Quando a literatura se mete no meio de guerras

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JB
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Com seu estúpido poder de destruição e em suas variadas formas, as guerras estão pre-sente em milhares de histórias, novelas e livros. Não é minha leitura preferida mas peguei para ler o último livro do espanhol Javier Cercas, que havia me encantado em 2001 com Soldados de Salamina, um best seller mundial adaptado mais tarde para o cinema. Cer-cas é um jornalista e escritor de 59 anos, que me atrai sobretudo por saber combinar com excelência essas duas atividades que normalmente se embaraçam. Para fazer ficção o escritor precisa se afastar do jornalista, que pode se tornar um estorvo a seu lado.

Javier acaba de publicar no Brasil Terra Alta, pela editorial Planeta/Tusquets, que ga-nhou o Prêmio Planeta, uma das principais honrarias literárias da Europa. Ele se inspirou num policial real que matou quatro terroristas islâmicos, responsáveis por um ataque na cidade de Barcelona, em 2017. Para se proteger de uma vingança, Melchor Marin, o pro-tagonista anônimo, passa a viver em Terra Alta, um pequeno vilarejo ao sul da Catalu-nha. Alí se apaixona por uma bibliotecária e tem uma filha.
Aqui começa o romance. O jornalista sai de cena.

Logo na primeira página o leitor é apresentado a um policial, com um histórico de delin-qüência, envolvido num crime que lhe cabe solucionar. Mas não é este exatamente o in-teresse do autor. Ele não se propõe a escrever um romance policial e sim o melhor ro-mance de ficção possível. Cercas tece em flashbacks uma composição ao mesmo tempo surpreendente e empolgante, que passa pela profundidade dos grandes dramas psicoló-gicos de um romance.

Em entrevista a Luiz Prebinski, do jornal de Literatura Rascunho, ele fala de seu novo livro, que tem como pano de fundo a política e os atentados na Catalunha, em 2017. Considera o romance policial um gênero aberto, com ele você pode fazer o que quiser. Surpreendentemente, ainda há quem pense que se trata de um gênero menor. Críticos que pensam assim não sabem o que é literatura. Não existem gêneros maiores ou meno-res, mas formas diferentes de usar cada gênero.

A guerra está presente em algumas das histórias de Javier Cercas, como em A velocida-de da luz e Soldados de Salamina, um episódio desconhecido da guerra civil espanhola. Tudo começa com uma entrevista feita pelo autor na condição de repórter e também protagonista. Desta entrevista ele vai chegar a um líder falangista famoso. Ao se ver di-ante de um impasse no processo de criação, aposta numa ousada proposta. Marca um encontro num café com o escritor chileno Roberto Bolaño, seu amigo, que o desafia a procurar novas saídas para seguir a narrativa. O escritor põe em prática o sedutor poder da imaginação.

Cercas diz que o tema da guerra o atrai como escritor pela mesma razão que atrai os seres humanos. Talvez porque coloque uma espécie de lupa sobre as pessoas, para que as vejamos com o melhor e o pior que têm, em toda a sua complexidade. A guerra é um dos primeiros temas da literatura.

Para o jornalista e escritor, marca indelével na história da Espanha, a guerra civil de 1936/39, está na memória dos espanhóis. Seus traumas reaparecem continuamente nos seus romances, de formas diferentes. Da mesma forma como os 21 anos da ditadura de 1964/1985 continuam na memória dos brasileiros. Acabamos de constatar esse fato com a repercussão provocada pela divulgação dos áudios de conversas entre ministros do STM, confirmando o que se sabia: a prática sistemática de tortura nos porões da ditadu-ra.

Javier se considera fascinado pelo tema, que também aparece no último filme de Almo-dovar, Mães paralelas. O fato é que para o escritor, sem a guerra civil nada ou quase nada do presente se explica. Ou seja, na Espanha, a guerra civil não é passado, mas o início do presente, especialmente quando continua na memória e há testemunhos. O pas-sado não passou completamente, sendo uma dimensão do presente, que aparece nos ro-mances e também na realidade

Uma das teses enunciadas pelo do autor de Terra Alta é que a literatura não está sepa-rada da realidade, não é algo estranho a ela. Quem está lendo um bom livro não está fora da realidade, porque ler é uma maneira de viver de forma mais rica, complexa e intensa. A ficção pura não existe e, se existisse, não teria nenhum interesse ou seria simplesmente ininteligível.

Seja como for, diz o premiado escritor espanhol Javier Cercas, a única coisa que posso dizer é que a literatura é antes de tudo um prazer, como o sexo, e também é uma forma de conhecimento, como o sexo. Não consigo viver longe dos livros, assim como nunca me cansei de sexo.

*Jornalista e escritor

 

 

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