Jornal do Brasil

Hildegard Angel

"O direito à educação pública deve ser prioridade número um para qualquer país"

Jornal do Brasil

No prédio magnífico no Rio Comprido, em estilo neoclássico, restaurado, residência da favorita de um prefeito do Rio no fim do século XIX, temos hoje o palácio do saber e da cultura nacional. É lá que fervilham as ideias e os projetos do professor Carlos Alberto Serpa, ilustre e grande patrono da educação brasileira, fundador e presidente da Fundação Cesgranrio e dos maiores partidários da cultura como agente de transformação social.

Em sua sala decorada com antiguidades e objetos sacros, ao gosto do importante colecionador, Serpa discorreu com nosso repórter, JOÃO FRANCISCO WERNECK, sobre cultura, educação, Museu Nacional, políticas públicas e, claro, sobre a Cesgranrio, joia de sua coroa de realizações, instituição que atendeu e atende à promoção de milhões de brasileiros através da educação, ao longo de seus 47 anos. São projetos, histórias, curiosidades, emoções e tristezas. São vidas que se transformaram, floresceram, prosperaram.

Macaque in the trees
No Rio comprido, um palácio do saber e da cultura (Foto: José Peres)

A trajetória do professor Serpa foi dedicada à construção e ao desenvolvimento de outras pessoas, sobretudo as menos favorecidas. Projeto ambicioso colocado em prática desde o advento da Cesgranrio, em 1971, criada com o objetivo de unificar o vestibular no Brasil. Após todos esses anos, a entidade se tornou muito mais do que uma organizadora de provas e concursos. Tornou-se uma provedora do saber e da arte em seus múltiplos campos. Ela mantém um elenco de artistas e de músicos, que ela própria forma, em sua Faculdade Cesgranrio; dois teatros em funcionamento, e um terceiro em execução; promove a premiação teatral mais generosa do país, e por isso mesmo a mais concorrida; desenvolve projetos de estímulo às artes plásticas e à produção literária; realiza seriados para a televisão. Suas realizações e possibilidades na área cultural são infinitas.

O que o motivou a criar, em 1971, a Cesgranrio?

Na época o vestibular era uma coisa despropositada entre a realidade do que os alunos aprendiam e do que as provas requisitavam. Era difícil aos jovens ingressar nas universidades, e os que passavam, geralmente, tinham feito cursinho pré-vestibular. Os estudantes precisavam fazer várias provas, entre outubro e dezembro, algo muito desgastante e caro, já que era necessário pagar uma taxa de inscrição para cada universidade. Além disso, as provas eram eliminatórias, e como consequência surgiu o “excedente de vagas”, que eram os jovens que passavam na eliminatória, mas não eram chamados, porque não havia vagas. Situação muito cruel. E as faculdades faziam receita com os alunos que não passavam. Essa situação me incomodava. Então, nós pensamos em aplicar nacionalmente o que era feito nos cursos de engenharia, que era o CICE, o primeiro unificado do Brasil. Fui nomeado presidente de uma comissão, e nós fizemos o primeiro vestibular nacional unificado.

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O professor Serpa em seu gabinete, onde fervilham ideias e realizações (Foto: José Peres)

Como foi feito?

Eu reuni todos os especialistas em vestibular no Brasil, e criamos uma política que virou um decreto. Primeiro, o vestibular passou a ser classificatório. Acabamos com a nota mínima. Em segundo lugar, ele se tornou unificado, e uma prova valeria para todo o Brasil. Terceiro, fixamos uma taxa baixa de inscrição. Por fim, eu consegui que as universidades abrissem mão de fazer os programas de pré-vestibular e o ensino médio passou a fazer isso. Então, a ideia sempre foi tornar o vestibular acessível. Porque o estudo sempre foi um motivo de discriminação social.

Há relação entre o acesso à cultura e o rendimento estudantil?

Sim. E isso não é achismo, é fruto de pesquisa, conhecimento. Já passaram por aqui cerca de 120 milhões de pessoas. Desde 1972, quando nós fizemos o nosso primeiro vestibular unificado, nós passamos a analisar como esses meninos foram avaliados. Havia uma dúvida: Será que nós estamos selecionando corretamente? Então, nós fomos acompanhar a vida desses meninos e meninas nas universidades. E descobrimos que a ambiência cultural era muito importante. Havia jovens, filhos de professores, pessoas pobres, cujo rendimento estudantil era muito alto. Isso acontecia por causa do que se passou a chamar de variáveis socioemocionais. O que desenvolve essas variáveis é a cultura, em suas mais diversas formas.

E qual passou a ser o foco da Fundação Cesgranrio?

O desenvolvimento da cultura entre os jovens, sobretudo entre os mais desfavorecidos. Estamos colhendo resultados altamente satisfatórios nesse sentido. Há, por exemplo, o projeto “Música clássica nas escolas”, em que doamos uma coleção completa, com quatro livros, que reúnem os maiores compositores no mundo inteiro. Ao fim do livro, há um CD da nossa Orquestra Sinfônica Cesgranrio executando as composições daqueles artistas. O projeto foi lançado neste ano, e já podemos comemorar por ter levado cerca de dois mil alunos pela primeira vez ao Theatro Municipal. Outro projeto importante foi a criação da peça “Quem sou eu”, para combater o bullying nas escolas. Ao fim do espetáculo, os professores falam sobre o tema. São surpreendentes nossos resultados de mudança comportamental nas escolas, com esse projeto.

Como é promover cultura no Brasil?

É difícil, porque não há uma política pública de valorização da cultura. A história do país depende do que é feito aqui e agora com os nossos adolescentes. A cultura é formativa. Ela desenvolve as pessoas. Eu gosto de dizer que a educação é o solo sobre o qual nós colocamos o fertilizante para desenvolver aquela planta. O fertilizante é a cultura. Hoje, o processo educativo não é mais a transmissão via quadro negro. Isso acabou. O fenômeno mais fundamental do século XXI foi que ninguém faz nada de importante sozinho. A parceria, o trabalho em grupo, a coletividade, são fundamentais. A informação está por aí, e tudo isso é absorvido por essa rapaziada. O professor precisa fazer com que essa percepção aflore no jovem, ao invés de censura-lo.

Como você avalia o Ensino Superior Público no Brasil?

Ele é de extrema qualidade. Mas o investimento nessas instituições é muito precário, e sequer serve para manter as condições necessárias. Mais de 90% dos recursos passados são para salários. O que vem para manutenção é muito pouco. O orçamento dado pela União vem muito carimbado, engessado, isso impede que, sobrando algum aqui, eu possa botar ali. É muita burocracia. É preciso confiar mais em nossos gestores universitários. A qualidade de ensino é boa por causa da quantidade, e da qualidade, das pesquisas universitárias feitas. O que falta é acreditar na capacidade de gestão das universidades públicas. O cobertor está curto, não chega para atender nem as mínimas exigências de uma faculdade. Há quem advogue que o ensino superior público pode ser pago. Eu discordo. O direito à educação deve ser prioridade número um para qualquer país.

Como o senhor vê o incêndio do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista?

O Brasil precisa mudar a sua cultura, o museu não poderia ter sido tratado daquela forma. É uma questão de mudança de filosofia de gestão pública. Eu espero que os novos governantes, que estão para ser eleitos, criem dispositivos para o funcionamento dessas áreas fundamentais. Eu tenho uma tese própria, diferente dos demais. Para começar, nós poderíamos, com aquele acervo imenso, ter tido dois museus. Um, como se fosse o Versailles, e o outro como se fosse o Louvre. Não havia harmonia cultural no Museu Nacional, e o acervo era muito grande. Agora, o brasileiro precisa aprender a respeitar a sua história. E não adianta mudar o chapéu, tirar da UFRJ e dar a outra instituição.

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AUGE DA ‘Pós verdade’: hackearam o grupo do Facebook “Mulheres contra Bolsonaro”, com mais de 2,3 milhões de inscritas, e retiraram todas as moderadoras/administradoras originais, alterando o nome para “Mulheres com Bolsonaro #17” e adicionando mulheres pró Jair. E no seu Twitter o candidato ainda exibe a página usurpada, como se fosse dele, e agradece às milhões de mulheres!



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