China ajuda Índia; lição de diplomacia ao Brasil

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As duas nações mais populosas do mundo – a China, com 1,4 bilhão de habitantes, e a Índia, com 1,38 bilhão - acabam de dar uma lição diplomática ao mundo do que é solidariedade entre os povos. Os dois países são também os maiores produtores de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs), utilizados em medicamentos e vacinas como as da Covid-19.

Diante da tragédia que tem sido a explosão dos novos contágios na Índia, com quase 2 milhões de casos em 10 dias, sem contar a subnotificação, diante do hábito milenar hindu de incineração dos mortos, cuja intensidade ilumina o céu das mais populosas cidades indianas com milhares de piras ardentes noite adentro, o presidente chinês Xi Jinping enviou hoje uma mensagem de condolências ao primeiro-ministro Narendra Modi e ofereceu cooperação para lidar com a situação criada pela Covid-19. Isto inclui o reforço de vacinas, oxigênio, respiradouros, máscaras e equipamentos de proteção individual.

A solidariedade chinesa é um tiro no pé do Brasil. Em outubro, por orientação do ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o Brasil se indispôs com a Índia ao votar dentro do grupo do Brics contra a quebra das patentes para as vacinas para a Covid-19. A proposta tinha sido apresentada pela Índia e a África do Sul, que integram o Brics junto com o Brasil, Rússia e ainda a China. O Brasil se indispôs com os países que mais produzem vacinas para apoiar os contratos das farmacêuticas privadas que receberam vultosos recursos públicos para desenvolver vacinas na Europa e Estados Unidos.

Esta semana, chegaram, enfim, as primeiras remessas de vacinas da Pfizer, cuja oferta de 100 milhões de doses fora recusada pelo governo Bolsonaro em setembro do ano passado. Em outubro, portanto, o Brasil só tinha acordos com as vacinas da CoronaVav, da chinesa Sinovac, envazada no Brasil pelo Butatan, e da AztraZeneca, envazada pela Fiocruz. As duas vacinas, aprovadas pela Anvisa em fins de janeiro, que depois aprovou as da Pfizer e da Janssen (J&J), dependem da entrega de IFAs da Índia e da China.

Em represália ao Brasil, a Índia primeiro atrasou as entregas, priorizando a vacinação interna e o fornecimento aos países vizinhos. Só uma fração de 4 milhões de doses, das 12 milhões acertadas, foi enviada pelo Instituto Serum ao Brasil pelo país do primeiro ministro Narendra Modi. Na segunda recusa da Anvisa (esta semana) em aprovar a vacina russa Sputnick V, da qual o Ministério da Saúde já assinou contrato para a compra de 40 milhões de doses (que seriam aplicadas em 9 estados do Nordeste), o Brasil ficou dependente da China para o fornecimento de IFAs, uma vez que a Índia suspendeu a venda em meados de abril, com a explosão da doença no país.

A intenção e a realidade

Em uma fala estúpida e desabrida, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reabriu uma ferida com a China ao falar em alto e bom som (sem saber que a reunião no Ministério da Saúde, com a presença do ministro Marcelo Queiroga e diretores da Anvisa, estava sendo gravada) que “a China inventou o vírus e agora quer tirar partido com a venda de equipamentos e insumos”. Uma completa insanidade dita fora de hora. Uma tremenda grosseria em relação ao maior parceiro comercial do Brasil.

Já seria absurdo – como foi - que um ministro sem qualificação como o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, gazeteasse o trabalho perdendo tempo com postagens nas redes sociais debochando dos chineses. Mas o titular da Economia não pode ignorar a contribuição dos chineses na pauta de exportação do Brasil, nos investimentos em infraestrutura e na disposição de cooperação tecnológica. Justamente quando dependemos de 84% dos IFAs para vacinas vindos da China, o ministro considerado mais culto e esclarecido, PhD em Chicago, dá uma demonstração rasteira de falta de boas maneiras.

Pelo visto, a troca das cotoveladas e agressões pela volta da boa e velha diplomacia do “soft power” no Itamaraty, com a substituição de Araújo pelo embaixador Carlos França, não será suficiente para mudar a imagem do Brasil.

Que credibilidade e solidariedade esperam receber o Brasil, como tentou o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ao dirigir um apelo dramático em painel virtual da Organização Mundial de Saúde (que antes o Brasil desprezava) pedindo reforço no fornecimento de vacinas, quando temos o chefe da Economia pensando mais rasteiro do que o presidente Jair Bolsonaro?

Guedes podia ter perfeitamente acompanhado o presidente na 6ª feira passada no programa “Alerta Nacional”, do apresentador Sikêra Jr, na TV A Crítica, de Manaus, exibido à noite pela Rede TV. Mas, estava, esta semana, em reunião do governo, no qual o chefe da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, confessa que tomou a vacina longe dos registros para não melindrar o chefe, que “será o último a se vacinar, se estiver já todo mundo vacinado”.

O que vão pensar os investidores estrangeiros que o governo Bolsonaro pretende atrair para grandes projetos de infraestrutura quando se constata este tremendo descompasso entre as boas intenções e a realidade?

Duplo saneamento no RJ?

Esta 6ª feira, 30 de abril de 2021, pode ser um dia histórico para o saneamento do Estado do Rio de Janeiro.

O leilão de privatização da Cedae, pode reabrir um fio de esperança para o saneamento sanitário dos principais municípios fluminenses, sobretudo aqueles que, na falta de redes de coleta de esgoto e estações de tratamento dos dejetos, os despejam na Baía de Guanabara.

O julgamento do “impeachment” do governador afastado Wilson Witzel, pode contribuir para sanear a vida pública do Estado. É um pequeno grande passo.

O balanço dos PIBs

A primeira prévia do PIB dos Estados Unidos mostrou crescimento de 6,4% em termos anualizados e na margem, após ter crescido 4,3% no 4ª trimestre de 2020. O resultado foi puxado pelo consumo das famílias, graças aos estímulos fiscais e monetários, aprovados no Congresso com Bush já derrotado. Os avanços (ainda que mais lento) da vacinação devem manter a recuperação depois dos primeiros 100 dias favoráveis do governo Biden.

Mas na área do Euro, com muitos países ainda sofrendo com a Covid-19 e rompendo forte isolamento social só em fins de abril, o PIB recuou 0,6% no 1º trimestre. Mas a queda foi menor do que a esperada. Só a retração de 1,7% PIB alemão (o motor da Europa) foi acima do previsto, na margem.

Já na China, os indicadores de atividade econômica divulgados hoje apontam para moderação no ritmo de expansão do PIB no 2º trimestre, respondendo em alguma medida à normalização da política econômica. O índice PMI manufatureiro recuou de 51,9 para 51,1 pontos entre março e abril, surpreendendo negativamente, diante da expectativa de 51,7. O resultado reportado refletiu, dentre outros fatores, a falta de insumos em vários segmentos industriais.

A interdependência das cadeias produtivas afetou quase todos os grandes centros de produção mundo afora. Inclusive no Brasil, onde as montadoras de automóveis tiveram de parar por falta de “chips”, hoje os verdadeiros “motores” dos veículos cada vez mais comandados por componentes eletrônicos.

Indicadores defasados no emprego

Com a vacinação definitiva (2ª doses) ainda não superando os 5% da população, o vai e vem da economia brasileira está tão grande, cada vez mais dependente do avanço ou recuo dos novos contágios da Covid-19 que os números do mercado de trabalho não servem para análises definitivas. Os dados do Caged (com o balanço de demissões e contratações com carteira assinada) refletem o andamento do mercado formal.

Tudo vinha bem desde o 2º semestre. Mas a queda do ritmo em março, quando o saldo de contratações caiu a 184 mil pessoas (menos 53,4% frente aos 395 mil de fevereiro) acendeu o sinal amarelo para este 2º trimestre, cujas previsões são de PIB negativo. Os otimistas esperam reação em maio e junho.

A Covid-19 não respeita calendário

A própria arrecadação, que subiu em março, com fortes recolhimentos de Imposto de Renda de grandes e médias empresas, pode não se sustentar.

O que mostra o erro estratégico da equipe econômica de não programar a extensão do Auxílio Emergencial e outros estímulos às empresas, como se na mudança de ano fiscal (31 de dezembro de 2020) os impactos da Covid-19 não fossem adentrar por 2021, contaminando a produção, o consumo e o emprego.

Ainda que atrasados em um mês frente ao Caged, os dados da PNAD Contínua do IBGE oferecerem uma leitura mais ampla do mercado de trabalho. Os dados de fevereiro, com taxa de desemprego de 14,4%, ficaram um pouco melhor que os 14,6% esperados (março vai refletir a queda no Caged). Mas o balanço de 12 meses dos impactos da pandemia da Covid-19 é dramático.

A população desocupada (14,4 milhões de pessoas) bateu recorde desde 2012, quando o IBGE iniciou a pesquisa. O contingente de desempregados no trimestre dezembro-janeiro-fevereiro aumentou em 400 mil pessoal frente setembro-novembro de 2020. E ante dezembro de 2019 a fevereiro de 2020 houve um aumento de 2,1 milhões de pessoas desempregadas (eram 12,3 milhões de pessoas em fevereiro do ano passado).

Mas o IBGE tem outros recortes para dar a dimensão da tragédia. O primeiro é o total da população ocupada em relação ao contingente apto a trabalhar, que ficou estável em 48,6% no trimestre terminado em fevereiro (igual ao trimestre anterior). Ou seja, menos de metade da força de trabalho estava exercendo atividade remunerada. Há um ano (fevereiro de 2020 a taxa de ocupação era de 54,3%).

Esse recuo recorde de 5,9 pontos percentuais reflete a redução do total de pessoas ocupadas em 7,8 milhões de trabalhadores em 12 meses. Eram 93,7 milhões em fevereiro de 2020 e o total caiu para 85,9 milhões este ano.

O dado mais dramático é das pessoas cuja capacidade de trabalho está subutilizada (implicando menor renda para si e a família): Em fevereiro de 2021 havia um total de 32,6 milhões de pessoas com a capacidade laborar subutilizada (29,2% do total). Em 12 meses, esse contingente aumentou 5,9 milhões de pessoas, fazendo crescer em 23,5% a taxa de desocupação, que era de 23,5%.

Pior mesmo é o total de 6 milhões de pessoas desalentadas – que desistiram de procurar empregos para os quais não encontram qualificação ou colocação. Em um ano esse universo aumentou 26,8%.


O dólar ajuda a Petrobras
Foi a queda de mais de 7% do dólar diante do real em abril que ajudou a nova diretoria da Petrobras, comandada pelo general Joaquim Luna e Silva promover queda da gasolina e diesel nas refinarias a partir deste sábado, como queria o presidente Jair Bolsonaro.
A queda foi maior que a alta de mais de 5% no preço do barril do petróleo. E o cálculo de paridade internacional dos combustíveis (se não foi abandonado) combina as duas vertentes.