curta da taxa Selic, com altas iniciais de 1% em março e maio, para rapidamente trazer o dólar abaixo de R$ 5, acha que o Banco Central está se arrependendo de não ter sido mais ousado. Concordo.

Mercado reavalia projeções da Selic

A tríplice aposta do Copom em alta de 0,75 p.p. na Selic na reunião de 16 de junho surpreendeu as principais instituições financeiras. O consenso do mercado era de um ajuste de 0,50 p.p. O Itaú diz que esperava 0,75 p.p em junho e manteve a expectativa de que a Selic fecharia o ano em 5,50% ao ano.

Mas dois bancos importantes, o Bradesco e o Safra acreditam que a escalada mais rápida da Selic pode levar o Banco Central a encerrar o ciclo de alta em 5,25% ao ano em 2021. Esta já era a aposta do Bradesco, mas o Safra, que esperava um ciclo mais extenso e escalonado, que já apontava para a faixa de 5,50% a 6%, reduziu a projeção a 5,25%. Detalhe, em fevereiro, quando a inflação não tinha disparado (esperava alta da Selic, então em 2%, para 3% em 2021). Agora, o Safra espera alta de 0,75 ponto em junho, seguida de duas altas de 0,5 ponto em agosto e setembro, chegando a 5,25% ao ano.

Bradesco faz projeções de preços administrados

O Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco mediu o impacto dos preços administrados (muito influenciados pelo dólar) no IPCA, o indicador da inflação oficial. O Bradesco lembra que “o IPCA acelerou rapidamente desde agosto de 2020, devendo atingir uma alta de 8,2% entre junho e julho”. Dessa alta, 320 b.p. são explicados por itens administrados. Ou seja, fez a inflação saltar de 5,0% para 8,2%. No cálculo feito antes da recente baixa do dólar, o banco espera alta de 7,1% nos itens administrados (a maior desde 2017), que explicarão 1,84 p.p. do IPCA total, estimada pelo Bradesco em 5,2%.

Os preços administrados respondem por cerca de 25,7% do IPCA. Só perdem para os alimentos. O item com maior peso entre os preços administrados é a gasolina (20,7%), que representa 5,3% do IPCA. Em 2º lugar vem a energia elétrica residencial, com 16,6% nos preços administrados e peso de 4,3% no IPCA. As mensalidades dos Planos de Saúde vêm a seguir, com 15,4% entre os administrados e 4% no IPCA. Os remédios pesam 12,6% nos P.A. e peso final de 3,2% no IPCA. A taxa de água e esgoto (que poderão subir no futuro no Grande Rio, com a privatização de áreas antes confiadas à Cedae) pesa 1,8% no IPCA, mais que os 1,3% nos ônibus urbanos e os 1,2% do GLP.

Nesta alta de 7,1% dos preços administrados, a gasolina puxaria a fila, com reajuste de 17,2% que representaria alta final de 0,92 p.p. no IPCA. O gás de botijão (GLP), teria o 2º maior aumento (16,2%), com impacto final de 0,19 p.p. no IPCA. Os dois reajustes podem ser atenuados se o dólar recuar abaixo de R$ 5. Já a alta esperada de 8,2% para o plano de saúde deve impactar em 0,33 p.p. o IPCA, o 2° maior impacto. A alta de 4,2% nos remédios pode impactar em 0,13 p.p. o IPCA, mesmo impacto da alta de 7,5% nas tarifas de água e esgoto (o peso é calculado em cima das planilhas das rendas familiares nas pesquisas de Orçamento Familiar e de emprego e renda do IBGE)

A projeção de alta da gasolina leva em conta a volta do barril do Brent a US$ 60 até o fim do ano. A alta de 26% esperada para o etanol (que entra em 25%, sob a forma anidra na mistura da gasolina) também influi no preço, ao lado dos impostos. O Bradesco espera o dólar a R$ 5,00 e que o diesel suba 13%. No caso do gás de botijão, a Petrobras já o reajustou em 22,8% neste ano e em mais de 90% nos últimos 12 meses, nas distribuidoras e o Bradesco espera alta de 16,2%.

Para a taxa de água e esgoto, os reajustes ocorrem no âmbito municipal e utilizam uma combinação entre a variação do IPCA e do IGP-M do ano anterior para replicar os reajustes de cada cidade. O Bradesco projetou a alta em 7,5%, com impacto total de 13 b.p.. A forte variação é decorrente da postergação de reajustes de 2020, além da alta de 23,1% do IGP-M no ano passado.

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