Entre realidade e ficção

Por Álvaro Caldas

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ENTRE REALIDADE E FICÇÃO

Atos do comício conduzem à prisão ou à embaixada da Hungria

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Publicado em 08/09/2022 às 12:01

Alterado em 08/09/2022 às 12:01

Álvaro Caldas JB

Acordei com fisgadas na coluna lombar, que se irradiavam para uma sensação de stress e mal estar. Sai da cama pisando cuidadosamente, pé ante pé. Não há nenhum mistério para isto. Estamos na antecâmara de um ato de força contra a democracia, vivendo um daqueles momentos de pressão febril em que a História se precipita à nossa frente, com uma crise de desfecho imprevisível. Envoltos num clima de alguma forma irracional, que horroriza e desperta revolta, talvez por não saber de onde irrompeu tanta violência e sombras.

Respiramos neste sete de setembro o ar pesado da truculência que está no ar, seja na rua seja dentro de casa, com os aparelhos ligados. Se digo que não há nenhum mistério para a origem sombria dessas aflições, preciso confessar que há outro motivo. Semana passada levei um tombo cinematográfico na rua, caí em câmera lenta, segurando duas sacolas, uma em cada mão. Ao atravessar um cruzamento, tropecei num tijolinho vermelho do asfalto, destes que fazem a separação entre as pistas. Tentei me equilibrar, consegui dar dois ou três passos desengonçados e acabei esborrachando na calçada, rente a um poste de iluminação.

Não fossem meus anjos protetores teria quebrado a cabeça, ido parar num hospital com fraturas de perna ou braço. Só de pensar dá calafrios. Fui ajudado a me levantar por dois homens negros, dois anjos da vida real. Talvez por serem pretos, eles sejam dados a uma maior disposição para socorrer o próximo. Recolheram minhas coisas, me examinaram e sacudiram, viram sangue nas pontas dos dedos e no joelho direito ralado. Recomendaram urgência para fazer um curativo e evitar infecção.

Um deles logo surgiu com um copo d´água, o outro trouxe um banquinho de uma lanchonete em frente. Disse obrigado a ambos e olhei-os de frente para gravar seus rostos. Como estivesse um tanto vexado pelo inusitado da cena, insisti em deixar logo o local, antes que outras pessoas se juntassem. Os dois provedores concordaram então em me liberar com os ferimentos leves, para seguir minha jornada naquela manhã ensolarada de setembro.

Não é preciso ser um repórter no exercício de sua atividade profissional para registrar que podemos submergir num regime ditatorial inclassificável, sem paralelo na história, em meio a uma carnificina digna de uma guerra civil como a que dizimou a Espanha dos republicanos e do ditador Franco, no século passado. O que está em gestação não é um golpe clássico para a tomada do poder, porque seu líder está no poder. Mas um ato indeterminado contra a Constituição, em que se busca apoio militar, empresarial e civil para virar a mesa e se travestir de ditador.

O cara se comporta como um presidente que não tem nenhum pudor em se mostrar desequilibrado. Desfila em ações públicas montado numa moto como um transviado insano que mobiliza suas hordas para tumultuar e fraudar as eleições. Tudo indica será derrotado em outubro pelo ex-presidente Lula, conforme registram as pesquisas. Sua taxa de rejeição é superior a 50%. Não admite passar a faixa presidencial a seu sucessor.

Seus seguidores agem com fanatismo e não demonstram o menor compromisso com a democracia. É uma espécie de turba ressentida e despolitizada, que emergiu com ele dos subterrâneos. Na condição de seu mito, Bolsonaro tem consciência de que ele e seus três filhos, que respondem a processos por corrupção e outros crimes, deverão ser julgados e presos ao término do mandato. É insuportável para o mito a visão de que pode ser posto numa cela para cumprir pena,

No histórico de países africanos e latino americanos governados por militares existe um arranjo institucional para resolver situações criticas com impasses semelhantes. O general deposto se exila. Saída até aqui impensada, mas sugerida pela gravidade do momento. Seria deixar o caminho aberto para que o capitão derrotado nas urnas entre com os filhos numa embaixada amiga e parta para o exílio. A Hungria do primeiro ministro direitista Viktor Orbán receberia com festas a familia Bolsonaro.

A veemente oposição da sociedade a seus métodos já foi expressa na carta aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito, Para ele, um “papelzinho sem valor.” A quem caberá então dar um basta a seu plano terrorista? Ao poder judiciário, por meio do STF, escolhido como o seu principal inimigo? Qual o papel da imprensa neste processo?

Em 1964, na dia do golpe armado que derrubou o governo constitucional do presidente João Goulart, como se fosse uma senha, os principais jornais brasileiros saíram com editoriais na primeira página com os titulos de Basta e Fora. Queriam o golpe, querem de novo agora?

Um aspecto significativo da atividade jornalística é este, o de fazer e ser um testemunho da História. De fazer o seu registro cotidiano, ainda quente e palpitante. O veículo impresso é um documento, uma fonte de consulta, que se espera séria e confiável. Nem sempre é. Quando a imprensa não cumpre a sua parte, quando é tendenciosa ou quando há censura. Os que se dispuserem a pesquisar jornais e revistas durante os anos da ditadura militar no Brasil, poderão constatar a extensão dos efeitos da censura e da autocensura nas publicações.

É o que se pôde ver na cobertura extensiva e acrítica das comemorações do Bicentenario, transformado por Bolsonaro num agressivo comício eleitoral contra seus adversários e as leis. Segundo advogados, crimes passíveis de impeachment e cadeia. Fernando Gabeira, veterano jornalista e comentarista da Globonews, notou esta tendenciosidade. Disse ele: Cobrir exaustivamente a fala de Bolsonaro como candidato, só será razoável se cobrirmos também a fala dos outros candidatos, Ele fala barbaridades, e temos que comentar.” E o que é pior e injustificável, com ares de imparcialidade.

*Jornalista e escritor

 

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