Um ano de pandemia: bancos só emprestam 23,7% do que BC liberou

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Um ano após o Banco Central iniciar, em 16 de março de 2020, com a decretação da pandemia da Covid-19, um amplo programa de liberação de R$ 1,274 trilhão em recolhimentos compulsórios sobre depósitos à vista, a prazo e de poupança, outros R$ 1,348 trilhão em alívio de capital para encaixes e ainda a redução de provisões no total de R$ 3,2 trilhões para renegociação de dívidas, somando uma enxurrada de R$ 5,922 trilhões, o sistema bancário brasileiro só transformou em empréstimos R$ 1,306 trilhão. Ou seja, apenas 23,7% foram usados para socorrer o setor real da economia.

Na prática, os bancos brasileiros (estatais federais e estaduais e privados, nacionais e estrangeiros) usaram a redução dos compulsórios e a liberação das provisões precaucionais para melhorar a liquidez interna. E não transferiram para as empresas de todos os portes e os clientes pessoas físicas na velocidade e volumes esperados pelas autoridades as linhas de liquidez abertas pelo Banco Central.

De acordo com os números apresentados dia 4 de março pelo presidente do Banco Central, Roberto de Oliveira Campos Neto, em “live” para os alunos da Escola de Administração de Negócios da Universidade de Chicago, dos R$ 1,274 trilhões liberados em compulsório até abril do ano passado, os bancos só converteram R$ 427,1 bilhões em empréstimos. Ou somente 33,5%. A diferença de R$ 846,9 bilhões (ou 66,5% do total liberado) foi engordar o caixa dos bancos e ficou na tesouraria para recuperar a liquidez de cada um.

Dos R$ 1.348,2 bilhões em alívio de provisionamento de capital, os bancos usaram 100% (R$ 520 bilhões) das linhas de over hedge, dos R$ 627 bilhões de reservas adicionais de capital dos R$ 50 bilhões de provisões para operações com pequenas e microempresas, assim como os R$ 16,5 bilhões de desmobilização de capital nas operações com o setor de serviços.

Lentidão nos empréstimos

Entretanto, da linha de R$ 12,7 bilhões para extensão das garantias a depósitos a prazo, os bancos só utilizaram R$ 2,3 bilhões (ou seja, apenas 18,1%). A dificuldade de transferir o alívio do Banco Central para a clientela fica mais flagrante na linha de crédito de R$ 127 bilhões para a preservação dos empregos. Apenas R$ 14,4 bilhões (ou modestos 11,3%) foram utilizados. Empresários dos segmentos de serviços alegam que as exigências tornam inviáveis os negócios. Detalhe, o Banco Central assumiu 85% dos riscos e os bancos arcam apenas com 15% do risco de crédito.

O resultado é que, da soma de R$ 2.622,2 bilhões injetados nas veias dos bancos, com redução de compulsórios e na relação capital e reservas, além da dispensa de provisões até o limite de R$ 3.200 bilhões para os bancos renegociarem créditos, só R$ 1.406,6 bilhões foram transformados em empréstimos para empresas e pessoas físicas (23,7%). Na maior parte dos casos, os bancos aproveitaram as facilidades para renegociar as dívidas (que já estavam entrando no período de exigência de provisões – quando ultrapassar os 90 dias de atraso) por novas operações, limpando a inadimplência das carteiras.

Truques contábeis

Todos os balanços de bancos de 2020 (o último foi apresentado pela CEF, na semana passada), na contramão do que se vê nas ruas e no movimento dos setores comerciais, industriais e de serviços, mostraram redução da inadimplência. Foi uma espécie de truque contábil que não se traduziu em alívio real para os setores e segmentos mais afetados pela crise da Covid-19.

Dois programas especiais criados pelo Banco Central ilustram essa afirmação: do crédito de R$ 91 bilhões para refinanciamento de debêntures emitidas por empresas privadas, apenas R$ 3 bilhões foram renegociados, ou seja, míseros 3,3% da linha de crédito. Outro exemplo de fracasso foi a linha especial de crédito de R$ 40 bilhões apoiada pelo BC (que bancaria 85% do risco) para financiar as micro e pequenas empresas: só 20% (R$ 8 bilhões) foram usados.

Até a linha de crédito de US$ 60 bilhões aberta há um ano pelo Federal Reserve Bank, o banco central dos EUA, para atender eventuais cortes de rolagens de créditos internacionais, foi usada pela metade - US$ 30 bilhões.

Há quem lembre que o nível baixo dos juros no Brasil permitiu que, mesmo na maior recessão da história, dezenas de empresas de médio a grande porte, ou startups, fizessem captações mediante abertura de capital ou chamada aos acionistas, o que diminuiu a demanda total. Não deixa de ser verdade.

Mas também não parecem corretas as estatísticas apresentadas pelo Banco Central e repetidas pelo governo quanto montante de 17,5% do PIB representado pelas medidas de apoio creditício oficial às famílias e empresas. Pela estatística apresentada pelo presidente do BC, Roberto Campos, dia 4 de março, o Brasil estaria à frente dos 11,4% do PIB das medidas de apoio creditício tomadas pela Colômbia, ou dos 9,1% da Indonésia, dos 8% da Austrália ou dos 5,1% da Índia.

Entretanto, qual o critério de mensuração: as medidas anunciadas ou o que foi implementado? Se a métrica for do anúncio, tudo bem, mas se os demais países estiverem informando o que foi executado, o Brasil estaria mal na fita. Pois o percentual de 17,5% do PIB cairia para 4,15%. Ou seja, só estaríamos à frente dos 3,6% do México e da zeragem da Turquia, aplicada desde setembro.

O susto da Turquia

Por sinal que a Turquia, onde o ditador Recep Erdogan acaba de trocar sumariamente o terceiro presidente do Banco Central desde setembro de 2019, acaba de aumentar a turbulência das moedas dos países emergentes de maior risco (Argentina, Venezuela e algumas economias da África e Ásia sequer são analisadas). Este grupo, do qual faz parte o Brasil, é integrado pela Turquia, África do Sul, México, Colômbia e Índia. Dias de turbulência à vista para o real.

Erdogan ficou incomodado com a política do presidente anterior (Naci Agbal) no cargo há quatro meses e que tinha elevado o piso dos juros do país (equivalente à nossa taxa Selic) a 17% ao ano. Como lá não há independência do Banco Central e Erdogan demite seus presidentes e diretores como o presidente Jair Bolsonaro troca os ministros da Saúde no Brasil, o escolhido foi, economista e professor universitário Sahap Kavcioglu, que tinha criticado os recentes aumentos das taxas de juros em sua coluna na imprensa turca.

O terremoto foi imediato. A lira despencou 15% na abertura dos negócios e a Bolsa de Istambul acionou o “circuit break”, após queda de 8% no índice local.

Desafio ao Copom: derrubar inflação da casa de 7%

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) divulga amanhã a ata completa da reunião de 17 de março que elevou de 2% para 2,75% ao ano a taxa Selic e já anunciou uma nova provável alta de 0,75 p.p. para 3,50% ao ano em 5 de maio.

Isso bastou para o mercado financeiro aumentar o sarrafo geral da Selic em dezembro de 2021. Há 4 semanas, esperavam 4% em dezembro, subiu para 4,50% e na pesquisa Focus, encerrada 6ª feira, 19 e divulgada hoje pelo BC, a taxa foi elevada para 5%. A novidade é que a taxa de 2022 foi elevada de 5,50% para 6%, nível que permaneceria até 2024.

O grande desafio do Copom – que, há meu ver, perdeu uma janela de oportunidade de elevar a Selic já em janeiro (0,25 p.p. pelo menos), amenizando a escalada do dólar e dos seus impactos nos combustíveis e alimentos– será enfrentar os próximos três meses com a inflação estourando o teto da meta: 3,75% este ano, de 3,50% em 2022 e de 3,25% em 2023.

IPCA pode chegar a quase 8% em junho

Pelas projeções da Focus, se o IPCA subir mesmo 0,90% em março (após 0,86% em fevereiro), com a inflação em 12 meses estava em 5,20% no mês passado e em março de 2020 a taxa foi de apenas 0,0%, a taxa em 12 meses subiria a 6%.

E aí vem o grande desafio dos meses de abril e maio. Em abril de 2020 houve deflação de 0,31% e a projeção para o próximo mês, até agora, é de 0,45%. Se as previsões se confirmarem, a taxa do IPCA em 12 meses sobre a 6,96%. Em maio, diante da previsão atual, de 0,26%, contra deflação de 0,38% em maio de 2020, o índice em 12 meses subiria a 7,60%.

Se a escalada do Copom não valorizar o real (a Turquia precisa ajudar) e a queda momentânea dos preços do barril de petróleo não permitir reduções nos preços internos dos combustíveis, há um risco de junho ter inflação próxima a 8%. Para isso basta haver uma alta superior aos 0,26% registrados em junho do ano passado. Ou desvios em março e abril frente às previsões. Com 0,60% em junho, o IPCA pode roçar os 8%.

Assim, aviso: não aceito convite para o Banco Central ou Ministério da Saúde.



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