Bolsonarismo cria escalada de terror para chegar ao golpe

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JB
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A história do século 20 na América Latina é marcada por uma sucessão de ditaduras, golpes de Estado, a praga da tortura institucionalizada e assassinatos coletivos. Talvez um dos episódios mais brutais desta fase terrorista de direita seja a Operação Massacre, na Argentina, em junho de 1956, em que 12 homens foram seqüestrados por policiais e conduzidos de madrugada a um terreno abandonado, onde foram executados, sem qualquer acusação formal ou julgamento.

A partir do testemunho do único sobrevivente do fuzilamento, o jornalista Rodolfo Walsh iniciou investigações e começou a publicar reportagens de denúncia. No ano seguinte, ele apresenta a primeira versão de seu livro Operação Massacre, (Cia das Letras, coleção Jornalismo Literário), que teve ampla repercussão internacional. Walsh identifica os mandantes e executores e reconstitui o crime como se fosse um romance policial, num texto em que combina suas investigações de repórter com as artes de um ficcionista.

De forma perturbadora, aproxima o leitor dos momentos de tensão e angústia vividos pelos executados, em sua maioria trabalhadores sem ligações como organizações políticas. Eles estavam reunidos num bar, acompanhando uma luta de boxe pelo rádio, quando foram surpreendidos pelo destacamento policial. A repressão a uma tentativa de contragolpe peronista para retornar ao poder, deflagrou uma guerra na Argentina. O governo mobilizou as forcas da policia e do Exercito, decretou a lei marcial e fuzilou militares e civis envolvidos.

Integrado a esse cenário de golpes militares apoiados pelos EUA, que derrubaram governos eleitos na década, o Brasil passou por uma ditadura que se estendeu de 1964 a 85. Ditadura que novamente ameaça o país, que se encontra acuado em meio a uma escalada de terror de facções direitistas armadas. São atos encadeados de violência política e institucional, que abrem caminho para operações de maior vulto país afora.

Na cabine de comando no Planalto, o bolsonarismo militar e civil executa o seu plano, respaldado pelo Congresso, dominado pelo Centrão de Arthur Lira, que atropela as leis. O Ministro Fachin, do STF, alertou que o Brasil pode sofrer um atentado mais grave do que a invasão do Capitólio, após a derrota de Trump. Operações terroristas de lançamentos de bombas e garrafas de plástico com explosivos e fezes, como nos comícios de Lula, e o uso das redes sociais para disseminação de mentiras e ameaças de morte, são parte da escalada.

Em Brasília, um atentado contra o carro de um juiz que mandou prender o ex-ministro da Educação e dois pastores que roubavam o MEC. Em S Paulo, um tiro numa vidraça do prédio da Folha de S. Paulo. A semana culminou com o assassinato em Foz do Iguaçu de um guarda municipal petista por um policial apoiador do bolsonarismo. Crimes políticos se sucedem num ritmo calculado, com o estímulo de Bolsonaro e sua máfia familiar e palaciana.

Malfeitores e terroristas agem cobertos por uma total sensação de impunidade, com a meta de transformar a campanha eleitoral numa disputa belicosa. Quanto mais mortos, melhor, até alcançarem a dimensão de um massacre. O objetivo do comando golpista é gerar condições para um ato de intervenção militar ou ações de grupos armados que suspendam ou coloquem sob suspeita as eleições, que segundo todas as pesquisas será ganha por Lula. O 7 de setembro pode antecipar o planejamento.

O Estado brasileiro estabeleceu uma rede de cumplicidade com facções de milicianos, militares da ativa e da reserva e grupos de civis armados. Lira comanda a base parlamentar. Atuam em áreas diferentes, que vão da destruição da floresta amazônica, liberação da pesca e garimpo ilegais, ameaçam e aniquilam indígenas, ambientalistas e opositores.

O projeto político declarado de Bolsonaro é o de se tornar um ditador fascista, ainda que a humanidade condene o terror e a barbárie, e a Historia lhe aponte o trágico fim de seus dois últimos idolatrados ditadores. Um, fuzilado por membros da resistência antifascista, terminou dependurado de ponta-cabeça numa viga metálica de uma construção inacabada, na vila de Belmonte. O outro suicidou-se usando uma cápsula de cianureto, confinado em seu bunker na chancelaria de uma Berlim sob escombros. Ambos em abril de 1945, no final da guerra.

O jornalista, escritor e militante político Rodolfo Walsh foi metralhado nas ruas de Buenos Aires por um comando de repressão da ditadura militar, em 1977. Minutos antes da emboscada, ele havia postado cópias de uma “Carta aberta à Junta Militar”, endereçada a correspondentes estrangeiros, denunciando os estarrecedores crimes da ditadura. Os assassinos invadiram sua casa e roubaram seus arquivos pessoais. Walsh tinha 50 anos. Seu corpo nunca foi encontrado, mas sua carta percorreu o mundo.

Dele disse o laureado escritor argentino, Ricardo Piglia: “Rodolfo Walsh escreveu um dos grandes textos da literatura documental da América Latina.”

*Jornalista e escritor

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