Jornal do Brasil

Hildegard Angel

Uma ativista branca contra a discriminação dos negros

Jornal do Brasil

Elisa Larkin Nascimento, que se saiba, é a única branca, loura, norte-americana, que há décadas milita ativamente no Brasil pela causa negra, contra a discriminação e por ações inclusivas. Ela fundou e é diretora-presidente do Ipeafro - Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, o mais ativo e com maior capacidade de mobilização com este fim. Elisa é viúva do pioneiro desta luta no país, o ex-senador Abdias do Nascimento, mas seu ativismo é anterior ao casamento em 1975. Em sua juventude, acompanhou de perto a emancipação do negro nos Estados Unidos e a campanha por direitos civis e igualdade, encabeçada por Malcolm X e Martin Luther King, Jr.

Posteriormente, quando se graduava na Universidade de Princeton, testemunhou a explosão do movimento Black Power, enfatizando o orgulho racial da população negra. Foi também na universidade que ela participou de um protesto para boicotar o Estado de Apartheid, na África do Sul. Os Direitos Humanos sempre estiveram presentes em sua vida. É com orgulho que ela lembra do primeiro grande desafio de sua militância: uma rebelião em Ática, um presídio do Estado de Nova York.

Macaque in the trees
Elisa Larkin do Nascimento, ativista desde sempre pelo empoderamento e a inclusão dos negros na sociedade (Foto: José Peres)

Na ocasião, presos, na maioria negros, iniciaram um motim por melhores condições. A repressão do então governador de NY, Nelson Rockefeller, levou à morte de 42 indivíduos, entre presos e reféns. Elisa atuou nem defesa dos presidiários no julgamento deste caso, já que foram culpados desse massacre pelo Estado. Em 1975. A mudança definitiva para o Brasil levou Elisa a se especializar em nossas profundas questões raciais.

Elisa Larkin Nascimento recebeu nosso repórter, JOÃO FRANCISCO WERNECK, no pátio do Arquivo Nacional, no centro do Rio de Janeiro, onde o Ipeafro promoveu, além de exposições sobre a vida e a obra de Abdias do Nascimento, o recente Seminário “Reparação da escravidão e os ancestrais de Santa Rita”, em que foi debatida a preservação da memória e a influência do negro na sociedade brasileira. Trazer aqui ao foco essa personagem única, forte e determinada é também contribuir para essa sua honrosa missão.

Qual a importância de promover o Seminário Santa Rita neste momento?

Neste momento político do país, é muito importante trazermos esse assunto à baila, porque há uma polarização do debate que faz com que haja um silenciamento, um processo de mascarar aquele que é o conteúdo mais essencial dos temas abordados nas campanhas. Ao invés de se pensar os assuntos, alimentando certas posições, só se focaliza nessas posições: esquerda ou direita, fascismo… Isso faz com que as pessoas ouçam pouco as verdades e as temáticas necessárias. Nós temos um discurso onde se despreza as necessidades e anseios de toda uma população, os negros, com frases de efeito. A história da nossa cidade está sendo mexida com essas obras de urbanização, e é importante trazer à tona como essa história carrega as diferentes experiências de uma população que compõe esta cidade. E também como essa história espelha a situação desta população.

Em contrapartida, o Cais do Valongo é, hoje, um patrimônio tombado...

No caso da região do porto, da pequena África, onde nós temos o Cais do Valongo, que é um Patrimônio da Humanidade, nós temos a história de uma população escravizada que construiu uma cidade. E não foram apenas as mãos e os pés, mas também a cabeça de toda essa gente. E isso segue sendo desprezado, em grande medida, no momento que uma iniciativa de reurbanização traz investimentos daqueles que já dispõe do poder político e econômico. E essa população que continua ali, esse tempo todo, criando e protagonizando cultura e conhecimento, continua esquecida. O Brasil traz ao cenário mundial uma novidade: quando a candidatura foi levada à Unesco, muitos reconheceram que foi algo inédito, a proposição de uma candidatura que valorizasse e trouxesse à tona essa história dos africanos escravizados no novo mundo, e que construíram esses países. Neste tipo de honraria, de reconhecimento, é comum essas premiações irem para pessoas e lugares que representam o poder constituído, e não os oprimidos e humilhados. E apesar disso ser inédito, há, ao mesmo tempo, a necessidade de reconhecer a importância do legado desses ancestrais, que não estão apenas no Cais do Valongo. No caso de Santa Rita, a linha três do VLT passa por cima de um cemitério de escravos.

E o que pode ser feito para preservar o legado africano apesar da construção da nova linha do VLT?

Nós estamos com várias propostas, mas ainda não há nada definitivo. A Comissão Pequena África tem diálogo com o Iphan, e outros órgãos públicos. Estamos com várias reuniões marcadas e temos várias propostas. Mas o âmago dessa questão é o próprio VLT, como via de locomoção, trazer consigo essa mensagem, e mais: agregar valor e fazer público esse reconhecimento. Pensamos, por exemplo, em colocar pisos diferentes. Sinalização, sem dúvida, é outro ponto. Outra questão é a nomeação das estações. Queremos mudar os nomes, e trazer à tona o valor de nomes diferentes daqueles que tem sido sempre os nomes referências. Ali na Central do Brasil, por exemplo, teríamos uma estação chamada Duque de Caxias. E nós queremos a mudança do nome desta estação, porque esta figura era um exterminador de populações negras e indígenas. Queremos dar o nome desta estação de João Cândido, líder da revolta da Chibata. É uma maneira de mostrar que o país se compõe não apenas daqueles que se julgam detentores únicos do poder, mas de toda uma população cuja história precisa ser conhecida.

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Retrato da família: Elisa com Abdias do Nascimento, o marido falecido, e seu filho, Osiris, que hoje vive nos Estados Unidos (Foto: Arquivo Pessoal)

Na sua opinião, qual é, hoje, a principal luta dos movimentos negros?

A reparação. Sem dúvida nenhuma. Por isto o título deste Seminário é “Reparação da escravidão e os ancestrais de Santa Rita”. No Brasil, hoje, há muita confusão com relação a esta questão da reparação. Há discursos que dizem: “ah, eu nunca escravizei uma pessoa, não preciso reparar ninguém”. Só que o que nós pudemos constatar, de acordo com os dados levantados por historiadores e sociólogos, é que essas desigualdades construídas continuam sendo sustentadas por mecanismos e instituições, que perpetuam essas desigualdades até hoje. Então, a ideia da reparação é você mudar esse quadro. É importante conseguir através de políticas públicas medidas de reparação imediatas, como as cotas, por exemplo.

Você é uma defensora das cotas, então…

Nós temos um retrocesso com a questão das fraudes nas cotas, que está acontecendo por aí. Teve gente que falava que ia dar errado. As pessoas questionavam: “como a gente vai saber o que define o negro no Brasil?”. A nossa resposta é a seguinte: a autodeclaração. Nós acreditamos no ser humano, e sabemos que qualquer coisa pode gerar fraudes. Nem por isso nós acreditamos que esse processo deva deixar de existir. Não é porque há uma fraude que iremos invalidar uma iniciativa de políticas públicas que é boa. É preciso investir nesses jovens negros que ingressam nas universidades, porque eles precisam completar os cursos, e muitas vezes essas pessoas não tem sequer dinheiro para transporte.

O racismo no Brasil é diferente do norte-americano?

Há diferenças, mas, na essência, não me parece que seja. A essência é a rejeição, o ódio contra a pessoa de origem africana. Historicamente, o colonialismo destruiu grandes impérios e sistemas políticos, de estado de direito, vigentes na África. Essa história que foi suprimida na construção de um objeto, que se chamou de africano. Nos EUA, assim, como aqui, no Brasil, há a violência de um Estado repressor contra a população negra. O encarceramento da população negra, nos dois países, mostra isso. Então, do ponto de vista da essência, são duas formas de preconceito muito parecidas.

Como foi para você, uma mulher branca, figurar em espaços do movimento negro?

O que eu diria é o seguinte: antes de conhecer o Abdias, meu marido, eu já me estava engajada em lutas contra o colonialismo, contra o Apartheid, por exemplo. Então eu vinha com essas preocupações e constatando desde aquela época a falta de sensibilidade de grande parte da esquerda intelectual branca para com os povos colonizados. Isso já era um assunto que eu vinha lidando. Não considero, em nenhum momento, que eu tenha sofrido algum tipo de “racismo inverso” por figurar neste espaço. Eu me engajo nesta luta porque entendo que a luta dos Direitos Humanos no mundo não consegue ir para frente se nós não dermos a devida atenção à opressão contra os negros.

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ESTÁ TOTALMENTE concluída a biografia de Antonio Abujamra, um dos maiores nomes do teatro brasileiro em todos os campos, no século XX. Ele mesmo escolheu sua biógrafa, Ida Vizenzia, depois de ler seu livro sobre Cecília Meirelles. A partir de outubro haverá uma série de homenagens ao mestre. Mas Ida ainda não conseguiu um editor para a obra.



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