IPCA: Alimento em casa e Educação atenuam alta de combustíveis

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Um aumento de apenas 0,13% no Item Alimentação e Bebidas (o que mais pesa no IPCA), contra 0,23% em fevereiro, terminado principalmente pela deflação de 0,17% na Alimentação no domicílio (após alta de 0,28% em fevereiro) – a Alimentação fora do domicílio ficou 0,89% mais cara, influenciada pelas altas da cerveja (1,70%) e do Lanche (1,88%) – e a queda de 0,52% no Item Educação (após salto de 2,48% em fevereiro, quando foram contabilizadas as matrículas escolares, ajudaram a atenuar a forte pressão dos combustíveis. Estes subiram 11,23% (sendo 11,26% a gasolina) e causaram alta de 3,81% em Transportes, levando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo a 0,83% em março, com a taxa de 12 meses saltando de 5,20% em fevereiro para 6,10%.

O número ficou abaixo do que esperavam os departamentos econômicos dos principais bancos do país: o Itaú esperava 1,04% e o Bradesco, 1,03%. Mas a taxa só não desgarrou muito em março porque as duas maiores regiões metropolitanas do país (que têm maior peso na composição do IPCA – São Paulo e Rio de Janeiro) tiveram baixa inflação. Em São Paulo, a taxa subiu apenas 0,75% em março e no Rio, a alta foi de 0,78%. As maiores taxas mensais ocorreram no Planalto Central: Goiânia teve alta de 1,46% no IPCA e o Distrito Federal marcou 1,44%.

Em 13 cidades inflação supera os 6,10%

As discrepâncias de taxas acumuladas em 12 meses do IPCA nas 16 regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE têm muito a ver com o calendário de reajustes de energia elétrica ou de taxas de água e esgoto. No mês passado, a maior taxa acumulada em 12 meses foi registrada em Rio Branco (AC), com 8,44%, seguido de Campo Grande (MS), com 8,24%.

As menores taxas acumuladas eram do Rio de Janeiro (com apenas 4,97%), Aracaju (SE), com 5,25%, e de São Paulo, com 5,61%. Três regiões tinham altas acima de 7%: São Luís (MA), com 7,27%, Fortaleza (CE), com 7,10% e Vitória (ES), com 7,03%. E nada menos que outras sete cidades registravam taxas acima da média nacional de 6,10%, incluindo Brasília, com 6,19%.

Salário mínimo perde de novo

No Índice Nacional dos Preços ao Consumidor (INPC), que mede as cestas de consumo das famílias com renda até cinco salários mínimos (R$ 5.500), enquanto o IPCA registra as despesas das famílias com renda até 40 SM(R$ 44 mil), a alta foi de 0,86%, superando os 0,82% de fevereiro. Em 12 meses, a taxa subiu para 6,19%.

Este é o terceiro mês seguido em que o reajuste do salário mínimo (de 5,26%), para R$ 1.100 a partir de 1º de janeiro de 2021, sai perdendo para a variação do INPC que reajusta essa faixa de renda. Em janeiro, já com o novo mínimo em vigor, a taxa acumulada do INPC em 12 meses chegou a 5,53%. Em fevereiro, a taxa saltou para 6,22% e chegou em março a 6,94%.

Apostas variam para o 2º trimestre

No 1º trimestre, o IPCA acumulou alta de 2,05% (ante 0,53% no mesmo trimestre de 2020). Ao analisar as perspectivas da inflação (IPCA) dos próximos meses (que serão cotejadas com período de deflação de 0,31% em abril e de 0,38% em maio de 2020, seguido de alta de apenas 0,26% em junho, o Departamento de Estudos Econômicos do Itaú previu alta de 0,50% em abril, 0,28% em maio e 0,32% em junho. Isso elevaria a taxa anual próxima a 8%.

Mas o Itaú nota “algum grau de incerteza sobre a inflação de abril a respeito dos reajustes de medicamentos, com a alta próxima de 8% no mês podendo ser suspensa”. O banco espera manutenção de bandeira tarifária amarela para a energia elétrica em maio e migração para vermelha 1 em junho. No ano, mantém a previsão de 4,7% para o IPCA e em 3,6% para 2022.

A LCA Consultores já acredita que a inflação pode desacelerar nos combustíveis em abril, com a taxa mensal ficando em 0,38%. Numa visão mais macro, o Departamento Econômico do Bradesco viu com bons olhos as projeções da Conab sobre a “safra recorde de grãos”, que “deve reduzir pressões de estoques e preços”.

A Conab registrou aumentos de até 8,6% na 3ª alta seguida para a safra esperada para a soja (135,5 milhões de toneladas) e aumento de 6,2% na de milho. O crescimento de 6,5% na safra de grãos pode ajudar derrubar os preços do óleo de soja (alta de mais de 100% em 2020) e segurar o preço das rações animais, com impacto positivo nos custos de produção de aves e ovos, suínos e laticínios. No ano passado a disparada das exportações, estimuladas pelo salto no câmbio, deixou o país sem estoques reguladores.

Copom deve manter alta de 0,75% na Selic

As antenas do mercado financeiro estão ligadas na variação dos preços agrícolas porque eles vão ditar a marcha da alta de juros pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central. O presidente do BC disse hoje que “se nada de relevante mudar”, o Copom manterá a alta já anunciada de 0,75 pontos percentuais para a Selic na reunião de 5 de maio, para 3,75%. Mas o arrefecimento ou não da alta de preços (e do câmbio) pode ditar o ritmo das próximas reuniões de 16 de junho e 3 de agosto.

O Itaú assinala que “as medidas de núcleo de inflação seguem acelerando no acumulado em 12 meses. Vale notar o comportamento de industriais subjacente, com variação de 0,27% no mês e acelerando de 3,5% para 3,6% em 12 meses. O núcleo de serviços subjacente subiu 0,50% no mês e acelerou de 2,8% para 3,2% em 12 meses. A média dos núcleos acompanhados pelo BC (EX-0, EX-3, MS, DP e P55) variou 0,42% no mês e subiu de 3,2% para 3,6% em 12 meses”. O lado positivo veio na alimentação no domicílio, em desaceleração (queda de 0,17% em março ante +0,28% em fevereiro), com redução no tomate (-14,1%), leite longa vida (-2,3%), batata-inglesa (-8,8%) e arroz (-2,1%). A alta de 1,3% na carne bovina foi inferior aos 2,3% de fevereiro.

Plano de vôo falha no leilão de aeroportos

O governo comemorou o ágio médio de 3,822% nos leilões de outorgas de três blocos de um total de 22 aeroportos pelo Brasil. O próprio presidente Jair Bolsonaro tratou de destacar o fato como demonstração de confiança no Brasil, no jantar que teve com grupo de duas dezenas de empresários na 4ª feira à noite, em São Paulo.

Ele esteve acompanhado dos ministros da Economia, Paulo Guedes, da Saúde, Marcelo Queiroga, da Secretaria de Governo, Onyx Lorenzoni, e da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, além do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

O leilão de aeroportos atraiu interessados nos 3 blocos e garantiu ao governo federal uma arrecadação inicial de R$ 3,302 bilhões. O mínimo fixado pelo Ministério da Infraestrutura era uma contribuição inicial de R$ 186,2 milhões. A arrecadação extra de R$ 3,1 bilhões gerou o ágio recorde de 3.822%.

Mas o que esse ágio reflete: excesso de confiança do investidor ou excesso de covardia do governo? Caro leitor, a 2ª hipótese é a correta. Nas vésperas do leilão, temendo um fiasco, o ministério reduziu o valor mínimo das outorgas a 30% do valor do edital. Se o preço mínimo anterior fosse cumprido (R$ 620,66 milhões), já haveria um ágio de 233% sobre o piso aprovado para o leilão.

Calculado em cima do valor do edital, o ágio cairia para 430%. Ainda alto, mas muito influenciado pela diferença de quase R$ 2 bilhões entre o que foi pago pelas 9 concessões de aeroportos nos três estados do Sul (Bagé, Uruguaiana e Pelotas no RS, Curitiba, Londrina, Bacacheri e Foz do Iguaçu no PR; e Navegantes e Joinville em SC). O Ministério pediu só R$ 130 milhões e o grupo CCR (ex-Camargo Correa) entendeu que valia a pena pagar R$ 2,128 bilhões.

Turismo e ecologia, o que é isso?
No leilão de ontem da Ferrovia Leste-Oeste, ficou claro. Só a Bamin (do Cazaquistão), dona da jazida de minério de ferro em Caetité (BA), compareceu para garantir a concessão para concluir e explorar a ferrovia durante 35 anos, com acesso ao polêmico Porto Sul, em Ilhéus, cortando área de preservação ambiental. Quem liga para a preservação do meio-ambiente e o turismo ecológico neste governo?