Encantos da Alta Costura

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Mais uma vez, a surpresa: mesmo em tempos em que parece faltar espaço para modas e luxos, os desfiles da Alta Costura de Paris conseguem emocionar. Poucas coleções exageram em brilhos e babados, a maioria segue um caminho em que o luxo está nos tecidos finos, no uso exagerado de formas e a tão falada sustentabilidade.
Há movimentação nos bastidores: Giorgio Armani busca herdeira para seu trabalho, Jean-Paul Gaultier voltou a mostrar coleção, criada pela equipe, só com a sua supervisão.

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Volta triunfal

Macaque in the trees
As bailarinas do Moulin Rouge participaram da festa da Galeries Lafayette (Foto: Divulgação)


A grande emoção desta agenda parisiense que ocupou as telas e eventuais lugares nas plateias - Anne Hidalgo, prefeita de Paris, deu seu aval ao evento e à nova campanha das Galeries Lafayette - foi a grife Balenciaga. A volta dela à Alta Costura tem um significado importante para a moda. Cristóbal Balenciaga foi um mestre da costura arquitetônica, a modelagem perfeita, um prenúncio do Minimalismo. Durante o período de maior sucesso, dos anos 1950 até 1970 reinou no seu ateliê, nunca cedeu à tentação de produzir o prêt-à-porter, permaneceu fiel à Alta Costura. Quem teve o privilégio de incluir um de seus modelos no acervo do guarda-roupa (naquela época ainda não havia a moda do closet), costuma doar ou emprestar suas peças para o Museu do Traje de Madri ou para exposições temporárias, que rodam o mundo.

Macaque in the trees
Um dos smokings da coleção Balenciaga do inverno 2021/2022 (Foto: Divulgação/Balenciaga)

Macaque in the trees
A linha inclui jeans reto e blusões. Costume clássico da Alta Costura, os looks numerados (Foto: Divulgação/Balenciaga)

Macaque in the trees
Destaque da coleção, o decote arquitetônico, quase um origami (Foto: Divulgação/Balenciaga)

Macaque in the trees
Muito volume, mangas muito longas, no grande trench coat azul (Foto: Divulgação/Balenciaga)


Pois o nativo da Georgia, Demna Gvasalia, atual diretor de criação da Balenciaga, trouxe de volta a emoção original. A começar pelo desfile, em um salão na Avenida Georges V, sem música. Para que fosse possível perceber o ruido dos tecidos, que iam do cetim de seda ao jeans. Na plateia, o rapper/designer/influenciador Kanye West, que atualmente assina coleção da Gap. E na moda desfilada, uma dúzia de ternos e smokings masculinos e femininos. Decotes com lapelas grandes, deixando ombros de fora. No final, um show de casacos volumosos, em rosa, amarelo, azul, cores básicas, em cortes lembrando trench coats e parkas gigantes.
Quem vai comprar, mandar fazer sob medida ou usar tais roupas? Poucas terão este privilégio, como sempre acontece com a Alta Costura. Mas são obras, mais do que roupas, a serem disputadas por museus e exploradas como inspirações por quem trabalha nesta Arte que é a moda.

Macaque in the trees
As flores dos jardins de Monet no vestido com saia de tule da Chanel (Foto: Divulgação/Chanel)

Macaque in the trees
Digno de uma obra impressionista, o casaco sobre saias de plumas e franjas de Chanel (Foto: Divulgação Chanel)

Arte explicita
Seurat, Van Gogh, Monet, Impressionismo e Pontilhismo estiveram presentes nos bordados delicados da marca Chanel, assinada por Virginie Viard. Segundo comentários nos sites especializados e em entrevistas da editora Suzy Menkes, a apresentação lembrou os estilos exagerados e festivos dos anos 1930, como uma forma de superar as crises da época (quebra da bolsa de Nova York, iminência da Segunda Guerra). Esta Alta costura Chanel seria uma prova de otimismo em relação à grande crise atual, a pandemia do Covid 19. Como se no final do ano, quando seria o tempo de estrear estas roupas, as vacinas derrotassem a doença. Interessante a maneira de montar os looks, com um jeito misturado, capaz de atrair olhares mais jovens para a marca famosa.

Macaque in the trees
Ousado e ao mesmo tempo clássico, o minivestido com cauda, feito com tecido reutilizado por Ronald van der Kemp (Foto: Divulgação/van der Kemp)

Mais otimismo
Flores bordadas em 3D, longos rodopiando, o luxo em Elie Saab também tem a ver com esperança de dias melhores. Como sempre, o designer libanês aposta na feminilidade, em algumas ousadias de fendas longas, e deve agradar à clientela fiel de noivas (quem disse que elas só casam uma vez?) com o vestido de cintura fina e saia ampla, daquelas que vão exigir que se afastem os bancos das igrejas para a passagem da noiva.

Mais adaptado aos novos conceitos, o holandês Ronald van der Kemp, adepto de processos sustentáveis desde os anos 2010, mostrou como os jeans reutilizados podem ser materiais de Alta Costura. Em entrevistas, se declarou preocupado com a volta ao normal "noto a volta ao excesso de produção, de compras de roupas e acessórios. Acho normal que as pessoas queiram consumir depois de tantas restrições, mas é preciso pensar, ter consciência na hora de comprar". Um exemplo, o van der Kemp.

Enfim, prevista para acabar no dia 08, quinta-feira, o desfile de Pyer Moss foi adiado para dia 10, sábado, porque o clima não ajudou. Choveu em Nova York, onde seria o desfile online das criações do designer Kerby Jean-Raymond, a apresentação era externa, foi adiada. Quem disse que a Alta Costura não surpreende?



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As bailarinas do Moulin Rouge participaram da festa da Galeries Lafayette
Um dos smokings da coleção Balenciaga do inverno 2021/2022
A linha inclui jeans reto e blusões. Costume clássico da Alta Costura, os looks numerados
Destaque da coleção, o decote arquitetônico, quase um origami
Muito volume, mangas muito longas, no grande trench coat azul
As flores dos jardins de Monet no vestido com saia de tule da Chanel
Digno de uma obra impressionista, o casaco sobre saias de plumas e franjas de Chanel
Ousado e ao mesmo tempo clássico, o minivestido com cauda, feito com tecido reutilizado por Ronald van der Kemp