A desindustrialização do Brasil

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O ex-ministro Ciro Gomes (PDT), que ficou em 3º lugar na disputa do 1º turno com Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), tem toda razão em criticar o presidente da República pela desindustrialização em marcha do Brasil.

Há algum tempo (sobretudo em função da recessão do governo Dilma (2015-16) o Brasil saiu da lista dos 10 maiores produtores de manufaturas, em quantidade e valor. A China passou à frente dos Estados Unidos em 2009 e hoje produz quase tanto quanto os EUA, Japão e Alemanha somados. O baixo valor tecnológico da produção industrial brasileira e a desvalorização cambial , se somaram à forte perda de poder de compra dos brasileiros e inviabilizaram a economia de escala da produção de automóveis no Brasil.

O governo não tem plano nenhum em gestação. Em dezembro, a Mercedes-Benz encerrou a fabricação de automóveis no Brasil. Virão da Alemanha. A Udi, do mesmo país, pretende dar marcha à ré. A fusão da Fiat Chrysler com a Peugeot/Citroën pode engarrafar o mercado que encolheu mais de 30%. Não podemos nos contentar em sermos meros exportadores de matérias primas (petróleo e minério de ferro) e produtos agrícolas, de baixo valor tecnológico.

Não dá para entender a disposição da Ford de manter a produção de carros e pick-ups na Argentina e Uruguai para abastecer o mercado brasileiro. O Brasil soma mais do que o dobro dos dois países. Estamos com custos tão ruins assim? Com a palavra, Paulo Guedes, que enfeixou o ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior na pasta da Economia.

Remember a Autolatina

Esta parece ser uma saída definitiva da Ford do país. Estava aqui desde 1919, montando carros Ford T e caminhões Ford TT em regime CKD e só entrou para valer na produção de carros no Brasil em 1967, quando comprou a William Overland do Brasil e passou a fazer o Galaxie. (Por sinal, a Ford e a GM, que remontavam carros no Brasil) ficaram com pé atrás e não vieram na implantação da indústria automobilística com JK.

Houve afluxo principalmente nas fábricas europeias que desovaram aqui, como investimentos “zero quilômetro” velhas matrizes de carros que estavam saindo de linha de montagem, substituídos pelos novos modelos financiados pelos recursos da modernização industrial do velho continente pelo Plano Marshall. Afinal, embora grandes vencedores da 2ª Guerra, no mundo Ocidental, os Estados Unidos estavam sem parceiros industriais e comerciais...

Em julho de 1987, em pleno Plano Cruzado e após a criação do Mercosul, a Volkswagen e a Ford surpreenderam anunciando a criação da Autolatina, para a produção conjunta de carros das duas montadoras (com uso misto de chassis e motores) no Brasil e na Argentina. A VW ficou com 51% e a Ford, com 49% da Autolatina. Mas a rede Ford quase desapareceu e o negócio foi desfeito em 1996. A Ford decidiu parar a produção de veículos em São Bernardo do Campo e construiu moderna fábrica em Camaçari (BA). Ganhou novo fôlego e comprou a linha de montagem da Troller (criação sua, que estava licenciada há alguns anos), em Horizonte, próximo a Fortaleza (CE).

O tiro pela culatra de Donald Trump

As consequências das atitudes antidemocráticas do presidente americano Donald Trump, que culminaram com a infamante rebelião de invasão do maior símbolo da democracia dos Estados Unidos da América, o Capitólio, que abriga a Câmara dos Deputados e o Senado do país, foram um tiro pela culatra na imagem do Partido Republicano, que Trump liderou com mão de ferro nos últimos quatro anos. O primeiro efeito foi o corte de doações de multinacionais para campanhas políticas, em especial ao Partido Republicano mais afim ao mundo empresarial, para limpar a barra nos países em que operam.

A imagem dos EUA, como campeão da Liberdade e da Justiça, foi seriamente abalada pela tentativa de golpe do presidente americano. Mas o gesto infame não arranhou só a condição dos EUA para liderar nações do mundo livre, sobretudo do Ocidente, no respeito às leis e às regras democráticas. Respingou nas empresas americanas. Muitas vezes, esses princípios foram invocados para intervenções diretas ou indiretas das forças americanas em outros países, mas apenas mascaravam interesses comerciais e financeiros de grandes companhias americanas.

Da Doutrina Monroe ao Big Stick

Ao longo da história são inúmeros os casos em que os interesses dos Estados Unidos eram uma capa para proteger os negócios de suas empresas. Durante o século 19 prevaleceu a Doutrina Monroe, que tentava barrar a influência europeia, sobretudo a inglesa no continente americano. Na virada do século 20, Teodor Roosevelt adotou a política do “Big Stick” (porrete grande, baseada num ditado africano: “fale com suavidade, mas tenha um porrete grande para ser respeitado”). Os EUA fizeram uso da força naval e derrubaram governos para fazer valer os interesses americanos no Caribe e na América Central.

Os interesses americanos eram representados pelas atividades de produção de bananas, abacaxis e cana de açúcar da United Brands e United Fruits em vários países do Caribe, América Central e do Sul, como Cuba, República Dominicana, Costa Rica, Guatemala, Panamá e Colômbia. Governos que contrariavam os negócios da empresa eram destituídos por pressão americana, surgindo daí a expressão “República de Bananas”. Cuba foi a exceção à regra.

O símbolo maior da intervenção americana foi o Canal do Panamá, ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico. A obra fora iniciada por empresas francesas em 1880, mas Tio Sam se pôs à frente da obra em 1904 e a concluiu em 1920, ficando com a zona do Canal sob seu controle (e influência nos governos do Panamá) até 1999. Só há pouco mais de uma década, o governo panamenho promoveu concorrência internacional para o alargamento, já concluído.

A United Fruit vira Chiquita Brands

Empresa mais emblemática das intervenções americanas, a United Fruit Company (UFC) muda de nome, em 1969, quando foi comprada pela Zapata Corporation e recebe o nome de Chiquita Brands. Para se ver como os interesses empresariais e do estado americano se uniam, a Zapata era ligada a George H. W Bush. Republicano, Bush (pai de George W. Bush e do ex-governador da Flórida Joe Bush) foi o 41º presidente americano (janeiro de 1989 a janeiro de 1993), sucedido pelo Democrata Bill Clinton, após ter sido vice-presidente de Ronald Reagan, que fez intervenção militar em Belize. De janeiro de 1976 a janeiro de 1977, Bush pai dirigiu nada menos do que a CIA.

Domínio de serviços exige sofisticação política

Quando o mundo era só comércio, o porrete grande tinha seu peso. Depois da 2ª Guerra e da bomba atômica americana, o poderio militar americano passou a ser o grande guardião dos interesses das multinacionais americanas pelo mundo. O mundo do petróleo sempre foi o mais sensível às intervenções americanas (o Irã de Mossadegh, derrubado em 1953 quando quis nacionalizar os campos do país, para abrir caminho ao Xá Reza Palhevi), foi um dos maiores escândalos. Em parte, repetido na invasão do Iraque, em 2003, por Bush, filho: o pretexto (nunca provado) era de que Saddam Hussein tinha armas químicas; o pano de fundo era o controle das grandes reservas do país.

Mas as atividades econômicas se sofisticaram com a expansão do comércio e dos serviços financeiros, de telecomunicações, informática, turismo e várias formas de direito de propriedade de marcas&patentes. Isso levou à troca, nos anos 80, do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt) pela Organização Mundial do Comércio (OMC), que abrangeria atividades extra comércio.

No comércio (compra de matérias primas e sobretudo insumos energéticos) era bom para os Estados Unidos terem déficits. Comprar de fora garantia baixa inflação no país. O balanço de pagamentos gerava saldos para os EUA com receitas de royalties e serviços em geral. Mas a capacidade de superação da China na globalização embolou o jogo. E Trump resolveu peitar a China e quis acabar com a OMC sem oferecer nada em troca.

Agora, com a anarquia espalhada pelos Estados Unidos e a autoridade moral de Tio Sam mais suja que pau de galinheiro, as grandes multinacionais americanas estão preocupadas de, eventualmente, terem seus direitos desrespeitados no 3º Mundo. Como se defender na OMC esvaziada ou invocar princípios que Trump desprezou? A preocupação se estende às principais nações aliadas dos Estados Unidos que se agrupavam na OTAN. Joe Biden terá muito trabalho pela frente.