O OUTRO LADO DA MOEDA
Decisão do Copom é confissão de erro no câmbio
Publicado em 18/03/2021 às 17:11
Alterado em 18/03/2021 às 17:11
Gilberto Menezes Cortes CPDOC JB
A surpreendente (para o mercado) alta de 0,75 p.p. da Selic decidida ontem, 17 de março, por unanimidade dos oito diretores e mais o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que integram o Comitê de Política Monetária do BC, preocupado com o cumprimento da meta de inflação deste ano e a ancoragem das expectativas, já anunciando a provável repetição da dose em 5 de maio, quando a taxa iria saltar dos 2% até (17.03) para 3,50% ao ano, parece ser um confissão de um erro tremendo do BC e do Ministério da Economia na gestão do câmbio no ano passado.
Se a inflação desgarrou, apesar da compressão da demanda, que já vinha baixa e piorou com as medidas de isolamento para contenção da pandemia da Covid-19, que ampliaram dramaticamente o desemprego, a culpa foi da má gestão do governo no câmbio, que impulsionou ainda mais a escalada dos preços das commodities agrícolas de exportação (soja em grão e óleo, arroz, milho, café e carnes), além dos combustíveis derivados de petróleo.
Em 5 de março de 2020, numa palestra a empresários da Fiesp que reclamavam de o dólar ter saltado de R$ 4, no início de janeiro, para a faixa acima de R$ 4,60, com temor de chegar a R$ 5,00 (antes, portanto, da Organização Mundial da Saúde decretar a pandemia da Covid-19, em 11 de março e do BC adotar medidas emergenciais de crédito, em 16 de março) Paulo Guedes afirmou: “É um câmbio que flutua. Se fizer muita besteira pode ir para esse nível. Se fizer muita coisa certa, ele pode descer".
Pois desde a decretação da pandemia, com restrições de funcionamento de certos setores da economia, o dólar ultrapassou a faixa de R$ 5. O pico de R$ 5,89 foi alcançado em 12 de maio de 2020. Fechou o 1º semestre em R$ 5,46 e continuou alto no 2º semestre, fechando o ano em R$ 5,19. Com o nível elevado do câmbio, os exportadores venderam toda a safra de grãos e o país, em setembro, com o óleo de soja subindo mais de 80% e o arroz 60%, teve de importar soja em grão para fazer óleo e arroz para acompanhar o feijão. Ao fim do ano da má gestão no câmbio e nos estoques (por excesso de liberalismo) o óleo de soja subiu mais de 100% para o consumidor e o arroz mais de 70%.
A sucessão de “besteiras” de Paulo Guedes, que quando não era vitrine ou “Posto Ipiranga” e gostava de jogar pedras nos condutores da política econômica, com previsões catastróficas que lhe renderam o apelido de “Beato Salú”, manteve o dólar pressionado este ano até ontem, quando atingiu o pico de R$ 5,69. Hoje, após o cavalo de pau do Copom, a taxa caiu para a mínima de R$ 5,52, mas voltou a subir ligeiramente depois das 14:30. Como o terremoto causado pelo câmbio nas camadas tectônicas da inflação provocou um tsunami nas cotações do petróleo (também atreladas ao dólar, como a soja, o café, o milho, as carnes e o minério de ferro, a inflação explodiu.
Beato Salú e Jair do Caixão, a dupla
No pior cenário da inoperância do governo no câmbio e na gestão da pandemia, pelo negacionismo do presidente Jair Bolsonaro a medidas preventivas de isolamento social, uso de máscaras e mobilização pela compra de vacinas, como as únicas capazes de frear a escalada da Covid-19, o país trocou três ministros da Saúde (dois médicos experientes) e entregou a gestão, por 10 meses, a um general intendente, três estrelas, supostamente entendido em logística, mas que deixou quase 8 milhões de testes perderem a validade e não proveu oxigênio para Manaus e Acre e, quando foi reforçar a vacinação no Amazonas, enviou as remessas destinadas a Manaus para Macapá, mais de 1 mil km distante, o sistema de saúde está à beira do colapso.
O presidente Jair Bolsonaro respondeu rispidamente quando lhe pediram um comentário, em 20 de abril, quando o país tinha 2.745 mortos: “não sou coveiro!”. Bem, agora que as mortes passaram de 285 mil (mais de 270 mil na gestão do general Pazuello), já que Bolsonaro insiste em conduzir de perto as ações na saúde, mesmo na troca de Pazuello pelo cardiologista Marcelo Queiroga, seria o caso de ele assumir a identidade de “Jair do Caixão?”.
O que vem pela frente nos juros
Voltando aos velhos tempos do governo Dilma, quando ignorava as pressões do câmbio e manteve o freio de mão dos juros estacionado em 14,25% ao ano até o impeachment, em 16 de abril (a taxa só veio a cair para 14% em 18 de outubro de 2016), o Copom voltou a traçar um quadro otimista que não bate com a própria decisão de radicalizar na escalada dos juros, com 0,75 pontos percentuais, que (na observação do Departamento Econômico do Bradesco) “surpreendeu diante da expectativa de elevação de 0,50 p.p., nossa e do mercado em geral”. O comunicado divulgado pelo BC aponta um cenário global de recuperação econômica “robusta” à frente, refletindo avanços na imunização e estímulos nas principais economias [mas esse cenário ainda não é visível aqui].
O Depec Bradesco assinala que o comunicado do Copom “destaca os riscos de reprecificação de ativos financeiros, refletindo questionamentos sobre a inflação internacional. No que tange à economia brasileira, o colegiado destaca uma recuperação consistente observada nos dados do quarto trimestre, mas aponta o recente aumento no número de casos de Covid-19 e a manutenção da incerteza em níveis elevados”. Sinalização para a próxima reunião é de outra elevação de 0,75 p.p., mas BC aponta normalização parcial.
No mercado há duas correntes: uma, mais otimista, acha que o câmbio cede (trazendo a inflação para baixo) com nova alta de 0,75 p.p. em 5 de maio, retida em 16 de junho, fechando a taxa em 4,50% ao ano na reunião de 4 de agosto. [eu não creio que o BC desça de 0,75% para 0,25% em apenas uma reunião. Considero mais provável a Selic ir a 5% ou 5,25% (com novas altas de 0,75%, 0,75%, 0,50%,0,25%)].
O Departamento Econômico do Banco Safra, chefiado pelo ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, vê um cenário um pouco mais brando, com a Selic subindo novamente 0,75 em maio, para 3,50% ao ano, uma descida na escalada para 0,50 p.p. em 16 de junho, quando atingiria 4% ao ano e duas altas seguidas de 0,25 p.p. em 4 de agosto e 22 de setembro, fechando o ano em 4,50% ao ano.
Há no mercado quem veja necessidade da Selic chegar a 5% ou 6% este ano. O Itaú, que foi surpreendido pela alta de 0,75% (esperava também 0,50%) agora prevê um “ciclo completo [de alta] levando a taxa básica para 5,5% aa até o final do ano. Entretanto, como todo o mercado, aguarda os detalhes mais amplos da Ata do Copom, que será divulgada na próxima terça-feira, 23 de março, para fazer uma avaliação mais precisa.
Concertação ou consertação geral
Esta 2ª semana de março, quando o país completa um ano de pandemia, considerada de Calamidade Pública em 17 de março de 2020, parece marcar uma guinada do governo. Os presidentes da Câmara e do Senado, que levaram a Bolsonaro o nome da também cardiologista e médica intensivista Ludhmila Hajjar, para substituir o “general Pesadelo”, e ficaram contrariados com o descarte, devido à pressão dos bolsonaristas nas redes sociais.
Hoje, o presidente do Congresso e do Senado, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG) anunciou que vai propor a Bolsonaro, semana que vem, uma reunião com os diversos poderes da República visando uma ação coordenada de âmbito nacional para o combate à Covid-19.
O senador mineiro fala em “concertação nacional”. Não seria consertação nacional, com S de conserto do desastre, senador Rodrigo Pacheco?