O futuro da confiança

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Quando falamos em dinheiro, imediatamente pensamos nas principais moedas em circulação, como o Dólar, Yuan, Euro, Libra, etc. Analogamente, ao pensarmos em Redes Sociais, as grandes plataformas vêm em mente, como o Instagram, LinkedIn ou Twitter. Só foram duas frases, mas a esse ponto o leitor já pode estar pensando: que tipo de paralelo este autor está enxergando entre o Real e o Facebook? Todo!
Em primeiro lugar, os dois precisam de um “controlador”, isto é, uma organização central que emite a moeda ou mantém o site da plataforma de pé. Mesmo assim, uma moeda não seria uma moeda e uma rede social não seria uma rede social se não fosse por um elemento fundamental: o usuário.

É o fato de ter muitos usuários que assegura a circulação da moeda, assim como uma rede social precisa de um número mínimo de contas ativas para atrair marcas e pessoas importantes. Existem também redes de serviços como a Uber, que só se tornam viáveis em uma metrópole a partir do momento que um número significativo de usuários e motoristas em potencial já conhecem o app. Alguns meses atrás, escrevi um artigo sobre o crescimento exponencial de plataformas como a Twitch e o YouTube. Todas essas, para conseguir patrocinadores e aumentar seu engajamento, precisaram de anos até formar uma base sólida de usuário.

No entanto, há uma diferença crucial entre o Dólar e o Facebook. Desde a chegada da Internet ao grande público, que aconteceu majoritariamente na última década, o principal critério que definiu o sucesso ou fracasso de plataformas foi simplesmente a qualidade do produto que entregavam. O Instagram vem derrubando o Facebook graças à sua interface melhorada e a funções adicionais, que caíram no gosto do público.

Já as moedas, ao longo das suas centenas de anos de existência, são talvez o melhor exemplo de um fenômeno diferente, dado a sua importância para o funcionamento do capitalismo. Portabilidade, aparência ou qualidade de uso em geral são detalhes posteriores, pois moedas são fundamentalmente escolhidas por um único critério: a confiança.

Existe um motivo pelo qual o cálculo de qualquer investimento estrangeiro feito no Brasil precisa ser ponderado pelo “Risco País”, diretamente relacionado ao histórico do nosso Banco Central quanto ao pagamento das dívidas, que influencia no preço do Real. Em contrapartida, investidores têm pouquíssimo receio de manter investimentos em dólar, dado o excelente histórico da Reserva Federal nos EUA. E o que isso significa na prática? Que duas moedas de aparência igual e formato similar podem ter sua importância e sucesso definidas exclusivamente pela confiança que a sociedade tem em seus “controladores”.

No entanto, não foi sempre assim. Ainda na era do Império Romano, que se estendia do atlântico ao oriente, foi decidido que era preciso de uma moeda comum para viabilizar o comércio entre toda essa vasta região. Assim, se tornou comum que o governo cunhasse moedas de prata, com os símbolos de Roma, e as trocasse com a população pelo metal puro. Diante dessa inovação, logo a moeda central se tornou comum por grande parte do império. No entanto, na medida que os anos se passavam e o Governo desejava mais capital, foi sorrateiramente decidido que a porcentagem de prata nas moedas seria reduzida, para que mais delas fossem cunhadas.

As primeiras reduções foram insignificantes, de 90% para 80%, mas na medida em que as necessidades de gasto do governo aumentavam, cada vez mais essa margem era reduzida. Dois séculos após o estabelecimento desse sistema, a porcentagem de prata em um denário romano era de 0.5%, e o império passava por uma hiperinflação com preços explodindo e dificuldade logística para pagar as tropas que enfrentavam as invasões bárbaras. Em mais poucos anos, todo o Império Romano Ocidental caiu, e o denário romano entrou em desuso.

Se soubesse que terminaria assim desde o início, nenhum cidadão romano jamais teria trocado sua prata pelo mesmo peso em denários. A trágica história do Império Romano é um exemplo de que mesmo vindo primeiro, ou durando décadas, um sistema não vale de nada se o usuário não puder confiar nele.
Tudo bem quanto a moedas, mas por que uma rede social precisa ser “confiável”?

Em primeiro lugar, por segurança de dados. Como foi debatido nos EUA ano passado, há sempre a possibilidade de um aplicativo coletar secretamente informações como imagem, localização, comportamento e senhas, e utilizá-los para fins bélicos ou de chantagem.

Imagine que você, daqui a 20 anos, se tornou o CEO de uma competidora direta de outra grande rede social, que hoje usa. Teoricamente, se áudios e imagens comprometedores seus “vazassem”, reduzindo sua credibilidade, seria impossível rastrear de onde vieram. Qualquer bom investidor sabe que se há potencial retorno e nenhum risco, cria-se um incentivo imenso para que práticas assim ocorram.

Em segundo lugar, há também a liberdade de expressão. Se ninguém sabe como o algoritmo de uma determinada rede social funciona, é possível que modificações sejam feitas “por baixo dos panos” para favorecer a replicação de certas ideias em detrimento de outras. Dessa maneira, o controlador da rede social é capaz de manipular a direção de todo o debate público de maneira totalmente indetectável. Esse conceito é chamado de “shadow-ban”, e já tem sido identificado em diversas plataformas.

Mesmo assim, até que ponto vai confiança? Afinal, é impossível e inviável que um banco trilionário seja 100% transparente em suas ações, assim como é para uma rede social exibir 100% do trabalho diário de seus milhares de funcionários.

Para mitigar a insegurança, existem conceitos como transparência e práticas de compliance, como todo o bom investidor já sabe analisar. No entanto, esse mesmo bom investidor sabe que, por mais que uma empresa mostre “tudo”, existe sempre a possiblidade de haver um “algo a mais”, que não aparece em nenhum dos relatórios.

Mas qual a solução, então, desse problema de falta de informação? Não há resposta: é impossível que certos controladores sejam 100% transparentes com seu sistema. No caso do Investidor, é preciso preencher esse vazio hipotético com a bendita “confiança”, como tem sido feito desde sempre. Mas precisa ser assim?

Ora, mas se este autor acabou de escrever que “é impossível que certos controladores sejam 100% transparentes com seu sistema”, como ele pode encerrar perguntando se “precisa ser assim?”. Simples: para ter um sistema 100% transparente, é só remover o controlador da equação, e deixar somente o usuário.

Ora, mas sem o controlador, quem seria o responsável por manter o sistema funcionando? Só pensar em quem tem mais interesse em manter o funcionamento: O próprio usuário.

Cerca de 80 anos atrás, essa proposta seria absurda, e quebraria a cabeça de qualquer um tentando pensar na solução. De lá para cá, surgiu uma diferença crucial: o código.

O código, no sentido da programação, é a ideia de que uma série de instruções podem ser escritas e replicadas por uma máquina. Em termos mais concretos, se um código foi feito para X, ele sempre fará X. Não há espaço para o erro humano ou confiança.

Entre programadores, cresce a cada ano o conceito de “Open Source”, a ideia de que um aplicativo é mais seguro se todos puderem ver e melhorar seu código, abdicando de modelos “Closed Source”, como atualmente são os “segredos de indústria” e “tecnologias proprietárias”.

O Open Source, no entanto, ainda tem suas limitações. Por mais transparente que seja um código, a partir do momento que ele se transforma em uma plataforma hospedada por uma empresa fisicamente, fica impossível provar que não houveram alterações.

E daí que, com base no código, surgiu uma ideia ainda subestimada, mas que está entre as maiores invenções do milênio: a blockchain.

Nos termos desse artigo, a blockchain é um código que não tem um “controlador” ou um servidor físico aonde fica, mas que existe entre os computadores de todos os usuários. Em outras palavras, é literalmente a solução do problema de antes: um sistema que é sustentado pelo próprio usuário.

O sistema dá incentivos para que indivíduos o alimentem com poder computacional, e assim garante seu funcionamento constante. E assim como qualquer outra plataforma, quanto mais usuários, mais fluido será seu funcionamento.

E o ponto crucial é que o código no centro de uma blockchain pode ser de qualquer coisa, seja uma moeda, uma rede social ou um sistema eleitoral. Independentemente de qualquer interferência externa, esse código continuará funcionando exatamente como foi escrito.

A percepção de que um sistema sem “ter alguém para confiar” é o mais confiável de todos trata-se do motivo pelo qual as criptomoedas com base na blockchain, como a Bitcoin, têm valorizado a cada ano. Já na categoria das redes sociais, já são vistos vários movimentos para estabelecer uma plataforma sem controlador. E ainda que o cenário atual seja uma internet majoritariamente dividida entre um pequeno conglomerado de empresas, o cenário irá mudar na medida em que as plataformas descentralizadas exibirem suas vantagens. E o mesmo vale para moedas, ou qualquer outra plataforma que dependa de um controlador central.

Por mais que sistemas tenham ficado de pé por séculos, como os denários de prata do império romano, ou dominem o mercado, como incontáveis instituições de hoje, é fundamental se atentar ao nível de poder potencial que o controlador tem sobre o usuário.

Tratando-se de sociedade, a verdade é que não há futuro para a confiança. De fato, se os indivíduos desejam ficar tranquilos e invulneráveis a arbitrariedades por parte de governos ou grandes corporações, é preciso que adotem cada vez mais plataformas descentralizadas como a blockchain. Assim, quando o usuário finalmente entender o risco por trás da palavra “confiança”, a sociedade dará um grande passo na direção da liberdade.

FRANCISCO VICTER, 19 anos, estudante de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da UFRJ
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