'Impairment', o fiel da balança na Petrobras

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O caro leitor já soube que a Petrobras conseguiu o milagre de aproveitar a maré de alta dos preços do barril do petróleo no 4º e último trimestre de 2020, para reverter as baixas contábeis acumuladas de R$ 65,299 bilhões (praticamente lançadas no 1º trimestre, quando as cotações do barril despencaram), para reverter R$ 30,970 bilhões em baixas contábeis (“impairments”) no 4º trimestre, quando apurou o lucro recorde trimestral de R$ 59,898 bilhões, revertendo o elevado prejuízo anual esperado por boa parte dos investidores, em um lucro de R$ 7,108 bilhões (inferior em 82,3% aos R$ 40,137 bilhões de 2019), mas no terreno positivo, afinal.

Num quadro sintético apresentado pela Petrobras vê-se uma mudança drástica entre o 1º e o 4º trimestre de 2020. Na área de Exploração & Produção, com a queda dos preços no 1º trimestre, houve baixa contábil de R$ 64,246 bilhões e mais R$ 788 milhões no segmento corporativo, somando R$ 65,299 bilhões de baixas, prejuízo praticamente carregado até o último trimestre.

Com a recuperação das cotações e mudanças no câmbio, a área de E&P reverteu baixas contábeis de R$ 30,286 bilhões. Ou seja, 53% foram recuperados. A pergunta que cabe aqui (sempre fácil ser engenheiro de obra feita) é: “se a Petrobrás recuperou ativos que ficaram com ela, quanto não teria recuperado daqueles que vendeu na baixa (ou quanto lucraram os compradores)?”. Só que a dívida em dólar (que estava em alta) queimava o caixa da estatal e a decisão teria sido sensata, numa visão de curto prazo.

Até o desmoralizado Comperj (que acumula baixas de mais de R$ 20 bilhões) também conseguiu recuperar, no 4º trimestre, perdas de R$ 1,340 bilhão de antes lançadas.

Os maiores “impairments” e os saldos anuais

Os maiores “impairments” da história da Petrobras ocorreram a partir do balanço de 2014. Não apenas devido aos escândalos de superfaturamento descobertos pela Operação Lava-Jato e confessados pelas empreiteiras e fornecedores da estatal. Mas porque houve forte baixa dos preços do petróleo.

O primeiro grande choque dos “impairments” veio no balanço de 2014 - R$ 44,636 bilhões -, que gerou prejuízo histórico de R$ 21,6 bilhões.

Em 2015, com a escalada do dólar (55%) e a queda do barril da faixa de US$ 87 (em 2014) para US$ 42, as baixas contábeis somaram R$ 49,748 bilhões, com prejuízo, ainda maior, de R$ 34,8 bilhões.

Em 2016, houve nova baixa de R$ 20,897 bilhões nos ativos desvalorizados e, com o barril caindo abaixo de US$ 40 e o dólar em alta, a estatal amargou prejuízo de R$ 14,8 bilhões.

Em 2017, 1º ano cheio da gestão Pedro Parente, que começou a ajustar os preços internos dos derivados aos do mercado internacional, a perda de ativos baixou para R$ 3,925 bilhões e o prejuízo encolheu para R$ 446 milhões.

Em 2018 houve perdas de R$ 7,583 bilhões em ativos e a estatal gastou muito para fazer acordos com acionistas no exterior, mas a alta de 33% no barril de petróleo, para a faixa de US$ 66, ajudou a produzir lucro de R$ 25,779 bilhões.

Em 2019 houve “impairments” de R$ 11,630 bilhões, mas a estatal, beneficiada pela maior produção, o aumento dos preços dos derivados e a venda de ativos, apresentou lucro de R$ 40,1 bilhões.

Lá vem o advogado do diabo, de novo: “Venda de ativos pode ser lançada como lucro?”. Depende: se descontar custo de aquisição X preço de mercado e fazer a antecipação do fluxo de caixa que seria onerado pelo endividamento, pode ser bom negócio.

Mário Henrique Simonsen sempre ensinava: “Patrimônio deve ser sempre reavaliado; quando vendido deve ser reinvestido em outro ativo (por isso há incentivo no IR à compra de novo imóvel com certo intervalo), jamais “vender apartamento para passar férias na Europa”, dizia, ou na Disney, digo eu.

A nova norma contábil

Mas você sabe o motivo dos “impairments” passarem a afetar tanto os balanços da Petrobras? Quem analisa ou lê os balanços da estatal para ver de onde vem o lucro ou o prejuízo já deve ter lido a sigla IFRS acompanhando a descrição balanços em reais ou dólar da estatal. IFRS significa, em inglês, International Financial Reporting Standards, ou seja, que os balanços segues as suas normas, emitidos pelo International Accounting Standards Board – IASB, o organismo máximo de rege as normas de contabilidade global.

A adoção das normas do IFRS passou a ser obrigatória já nos balanços de 2010, exibidos em 2011, mas veio precedida de ajustes desde 2004-2005. No Brasil, onde as empresas usavam a correção monetária para atualizar o valor de seus ativos imobilizados, a grande mudança foi que o critério passaria a ser “o valor de mercado” dos ativos (seja imóveis ou mobiliários). O que antes podia ser maquiado (escondendo uma valorização artificial de um imóvel, por exemplo), que se desvalorizaram em quase todo o mundo na crise financeira mundial de 2008, teve de ser declarado pelo real valor de mercado.

Na Petrobrás, houve um duplo choque de realidade em 2014, quando o choque da Lava-Jato baixou a água da piscina e mostrou muitos negócios “nus”.

Os maiores lucros da história

Levantamento da consultoria Economática junto aos 20 maiores resultados trimestrais de empresas de capital aberto no Brasil coloca o lucro líquido da Petrobras no 4º trimestre de 2020 (R$ 59,89 bilhões) como “o maior lucro trimestral já registrado por uma empresa de capital aberto brasileira em valores nominais”.

A Petrobras aparece em nove oportunidades e a Vale em sete oportunidades entre os maiores lucros trimestrais históricos das empresas de capital aberto. O lucro de R$ 30 bilhões da Oi em 2018, após renegociar a dívida com desconto junto a fornecedores e credores, atualizado pela inflação é o 2º maior. Mas não impediu a crise da empresa, que vendeu, no ano passado, o setor de telefonia móvel à Vivo, Claro e Tim (ainda pendente de aprovação do Cade).

Valor de mercado

O valor de mercado da Petrobras no dia 24 de fevereiro de 2021 foi de R$ 323,6 bilhões, 16,0% inferior ao do final de 2020.

Em valores anuais, o maior valor de mercado foi atingido em 2007 (o petróleo estava em alta, atingindo US$ 164 em julho de 2008, despencando a partir daí com a crise financeira mundial nascida nos Estados Unidos): R$ 429,9 bilhões.

Com as quedas subsequentes, o pior ano foi em 2015 com R$ 101,3 bilhões.

No fechamento de 2019 a empresa chegou a valer R$ 407,2 bilhões e com a pandemia a empresa fechou 2020 com R$ 373,4 bilhões.


Consumidor pessimista e inadimplente

Os consumidores fluminenses ainda amargam o gosto da crise provocada pela Covid-19. É o que mostra nova pesquisa do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFec RJ). A inadimplência aumentou de 47% para 56,9% entre janeiro e fevereiro. E a parcela dos consumidores sem contas em atraso caiu de 53% para 43,1%.

O cartão de crédito é o X do problema para 59,2%, seguido pelas contas de luz, água, telefone, gás e internet (48,1%) e crédito pessoal (32,6%).

O temor do desemprego

O maior medo dos entrevistados é quanto ao emprego nos próximos três meses: 70% dos fluminenses estão com medo ou muito medo de serem demitidos. Em janeiro, esse índice correspondia a 60,6%.

Presidente do BC faz tributo ao avô

Na cerimônia de promulgação da PEC que conferiu autonomia ao Banco Central, seu presidente, Roberto Campos Neto, fez questão de prestar um tributo a seu avô:

Lembrou que antes mesmo da criação do Banco Central do Brasil, pela Lei 4.595 (Reforma Bancária) de 31 de dezembro de 1964 “meu avô, Roberto Campos, Ministro do Planejamento do governo Castello Branco e um dos principais responsáveis pela criação do BC” já era “um grande defensor da autonomia da instituição.”.

E recordou que a Lei nº 4.595, já garantia ao presidente e diretores do BC um mandato de prazo fixo de 6 anos, superior ao mandato do Presidente da República, na época, de 5 anos.

Mas a autonomia durou pouco tempo, desaparecendo já no início de 1967, com a substituição do primeiro presidente do BC (Dênio Nogueira) antes do término de seu mandato, por Ruy Leme. Mas esse, que gostava de fumar cachimbo em suas entrevistas, não agradou ao Marechal Costa e Silva, no poder desde março de 1967 e o demitiu em fevereiro de 1968. Ernane Galveas, quadro da Sumoc, dirigia a Cacex, e foi empossado,ficando no cargo até março de 1974. Foi substituído pelo seu diretor da Área Externa, Paulo H. Pereira Lira, que também fumava cachimbo (Galveas voltou a comandar o BC em 1979, passando a ministro da Fazenda em 1980, com Delfim no Planejamento).

Não era o uso do cachimbo que tornava torta a gestão no BC. Pedro Malan, primeiro presidente do BC no governo FHC, também usava cachimbo.

Foram “necessários mais de 50 anos para que houvesse uma confluência de forças que restabelecesse a autonomia do BC”, destacou Campos Neto.