Queda de 6,1% no varejo em dezembro é sinal de alerta

.

...
Credit......

A queda de 6,1% no volume de vendas do comércio varejista em dezembro sobre novembro (que tivera queda de 0,1% frente a outubro) acendeu o sinal de alerta para as grandes empresas, bancos e estudiosos da economia. É que dezembro costumava ser o melhor mês nas vendas do comércio. E a expectativa do Bradesco era de uma queda de apenas 0,6%..

Com a popularização da “Black Friday”, artifício do comércio para antecipar vendas na 2ª quinzena de novembro, o pico foi diluído para os dois últimos meses do ano. Mas no atípico ano de 2020, a “BF” foi antecipada por muitos grandes varejistas para fins de outubro, começo de novembro.

O esfriamento das vendas em dezembro - que deve se repetir em janeiro e fevereiro e se estender até março - projeta resultado mais negativo na economia neste 1º trimestre (já que a base de comparação, o 1º trimestre de 2020, teve queda de 0,3%, uma das menores do ano). O Itaú previa queda de 1,2% no PIB trimestral.

Segundo os dados do IBGE, divulgados nesta 4ª feira, 10 de fevereiro, o “comércio varejista mostra números positivos [porém declinantes] no acumulado de cada ano: 2,1% em 2017; 2,3% em 2018; 1,8% em 2019; e 1,2% em 2020. Em 2020 o volume de vendas do comércio varejista encolheu 7,7% no 1º semestre e cresceu 4,2% no 2º, fechando o ano com alta de 1,2%.

O que salvou o comércio varejista foram as vendas de supermercados e hipermercados, que cresceram 4,8% no ano, puxadas pela alimentação, devido ao isolamento em casa. Em compensação, com a menor mobilidade e uso de automóveis e ônibus, as vendas de combustíveis encolheram 9,7%. Mas nada se compara ao tombo de 22,7% nas vendas de tecidos e vestuário.

Isolamento gera reformas e móveis novos

Quase todos os ramos do comércio varejista tiveram forte melhora no 2º semestre, com destaque para “Móveis e eletrodomésticos” (de -1,4% para 20,7%, consequência direta do recolhimento ou da intensificação do trabalho em casa) e “Outros artigos de uso pessoal e doméstico” (de -10,6% para 12,9%). As vendas de “Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria” cresceram 8,3% no ano passado.

O comércio varejista ampliado (que inclui automóveis, motos e autopeças), teve queda de 1,5% em 2020, a primeira após três anos consecutivos positivos. Mas também houve reação no 2º semestre: Após tombo de 22,7% na primeira metade do ano, “Veículos, motos, partes e peças“, encolheram 5,4% no 2º semestre, comparado a igual período de 2019.

Mais notável foi o ganho das vendas em Material de construção (de -2,0% para 22,4%), indicando que o isolamento em casa suscitou reformas nas habitações. No ano, o volume de vendas de material de construção cresceu 10,8%, com o ritmo acompanhando a queda do valor do Auxílio Emergencial no 4º trimestre.

Realidade é que impõe extensão do Auxílio

O mais prestigiado jornal de Economia do país, o “Valor Econômico”, publica hoje matéria sobre a negociação da equipe econômica (leia-se Paulo Guedes&Cia) para que o Congresso edite de uma nova PEC de Orçamento de Guerra (que isenta o governo do cumprimento das metas fiscais, como em 2020), além de insistir na necessidade de avançar com o ajuste fiscal por meio da PEC Emergencial, para reviver o Auxílio Emergencial em novas bases.

Mas comete um erro de avaliação ao dizer que a recriação do Auxílio Emergencial (o Ministério da Economia acena com o valor de R$ 250, pago a um número bem menor que 67 milhões que foram atingidos em 2020) “está se tornando um fato consumado por imposição da classe política”. Não é ela que se movimenta, são “Suas Excelências” os fatos que se impõem.

Crise não respeita o calendário

A crise da Covid-19 está longe de ser vencida se a vacinação não avançar em ritmo capaz de assegurar a “imunidade do rebanho”, ou seja, da maior parte da população (e o ritmo mais forte da vacinação no Amazonas, o estado que vive um surto mais forte da cepa mutante do novo coronavírus é a prova disso), não há como a economia e o emprego voltarem a um mínimo de normalidade.

Sem emprego ou renda na economia informal, se o governo não renovar o Auxílio e acelerar a vacinação, a popularidade do presidente seguirá em baixa.

Como se recorda, quando foi declarada a pandemia mundial da Covid-19, em 16 de março de 2020, e o Brasil adotou o Estado de Calamidade Pública, a equipe econômica propôs um Auxílio Emergencial de R$ 250 (30% acima do piso do Bolsa Família, então em torno de R$ 192). O Congresso, liderado pela Câmara dos Deputados, quis dobrar para R$ 500.

Quando viu que seria atropelado pela emenda do Congresso, o presidente Bolsonaro bateu o martelo em R$ 600, nível que valeu de abril a setembro (e turbinou sua popularidade de maio a outubro). Ao cair 50% para R$ 300 a partir de outubro, sendo extinto em dezembro, puxou para baixo a popularidade.

Em todo o mundo, a começar pelos Estados Unidos, quando os governos perceberam que não seria a mudança do calendário ou do ano fiscal que deteriam o avanço do vírus e os impactos na economia, trataram de prorrogar as medidas de emergência e implementar a vacinação em ritmo mais forte.

Choque na energia

O alívio na escalada dos alimentos não vai deixar o que se cozinha nas panelas mais em conta. É que o bujão de gás (GLP) foi reajustado em 5,1% nas refinarias da Petrobras e os varejistas tendem a arredondar para 10% o aumento na ponta do consumidor, somando o reajuste de 8,2% na gasolina e de 6,2% no óleo diesel, que movimenta os caminhões de distribuição dos bujões de 13 kg.

Se isso já fosse pouco, o calendário de reajustes das tarifas de energia elétrica reserva um choque de 14,5% para a média das distribuidoras.

O que é ruim pode piorar.

Para o economista e engenheiro elétrico, Manuel Jeremias Leite Caldas, diante dos baixos níveis de água armazenada nos reservatórios das hidrelétricas do Centro-Oeste e Sudeste, é “preciso que daqui até meados de março aumente em 170%” o índice de chuvas sobre as cabeceiras dos rios da região.

Se São Pedro der uma baita ajuda (não estará distraído com o Carnaval, adiado, mas não deve exagerar para não causar estragos e mortes), pode impedir que as termelétricas sejam acionadas para poupar água para o período de estiagem que começa em fins de abril/maio.

O risco inicial é a volta da bandeira vermelha em março. Estamos com a amarela, após a Aneel passar da bandeira verde, que iria vigorar até 31 de dezembro de 2020, para a Bandeira Vermelha 2, em dezembro.

Isso implica forte alta nos custos de energia. Para Caldas, o pior é vir “o racionamento”, já admitido há algumas semanas pelo presidente Bolsonaro.