IPCA-15 menor é boa surpresa, mas cenário é de alta

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A alta de 0,48% no IPCA-15 de fevereiro (espécie de prévia do IPCA cheio que o IBGE vai divulgar em 11 de março, veio abaixo da média do mercado (0,50%). Para o Departamento Econômico do Itaú, que esperava 0,46%, a inflação veio próximo do esperado em fevereiro. O banco destaca que apesar de “a inflação subjacente de bens seguir pressionada na margem, nos indicadores de serviços ela já mostra alívio”.

O principal item de alta foi educação, devido às matrículas na volta às aulas, com alta de 2,39%. Os itens transportes, pressionados pelos aumentos médios de 3,34% dos combustíveis, que pesaram 0,22 pontos percentuais no índice, subiram 1,1% na prévia do IPCA de fevereiro. Só a gasolina, com o 8º aumento seguido (3,52%), pesou 0,17 ponto percentual no item. O diesel subiu 2,89%. A boa notícia veio da desaceleração dos Alimentos e Bebidas: depois de subir 1,53% no IPCA-15 de janeiro, a variação caiu para 0,56% em fevereiro.

Mas o Itaú assinala que “as medidas de núcleo de inflação seguem acelerando no acumulado em 12 meses. Destaque para o comportamento de serviços subjacente, com alta de 0,37% no mês e acelerando de 2,6% para 2,8% em 12 meses. O núcleo de industriais subjacente subiu 0,27% em fevereiro e acelerou de 2,2% para 3,2% no acumulado em 12 meses”.

Os reajustes dos combustíveis na semana passada fizeram o banco revisar o cenário para os próximos meses. A projeção preliminar para o IPCA de fevereiro foi elevada para 0,67% (dia 17, era de 0,66%). O banco espera alta de 0,46% em março (0,33% em 17.02) e 0,37% em abril (0,33 em 17.02). No 1º trimestre a inflação acumulada seria de 1,39%, segundo estima a economista Júlio Passabom, do Depec Itaú.

Salto da inflação em 12 meses até junho

O problema é que a decretação da pandemia da Covid-19 deprimiu os preços no período inicial do isolamento social, a partir de 18 de março de 2020, tornando a base de comparação em 12 meses desigual. Nos três primeiros meses do isolamento a inflação foi baixa em março (0,07%) e fortemente negativa em abril (-0,31%) e maio (-0,34). A partir do pagamento do Auxílio Emergencial, aqueceu o consumo de alimentos e os preços subiram gerando a inflação final de mais de 14% nos Alimentos e Bebidas em 2020.

Só a partir de julho os índices mensais do IPCA deste ano podem ficar inferiores aos do ano passado. Então, só em julho (taxa mensal de 0,22, contra 0,42% em junho) após a taxa acumulada de 12 meses (4,56% em janeiro) atingir 6,8% em junho, começa a declinar para 6,6%, fechando o ano em 3,8%.

Salvo surpresas do clima (que afetam os preços dos alimentos) ou dos combustíveis.

A escalada dos juros

A alta da inflação dos serviços é o principal motivo que o Itaú aponta para sua previsão de alta da taxa Selic, o piso dos juros do mercado, para 3,50% até dezembro. A escalada dos atuais 2% ao ano para 2,25% a.a. começaria na reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central marcada para os dias 16 e 17 de março. Em maio, novo aumento para 2,75%.

A escalada iria até 3,50% em agosto, sendo mantida neste patamar até o fim do ano. Para 2022, o Itaú espera alta até 5,00%, com o primeiro movimento de alta de 0,25 ponto percentual em janeiro, para 3,75%.

No coro dos contentes

É claro que os investidores e gestores de fundos de investimento em ações, especialmente aqueles que arriscam no volátil mercado de opções, ainda estão curando as feridas do impacto da intervenção do presidente Jair Bolsonaro.

No dia 18 de fevereiro, ele criticou os reajustes de combustíveis anunciados na véspera pela Petrobras e adiantou que haveria “mudanças” na estatal, formalizadas na 6ª feira, 19, quando o Ministério das Minas e Energia soltou nota informando que proporia a troca do presidente Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna, que dirigia a Itaipu Binacional.

O mercado já estava nervoso na volta das negociações pós feriados do Carnaval, às 13 horas do dia 17, quando a nova e inesperada alta dos combustíveis (que irritou o presidente Bolsonaro, cobrado por caminhoneiros), impulsionou os compradores. Ao fim do curto pregão, alta de 4,04% nas ações PN, devidamente comemoradas (para aflição dos vendidos).

Mas a reação de Bolsonaro no dia 18, mudou o cenário na parte da tarde: as ações PNs fecharam em baixa de 1,08%. Os comprados ainda estavam ganhando. No dia 19, 6ª feira, novas críticas de Bolsonaro e a confirmação da troca (ainda passível de uma convocação de assembleia para este fim) e os papéis caem 6,63%. Os comprados passam a perder para os vendidos.

Na 2ª feira, 22, dia do ajuste final do mercado de opções na B3, o pânico vendedor dos que estavam comprados atingiu outros papéis. Petrobras PN caiu 21,51%. Uma choradeira quase geral (salvo os vendidos que ganharam muito inesperadamente).

Ontem, sem a pressão das opções, o mercado reagiu e Petrobras PN subiu 12,17%. Hoje, até as 15 hs, subia 1,79%. Ainda sem anular as perdas.

Mas o terremoto e o tsunami que se seguiu passaram ao largo da carteira do maior investidor individual da Petrobras em ações ON e PN. Juca Abdalla, ou João José Abdalla, que através do Banco Clássico é o maior investidor na Petrobras, Eletrobrás, Cemig e outras grandes empresas, já adiantou a amigos que vai apoiar as mudanças propostas por Bolsonaro na estatal.

De quebra, está feliz com a retomada do processo para a privatização da Eletrobrás. Há um ano, conversando comigo na saída do metrô em Ipanema, antes de pandemia, é claro, se disse plenamente favorável à entrega da gestão a grupos privados que reduzem custos e tornam as empresas estatais mais eficientes (espera-se que com custos menores de tarifas também).

A receita do “Tio Patinhas”

Para quem estranha o encontro com um dos 20 brasileiros mais ricos nas escadarias do metrô, devo dizer que foi antes da pandemia.

Mas, JJ. Abdalla tem métodos frugais como o “Tio Patinhas”: valoriza cada centavo, usa a gratuidade do metrô e se servia habitualmente de restaurantes de comida à quilo.

A exceção eram os jantares nos fins de semana no Country Clube de Ipanema, interrompidos quando a Covid-19 atingiu até o mâitre do restaurante do clube.