Em defesa dos cabelos coloridos da liberdade

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JB
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Uma parte dos brasileiros mergulhou numa imponderável sensação de irrealidade e impotência, diante de todas as torpezas e baixarias. E sem meios para reagir, a não ser protestar pelas redes sociais. São pessoas que já acordam com enjôo do absurdo, sentem-se sufocadas e deprimidas a ponto de perder o humor, o sono e o sexo. São diariamente atingidas por sobressaltos e agressões que sufocam a fala e tolhem a respiração.

Como se cada um estivesse sendo transportado na parte traseira de um camburão fechado, sem ventilação, tamanha a brutalidade e a estupidez dos crimes cometidos pelo governo terrorista do psicopata Bolsonaro.

Os mais jovens não são atingidos desta forma. Percebem que há no ar um atentado à democracia, sentem o seu fedor, mas não tiveram antes a experiência dolorosa de ter tido seus corpos invadidos e seus sonhos destruídos. Tarde destas, numa conversa de mesa de bar com um amigo, doutor em Letras pela Puc, ele ergueu o copo para brindar a terceira dose e enunciou o seguinte teorema: “A grotesca realidade que estamos vivendo é demasiadamente grotesca para ser verdadeira”.

Só mesmo a literatura para contornar os embaraços criados por uma realidade histórica incontornável. É o horror, é o horror! – e logo surge a visão dos campos nazistas, os prisioneiros nus, com os braços numerados, enfileirados e empurrados para a câmera de gás. Tirem as crianças da sala.

Nenhum escritor supera Kafka na imaginação para expressar esse horror que está nos arredores, na antecâmara de nossos quartos. É comum dizer que o adjetivo “kafkiano” é tudo aquilo que parece estranho, inusual, impenetrável e absurdo, o que descaracterizaria o realismo que está na base da literatura do autor de O Processo.

Pois a rigor, segundo o escritor Modeso Carone, tradutor e estudioso apaixonado de sua obra, “é kafkiana a situação de impotência do indivíduo moderno que se vê às voltas com um superpoder que controla sua vida, sem que ele encontre uma saída. Ele se vê na impossibilidade de moldar seu destino segundo sua vontade, livre de constrangimentos, o que transforma seus esforços em iniciativas inúteis”.

Na abertura de O Processo, a coisa é dita assim, numa frase simplesmente: “Certamente alguém havia caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem que tivesse feito mal algum.” Não é preciso dizer mais nada. O totalitarismo está aí. Ainda não é o apocalipse, mas pressente-se que ele se aproxima, O apocalipse quer tudo, e tudo imediatamente.

Muitos clamam pela necessidade de ir para a rua, tocar fogo na Bastilha. Pode ser que uma forma ruidosa e eficaz de protestar nas ruas seja a realização de manifestações relâmpago, em que as pessoas comparecem ao mesmo lugar, como a uma estação do Metrô, a uma determinada hora. Todos com os cabelos tingidos em cores vibrantes e diferentes. Uma algaravia de tons expressando a liberdade das cores e o fascínio pela diferença.

Homens de cabelos verdes; mulheres, ruivas; rapazes tingidos de vermelho, as moças de azul, os gays misturando duas ou três cores. Os mais velhos com o teto dourado, os pretos de cor de rosa. Os sem cabelo pintariam a cabeça de roxo. Cabelos longos, encaracolados, trançados, raspados, numa manifestação pela liberdade de todas as cores.

Num momento, dão-se as mãos, começam a cantar um hino à democracia racial. Um músico de topete vermelho levanta o clarinete; outra, com um arco-íris nos cabelos, toca o violão. Se viesse a polícia não precisariam correr. Depois se dispersam, vão almoçar num japa próximo. Ou entram num prédio e tomam o elevador para o trabalho. Na semana seguinte, repetem a manifestação em outro lugar.

O jovem Franz Kafka não estaria presente. Escreveu a novela A Colônia Penal quando tinha 26 anos, em 1919. Nasceu em Praga, durante o império austro-húngaro. Começou a estudar Química, depois trocou o curso pelo de Direito. Tímido, não foi feliz no amor. Teve uma relação conturbada com o pai. Trabalhou numa companhia de seguros. Convocado para o serviço militar, foi dispensado na primeira prova. Ao longo da vida teve problemas de saúde. Morreu em 1924, aos 41 anos, em decorrência de uma tuberculose.

Com a Colônia, deixou um livro atemporal, revelador do passado com repercussões no futuro. Um soldado é torturado lentamente de uma maneira perversa e sádica, até a morte. Enviado à colônia penal para dar sua opinião sobre os métodos empregados, um explorador descobre um sistema judiciário bárbaro. Ele assiste à uma execução com o condenado preso a uma máquina, que inscreve em seu corpo a sentença de morte.

Novela cruel e sinistra, a colônia kafkiana revela o pensamento totalitário de militares, num ambiente de tensão e suspense. Transformar o Brasil numa espécie de colônia penal é o sonho de Bolsonaro e seu grupo, que fazem abertamente o elogio da tortura e de torturadores.

*Jornalista e escritor

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