Enterro de tesouros

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Por estar lendo esse artigo, estatisticamente você se enquadra em um grupo social que já conhece de cór os receios ambientais que têm surgido nas últimas décadas, e já ouviu milhares de especialistas discutindo possíveis caminhos e soluções para essas vicissitudes. Nesse mérito, sempre salta à minha atenção um problema em específico, que por sua natureza gradual e crescente paira como um dos mais imponentes desafios à perpetuação da humanidade: o acúmulo de resíduo, isto é, para manter nosso atual patamar de vida, dependemos de um ritmo industrial que produz resíduos, alguns facilmente recicláveis, outros não, e todos influenciando de alguma maneira no espaço físico que temos.

Contudo, e se eu dissesse que a humanidade, especialmente nas últimas duas décadas, e crescendo a cada ano, têm produzido um novo tipo de resíduo que não tem sido considerado e tampouco quantificado? E que a gestão desse resíduo definirá, de maneira crassa, como as pessoas e empresas se comportarão ao longo dos próximos séculos, e, inclusive, de toda a existência atualmente previsível de nossa civilização.

O que foi dito pode parecer grandioso ou distante, mas na verdade, esse autor está produzindo um pouco desse resíduo nesse exato momento, ao escrever um artigo para ser enviado a um servidor e posteriormente exposto no site do Jornal do Brasil. E esse resíduo se chama informação.

Antes de entrar nos meandros dessa contemplação, é preciso salientar o porquê de informação, algo que é fundamentalmente etéreo e gratuitamente replicável, estar sendo chamado de resíduo, algo que se produz por acidente e ocupa espaço físico. Simples! Na verdade, não é a informação que ocupa espaço, mas o receptáculo em que está guardada. Seja nas pedras inscritas com leis pelos sumérios, ou nos milhares de livros na Biblioteca de Alexandria, o único modo de preservar a informação sempre tem sido vinculá-la a um objeto físico. Já com a revolução dos computadores e a memória com base em binário, foi possível compilar uma biblioteca inteira de informação em um único hard-drive.

Essa conveniência e “excesso de espaço” permitiu que a o homem tivesse ampla liberdade para produzir toda a informação que quisesse, seja por diálogos, vídeos ou imagens, e nunca se preocupasse com “o espaço acabar”. Quero dizer, todos estão cientes (pelo menos na teoria) que a memória para arquivos digitais tem um preço de mercado, mas a existência desse “limite” dificilmente impede uma pessoa de produzir e acumular informações livremente. E é exatamente essa criação acidental de um resíduo que ocupa espaço físico (e consequentemente custa dinheiro), que cria um problema cada vez maior.

Até então, qualifiquei a “informação” como um resíduo qualquer, do mesmo tipo que o lixo produzido pela embalagem de delivery de um restaurante ou a caixa de uma encomenda entregue pelo correio. No entanto, existe uma diferença crucial entre o resíduo como conhecemos e a informação gerada: lixo é algo que ninguém gosta de acumular, e que idealmente seria reciclado imediatamente após sua geração. Já a informação é algo que em algum momento foi criada intencionalmente, e que possui valor sentimental, se não histórico ou mesmo prático para alguns. Como diz o ditado, “o lixo de uns é o tesouro de outros”.

Agora, compare o número de fotos existentes dos seus bisavôs com o número de fotos que tirou na semana passada, e começará a ter uma dimensão do problema. A questão é que você e as pessoas ao seu redor provavelmente carregam um smartphone há menos de uma década, e só adquiriram essa cultura de “registrar cada momento” recentemente, enquanto a humanidade tem uma história que permeia e durará muitos mais séculos, agora fazendo igual ou maior uso dessas ferramentas para armazenar cada segundo de suas vidas.

O quanto você valoriza seus diálogos com a pessoa amada? Estaria satisfeito em ter suas milhares de horas trocando mensagens destruídas? Não é absurdo imaginar que um pai queira que um filho carregue parte de sua história, mesmo como uma maneira de ser lembrado, assim como não é absurdo imaginar esse mesmo filho mantendo a tradição, e também passando a história do avô ao neto. A utilidade e aproveito desse legado são profundamente relativas, mas assim como muitos elementos de nossa cultura, são os vínculos emocionais que produzem e sustentam esse tipo de tradição.

É muito fácil para o homem do século XXI pagar pela memória e armazenar suas próprias fotos e dados, às vezes até em nuvem, com a comodidade de poder acessá-los de qualquer lugar onde haja internet. No entanto, esse paradigma é totalmente diferente na medida em que caminhamos séculos à frente e temos uma verdadeira tonelada de informação acumulada, onde a manutenção de cada bit depende um recipiente físico caro e que sofre degradação, enquanto pelo lado das instituições, a disponibilização em massa de informações ao público depende de servidores cada vez mais maiores e mais caros.

Pela primeira vez na história, a humanidade tem o potencial de registrar tudo o que acontece em sua existência, de tendências culturais passageiras a diálogos rápidos entre anônimos. Isso é em contraposição a uma história onde alguns textos incompletos e então alguns milhares de livros representam toda a produção cultural armazenada de milênio após milênio. Para historiadores e antropólogos do futuro, a maneira como registramos tudo é um sonho realizado, assim como companhias ou inteligências que queiram estudar um volume incomensurável de atividade humana para concluir

Desse modo e diante desse desafio, é preciso de uma mudança na maneira como dados são encarados, e no longo termo, restam dois caminhos culturais à humanidade: o descarte sumário de informação, onde uma vez que algo é tido como meramente histórico ou “do passado”, esse algo é delatado, ou a preservação consciente, onde inteligências especializadas buscam entender o que é um registro histórico útil e o que é “barulho”, tentando minimizar a perda por sacrifício. Considerando o número de informações duplicadas e dados gerados somente para fins operacionais, é possível limitar os dados guardados aos “importantes”, por mais arbitrária que essa definição seja, e ter um ganho em pelo menos uma ordem de grandeza, ainda mais somando isso a métodos de compilação.

Na análise dessa questão, é também impreterível considerar os mecanismos do mercado na dinâmica onde a “preservação da informação e história” custam dinheiro: é possível imaginar serviços plenamente dedicados à preservação de dados, e verdadeiros “mausoléus”, onde não pessoas, mas memórias digitais são enterradas. E da mesma maneira, o acesso a certas informações, que hoje estão a uma pesquisa do Google de distância, pode se tornar um processo muito mais caro na medida em que um banco com certas informações não tem necessidade de estar a todo o momento disponível em um servidor. Assim, como é visto nos Holocrons de Star Wars, haveriam “bibliotecas físicas para informações digitais”, com o fim de minimizar o custo de servidores.

E até agora, toquei nos aspectos relacionados à dificuldade de armazenar uma quantidade crescente de informação, mas isso é só um lado da moeda: todo o dado armazenado, para ser acessível e não só um verdadeiro fóssil enterrado, precisa estar organizado. E daí vem outro grande desafio futuro, especialmente para governos e corporações: a gestão da informação.

À primeira vista, poderíamos acabar pensando nisso como um grande projeto, onde uma quantidade imensurável de arquivos é catalogada e dividida em tópicos cada vez mais específicos de maneira a otimizar seu acesso. No entanto, a organização de um conjunto de dados imenso e já existente é extremamente difícil, ainda mais se isso for feito por indivíduos que não tiveram nenhuma relação com a maneira como esses dados foram originalmente gerados.

Nesse sentido, a melhor maneira de organizar dados não pode ser aquela que aguarda silenciosamente o acúmulo para um dia, quando surgir a demanda, organizar as informações, mas sim aquela que já está proativamente gerando dados de maneira organizada, isto é, tendo como princípio garantir que toda a informação que esteja sendo gerada seja rapidamente catalogada e organizada para fácil acesso no futuro. Esse é um princípio que precisa ser quase que ético, e, idealmente, adotado desde já.

O fato é que já estamos gerando resíduo no dia de hoje, e se quisermos que as gerações futuras nos lembrem da maneira certa, precisamos selecionar com cuidado aquilo que merece ser preservado. Afinal de contas, estamos preenchendo uma Alexandria, e ou fazemos sacrifícios agora, ou o incêndio virá espontaneamente pelas mãos dos nossos sucessores.

E esse processo de seleção não pode e nem vai ocorrer unicamente pelo lado de indivíduos, muito pelo contrário. Grandes redes sociais como o Facebook, Instagram e Twitter, ou sites de upload de dados, como o próprio Google Drive, são plataformas que possuem verdadeiros acervos milenares de dados, sendo que a maneira como essas informações virão a ser organizadas e resguardadas definirá todo o seu potencial de longevidade. Assim, surge um verdadeiro mercado sepulcral, onde certas instituições trabalharão extensamente com o fim de organizar, vasculhar e vender partes de toda uma massa de dados, a princípio “inúteis”, a quem interessar.

A especulação sobre o futuro é sempre um campo enevoado e incerto, ao ponto de que certos detalhes são impossíveis de augurar. No entanto, afinal, existem certas certezas sobre o passado, aprendidas dele e sobre ele. E sendo assim, nesse paradigma futuro, a história não será escrita por vencedores ou perdedores, mas por quem se dispor a guardá-la. E quem sabe, entre toneladas de “lixo” enterradas e conservadas dias após dia por guardiões da história, não hajam alguns tesouros enterrados?

FRANCISCO VICTER, 20 anos, é estudante de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da UFRJ