Jornal do Brasil

Entre realidade e ficção

Entre realidade e ficção

Álvaro Caldas

Bolsonaro e seu projeto de morte

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS*

As ações são diárias, intempestivas, provocadoras, divulgadas por tuítes, jamais explicadas ou discutidas. Isso eles não fazem, não sabem fazer. Ele tem desprezo pela língua, dificuldades para formular uma frase completa, pensar em abstrato. Preferem agir à sombra, no terreno anômino das fakes news, da irracionalidade e do medo. Atônitos, os brasileiros são informados a cada dia que cursos de filosofia e sociologia serão desativados, bibliotecas serão fechadas. Que escolas não podem ter partido nem discutir sexualidade, que é lícito aluno filmar e dedodurar professor na sala de aula. Que universidades serão vigiadas, suas verbas bloqueadas, que manifestações artísticas e até peças publicitárias do próprio governo são censuradas.

Ao mesmo tempo, confraternizam publicamente com milicianos e acobertam seus crimes, o mais escandaloso deles o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. São defensores de uma política de armamento da população, da liberação do porte de armas e já anunciam licença aos proprietários de terras para matar seus inimigos, seja lá quem for. Retiram direitos das populações indígenas e abrem as florestas para o desmatamento, limpando os órgãos de proteção ambiental dos marxistas culturais, fantasmas vistos em toda parte. Para os seus postos, foram levados oficiais da Policia Militar, sem nenhum conhecimento da área.

Tudo isso é parte de um programa de governo não explícito, mantido em segredo para a sociedade, que se encontra em plena execução. Um projeto de morte, cultivado pelo ódio e pela vingança. Possui tintas do fascismo, mas não se reduz a ele. Populistas também odeiam as artes e a cultura, temem a educação. Como disse o escritor angolano Agualusa, um fino observador da cena, populista é aquele tipo de sujeito que, para diminuir a pobreza defende o assassinato dos pobres – e é eleito por eles.

Bolsonaro lidera um grupo fragmentado que vive em guerra interna. A facção ideológica contra a facção militar, com a inserção vertical dos três filhos e seus amigos incendiários. Juntos no núcleo fechado do poder puseram em prática no Brasil um corrosivo e anárquico Projeto de Morte. Algo raríssimo na História, como, por mais dissemelhante e paradoxal que seja, o regime comunista de Pol Pot no Camboja, na década de 70 do século passado. Transformados em vítimas, os cidadãos tomam conhecimento das ações que os atingem por meio de choques que se sucedem, de forma a não lhes dar tempo para assimilar, refletir e esboçar uma reação.

Isso que o Lula em sua entrevista na prisão chamou de “um bando de maluco”, de lunáticos, resume a ideia de que há um projeto de governo inclassificável, incivilizado, não formulado, que é de extrema direita mas não é típico. Que está se construindo em meio às trevas da prática, que faz o elogio da tortura, do matador Brilhante Ustra. Que faz o elogio do estupro, das milícias, da loucura, das grosserias, do golden shower e da santa e imaculada família brasileira. Com o apoio e a participação dos evangélicos, da mídia televisiva dos bispos e de sua fanática bancada parlamentar, ansiosa para reconhecer Jerusalém como capital de Israel.

Um projeto de governo em que a mão de Tanatos é visível, em que a pulsão de morte está presente. Em sua teoria das pulsões, Freud representa os instintos de vida e morte em Eros e Tanatos. Na mitologia grega, Eros é o deus do amor e do erotismo, Tanatos é o filho da noite, a personificação da morte. Simboliza um comportamento autodestrutivo, com a energia canalizada para a agressão e violência. Vendo pela ótica do freudismo cultural, tais personagens no topo do poder com Bolsonaro formam um grupo de misóginos, desenrotizados, enrustidos, preconceituosos, fechados em seus armários. Odeiam Eros.

Para a execução da tarefa a que se propuseram, desestabilizar e desmantelar o país, contam com a frente dos economistas liberais, liderada por Paulo Guedes. Que a esta altura, depois de 4 meses de governo, não está mais respondendo pelo posto Ipiranga. Sem noção do que seja o Estado, o presidente sabota seus planos, cancela decisões, interfere de forma autoritária mandando baixar juros ou elevar impostos. Faz isso de forma leviana, porque o que lhe dá prazer na verdade é exercitar seus instintos tanatianos.

*Jornalista e escritor