Em Milão, originalidade e coerência

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Prada, vida real

Alguns dias tratando uma pneumonia, e atrasou a cobertura dos desfiles no hemisfério norte. Só que, mesmo Paris já tendo começado, os desfiles de Milão mostraram tanta originalidade e coerência, que vale um resumão do que foi mais importante.


Prada

Miuccia Prada não nega fogo. Ela pensa, cria com histórias, é obrigatória de ver, para ver o que apronta em cada temporada.

Desta vez, junto com o minimalista Raf Simmons, ela se superou: apresentou apenas 15 roupas, que foram mostradas de quatro jeitos cada uma. Uma modelo entrava com um look, dali a pouco, vinha com as peças de outro jeito; depois, entrava com outro look das mesmas peças, e por fim surgiu com o quarto look. Além desta aula de vestir, Prada foi a marca que sacou o sucesso do comércio de segunda mão, e mostrou jaquetas meio descascadas, punhos gastos ou manchados e bainhas meio desfeitas. Por fim, o toque final: as referências em coleções passadas. Prada é mais que moda, é vida real.


Armani

A sobrinha Silvana Armani estreou na marca de elegância do tio, Giorgio Armani. E estreou bem, com uma bela alfaiataria, algumas largas e apertadas com cintos, Segundo as entrevistas, Silvana criou de uma maneira diferente do tio. "Porque sou mulher, criando para mulheres. Trabalho com a experiência, não com fantasias". Além da alfaiataria, há formas de quimonos e fardas militares. Muito bonitos e significativos os broches de cabeça de leão e caranguejo - porque Giorgio era do signo de Câncer e Silvana, de Leão.


Bottega Veneta

A inglesa Louise Trotter andou analisando o estilo de Milão, está lá há um ano. Atualmente considera a cidade Brutalista, de uma discreta sensualidade. A alfaiataria tem texturas como o veludo escovado como astracã e entalhes de fibra de vidro cor de chiclete. A parte masculina é mais casual, com suéteres trabalhados e polos.

Ferragamo

Maximilian Davis seguiu um estilo com referências marítimas. Desde o tom de azul nos cashmeres, casacos, até o corte de blusas e calças. Fez sucesso.



Dolce & Gabbana

Que beleza, Domenico Dolce e Stefano Gabbana fazem 40 anos de marca! Sem troca-troca de diretor de criação, mantendo o DNA do estilo, influenciando gerações de adeptas. Claro que tinha que ter uma celebridade no evento, e tinha que ser Madonna, para quem já produziram figurinos de turnê. Na coleção, de novo, os pijamas para dia e noite, os casacos de corte acinturado, um look extravagante, com as costas iguais à frente. O clima vintage chegou ao ponto de as modelos desfilarem dando pivôs!



Moschino

Sempre irreverente, esta marca tem o argentino Adrian Appiolaza na direção de criação. Vestidos estampados, camisetas com mensagens, alfaiataria. Maioria em preto. Mas o mais divertido foi o cara todo sério, com pinta de executivo, carregando, em vez de uma pasta sóbria… um porquinho, tipo cofre! Pensando bem, estava certo, os executivos pensam muito em dinheiro. Acho que tenho amigos sérios que curtiriam andar com seus porquinhos do Moschino.



Gucci

Impossível não aplaudir esta grife, tão cheia de altos e baixos, tretas familiares, criadores de pouca duração. É a vez do Demna Gvasalia, saído de Balenciaga, que atualmente prefere ser apenas Demna. O desfile foi um espetáculo, com celebridades do futebol e da música, Kate Moss no final. O melhor foi a referência nos anos 1990, quando Tom Ford assumiu a Gucci, transformando de consumo de madames milionárias em sonho de consumo de jovens loucas pela nova sensualidade das coleções. Falou Tom Ford, já me conquista. Ver as calças colantes, de cós muito baixo, no limite do decente, as camisetas tão justas que pareciam explodir os biceps masculinos - lembranças que sacudiram o mundo da moda no fim do século 20. Tenho que reconhecer que Demna é um bom substituto para meu querido Alessandro Michele.