Queda do dólar turbina lucros no 4º trimestre de 2020

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Com base nos demonstrativos financeiros padronizados que as empresas de capital aberto entregam à CVM, a consultoria Economatica calcula que a queda de 7,87% na cotação do dólar Ptax (a taxa oficial de câmbio do Banco Central) no 4º trimestre de 2020 pode afetar o lucro das empresas, ao reduzir o valor da dívida em dólar (isto sem considerar operações de hedge ou swap cambial), que minimizam o impacto da oscilação do câmbio na dívida e faturamento das empresas exportadoras/importadoras.

Ao analisar 89 demonstrativos financeiros de empresas (65 não mostraram o valor das dívidas, incluindo gigantes como a Petrobras, Vale, CSN, Klabin e Gerdau) a consultoria apontou um ganho de R$ 22,6 bilhões. Maior exportadora de celulose de eucalipto do mundo, a Suzano seria a maior beneficiária, com lucro extra de R$ 4,890 bilhões. Em seguida vêm Braskem, com R$ 3,445 bilhões, Embraer (R$ 1,988 bilhão), JBS (R$ 1,107 bilhão), Oi (R$ 1,090 bilhão) e Eletrobrás (R$ 992 milhões).

Da amostra total de 315 empresas não financeiras, 250 informam o valor da dívida em moeda estrangeira no plano padrão de contas da CVM e 65 empresas não publicam esta informação. Das 250 empresas que publicam a dívida em moeda estrangeira, somente 89 estão alavancadas em moeda estrangeira, que foi o universo pesquisado pela consultoria.

Desvalorização do dólar é trunfo

As 89 empresas de capital aberto com dívida em moeda estrangeira no 3º trimestre de 2020 acumulam R$ 287,21 bilhões, equivalentes a 44,7% do total do estoque da dívida bruta (R$ 643,2 bilhões). A dívida em moeda estrangeira a CP de R$ 39,27 bilhões representa 13,67% do total da dívida contraída em moeda estrangeira. O endividamento a LP em moeda estrangeira, de R$ 247,94 bilhões, representa 86,33% do estoque total do endividamento em moeda estrangeira.

Considerando que a empresa mantém o estoque de dívida no 4º trimestre de 2020 e que o Dólar Ptax registrou desvalorização de -7,87% a dívida em moeda estrangeira das empresas que era de R$ 287,21 bilhões em 30 de setembro passaria para R$ 264,6 bilhões (F), gerando ganho financeiro de R$ 22,60 bilhões devido à variação cambial. Na análise, para efeito de cálculo, a Econômica considera que “a empresa não realizou nenhum tipo de cobertura cambial por algum instrumento, como por exemplo hedge cambial, como também não é considerado o hedge natural da empresa”

O lucro EBIT das 89 empresas no 3º trimestre de 2020 foi de R$ 31,67 bilhões. Se a empresa repetir esse mesmo desempenho no 4º trimestre de 2020, o ganho financeiro devido à variação cambial do quarto trimestre de 2020 de R$ 22,60 bilhões representaria 71,4% do lucro EBIT das empresas do 3º trimestre de 2020.

O caixa das 89 empresas pesquisadas no 3º trimestre de 2020 era de R$ 248,7 bilhões (86,6% do total da dívida em moeda estrangeira). A relação entre o caixa e a dívida de CP em moeda estrangeira era de 6,33 vezes. A dívida líquida das empresas era de R$ 394,52 bilhões.

CVM dá cartão amarelo a pirâmides nas redes

Em ação preventiva para evitar que se repitam no Brasil manobras especulativas engendradas nas redes sociais por grupos de investidores que derrubam cotações nos mercados futuros e a termos e depois tentam articular “corners” contra os vendidos, que têm dificuldades para entregar as ações como acertado no contrato - como ocorreu com a Game Stop, nos Estados Unidos -, a Comissão de Valores Mobiliário, o “xerife” do mercado de capitais brasileiro, advertiu hoje, 29 de janeiro, para a “possível atuação irregular de pessoas em mídias sociais, com vistas a influenciar o comportamento de investidores”.

Trata-se de uma boa medida. Com o isolamento parcial na pandemia da Covid-19 e o trabalho em casa, muita gente aproveita o tempo ocioso para montar operações com amigos e colegas virtuais. No trabalho em escritório, quando todos usam os computadores da empresa, costuma haver maior controle da troca de informações entre os funcionários (permitindo que, por vezes, sejam detectadas fraudes ou condutas fora de padrões éticos e morais).

Grandes casos célebres do mercado

"Corners" sempre existiram nos mercados. Nos Estados Unidos, no começo do século 20, eram comuns, entre grandes investidores de papéis de ferrovias (não rato os autores eram os próprios acionistas controladores). Não havia controle eletrônico das operações (praticamente uma conquista do final do século, início do século 21). O mundo era dos espertos e espertalhões.

Com a grande depressão de 1929-30 nivelando grandes e médios investidores, o presidente Franklin Roosevelt criou a Securities Exchange Comission (a SEC, que serviu de inspiração à CVM, criada por Mário Henrique Simonsen, em 1976) e nomeou para comandá-la um dos maiores espertalhões do mercado: Joseph Kennedy. Sim, o pai do futuro presidente John Kennedy era dos grandes malandros do mercado. Como conhecia as manhas dos parceiros, muitos furos foram fechados e a regulação dos mercados funcionou.

No Brasil, gerou “o caso Vale”

Desde que os mercados futuros foram introduzidos no Brasil na segunda metade dos anos 70, muitas operações foram engendradas. Alguns investidores se especializaram em determinadas ações. A Vale do Rio Doce (então estatal) se prestava muito a operações, porque eventuais desvalorizações acima ou abaixo da correção monetária (piso dos juros das operações financeiras e dos contratos futuros) influíam nos lucros das empresas e nas cotações. Operador do mercado aberto, o professor de matemática financeira Alfredo Grunser Filho, era o rei da Vale. Ganhou muito dinheiro, deixando oponentes na ruína. Criador de cavalos de corrida em Teresópolis (RJ), batizou sua coudelaria de Doce Vale.

Em maio de 1980, para salvar a corretora Ney Carvalho (“dealer” de títulos públicos do Banco Central e um dos corretores oficiais de fundos públicos), o governo Figueiredo, através do ministro da Fazenda, Ernane Galveas e do então presidente do BC, Carlos Geraldo Langoni, vendeu ações da Vale em poder do Tesouro no mercado.

Em vez de oferta pública – como é praxe em grandes lotes –, a ordem de venda foi cumprida pelo operador de pregão da Ney Carvalho, diretamente para o comprador da mesma corretora, o hoje dono da Corretora Ativa e recém-eleito presidente do Vasco da Gama, Jorge Salgado. A CVM, então presidida por Jorge Hilário Gouvêa Vieira, peitou o ministro e o BC e, com ajuda do JB, que entrou firme no caso apoiando a ação da CVM. A cobertura do caso pela editoria de Economia, comandada pelo saudoso Paulo Henrique Amorim ganhou o “Prêmio Esso" e gerou a demissão do presidente da BVRJ, Fernando Carvalho, da Ney Carvalho.

Mas veio o dia em que Grunser provou do próprio veneno: levou um "corner" monumental de outro grande investidor, Daniel Dantas. Este ainda tripudiou, colocando anúncios nas editorias de economia dos principais jornais avisando que os comprados iam exercer o direito (com grande perda para Grunser).

Os perigos para os principiantes

Mais arriscado, o mercado de opções (no qual investidores investem apenas uma fração do valor do lote de ações da empresa, mas podem ter de fazer depósitos se as cotações subirem ou caírem muito) por ter operações altamente alavancadas, leva muita gente a ficar rico ou pobre em poucas horas (quando as “ações viram pó”, no jargão dos operadores).

Mercado de ações, com operações diretas no computador de casa, não é para principiantes. E a CVM faz bem em frear a bandalheira.

Para o meu gosto, a CVM deveria fiscalizar mais as relações pouco transparentes entre instituições financeiras e sites especializados de Economia&Finanças. O BTG-Pactual virou controlador da Exame. A XP controla a Infomoney. O Rico é da corretora do mesmo nome. Há alguns anos, o site Empiricus sofreu investigação e advertência da CVM.

É preciso que a "Muralha da China" entre as áreas de gestão de fundos e de "underwtittings" se estenda à essa área. Minhas análises econômicas são sempre estruturais, no macro. Não endosso material oba-oba sobre bitcoins. “Moeda” sem controle (de qualquer espécie) facilita a montagem de pirâmides.

Quando um especulador quebra a Bolsa

Por não ter freado a tempo as manobras especulativas de Naji Nahas, investidor egípcio que se radicou no Brasil nos anos 70, a BVRJ implodiu em 1989 e perdeu para a Bovespa o comando do mercado de ações do país.

Como São Paulo já sediava a BM&F, a bolsa dos contratos futuros de ações, commodities e títulos públicos e privados, o próximo passo, nos anos 90, foi a mudança do Centro Financeiro do país do Rio de Janeiro para São Paulo. Uma perda que as pessoas de visão (sobretudo os políticos) deviam ter evitado.

Concentração econômica gera desnível social

O centro financeiro é uma “indústria sem chaminé”. Em nome do equilíbrio econômico e social da Federação, o general Ernesto Geisel vetou novos investimentos industriais em São Paulo com incentivos fiscais. Novas fábricas de automóveis foram para Minas (Fiat, em Betim) e Paraná (Scania, em São José do Pinhais). Nas décadas seguintes, foram para RS, SC, BA (a Ford que agora está batendo asas e voando para a Argentina) e interior de SP mesmo.

Quando a elite empresarial e política da Grande São Paulo viu que as indústrias se mudavam do berço do ABCD, onde o caos do trânsito trazia problemas de logística para receber componentes e expedir mercadorias prontas, para cidades do interior do estado, buscou atrair atividades de serviços para o eixo da capital (setor financeiro, tecnologia da informação, telecomunicações, “call centers” e grandes convenções).

O esvaziamento econômico do Rio (o fim do mercado cortou mais de 100 mil empregos diretos e indiretos) fez aflorar mais agudamente o drama social.