As ruínas de um policial infiltrado

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JB
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Num livro de ficção, a vida de traições e crimes do agente Daniel/Cabo Anselmo poderia ser revelada em detalhes. No romance policial, fugindo do país a bordo de um navio da Marinha inglesa rumo ao Panamá, do ditador Noriega, ele escreve um diário no qual relata seu dia a dia nos subterrâneos do regime. Todas as ditaduras têm seus subterrâneos, habitados por policiais e agentes envolvidos em tenebrosas transações de violência, unidas por uma engrenagem ávida de terror, em que não há leis.

Ele já era um morto-vivo, esse cabo da Marinha José Anselmo dos Santos, quando faleceu no último dia 15, aos 80 anos, em Jundiaí, SP. Seu duplo, o agente infiltrado Daniel, desapareceu anos antes, depois de passar por uma cirurgia plástica facial para torná-lo outra pessoa. Os personagens desta tragédia ainda se encontram presentes em nossa memória e o país já enfrenta novamente o populismo e a manipulação, caminhos óbvios para novas ameaças totalitárias. Desta vez, a instalação de um estado miliciano-ditatorial.

A história de horror, traição e suspense de Anselmo e seu heterônimo Daniel, me conduz ao livro de um dos grandes narradores dos subterrâneos do século 20, o húngaro Imre Kertész, ganhador do Nobel. Em História policial, Editora Tordesilhas, Kertéz dedica-se a explorar a experiência dolorosa de viver sob a repressão e a arbitrariedade. Antonio Martens, policial a serviço da repressão de um governo totalitário, é preso após a queda do regime ao qual servia.

No cárcere, pede permissão para escrever suas memórias. De seu relato emerge uma sombria história de delações, tortura e mortes, que conduzem às profundezas abjetas de um regime totalitário, onde a corrupção, o cinismo e a violência institucionalizada contaminam todo o corpo social.

Daniel e Anselmo não confessaram seus crimes. Quantos foram? Perguntado pelo jornalista Percival de Souza, negou-se a fazer um balanço de sua atuação como infiltrado e informante a serviço da repressão. Jornalista investigativo especializado nos subterrâneos policiais, Percival fez com ele longas entrevistas que resultaram no livro Eu, Cabo Anselmo, editora Globo, 1999.

A essência do lugar em que o ex-marinheiro trabalhou depois de cooptado, o DOPS-SP, era a tortura e o assassinato. Não há assombro em seu rosto quando diz que não se via em condições de fazer um balanço de quantos caíram em consequência de sua atuação. “Sou apenas um elemento com peso relativo dentro da engrenagem. O mérito das operações – seguir, buscar, chegar ao final – é da equipe do delegado Fleury.” Como nos campos de concentração, trabalhava-se com o objetivo de chegar a uma solução final.

O “mérito” pode ser compreendido como uma forma de esquivar-se da culpa criminal e moral por sua participação nos crimes. Perder o senso de humanidade e ver-se apenas como uma peça da máquina de repressão, foi uma das características de oficias nazistas citados pelo filósofo alemão Karl Jaspers, em seu ensaio sobre o problema da culpa. Na apresentação da biografia, o professor Rafael Freitas Ocanha, doutor em História pela PUC-SP, denomina esse tipo de fala de “culpa metafísica”, manifestada por uma pessoa que se dedicou com paixão às suas atividades como delator, conforme mostram os depoimentos do cabo Ao constatar que Anselmo se manteve fiel às ações da ditadura depois de tantos anos, Percival de Souza pergunta e responde: “Se isso é o resultado da catequese de Fleury, a lavagem cerebral foi completa”

A psicóloga Maria Antonieta Sá Gonçalves, entrevistada pelo autor do livro, avaliou que foi a “serviço de papai-Fleury que Anselmo encontrou sua identidade, seu estilo de ser homem”. A morte do delegado deixou-o desamparado e órfão. A identidade falsa que lhe foi oferecida transformou-o num morto-vivo. Gostaria de voltar a ser o que foi e carregou até o fim de seus dias o pavor de ver surgir das sombras um comando revolucionário para justiçá-lo.

Depois de uma temporada em Cuba para treinamento de guerrilha, Anselmo retornou a São Paulo na condição de militante da VPR. Retomou contatos com a organização e logo caiu nas garras do poderoso delegado do DOPS. Nu na sala da tortura onde o preso paga o preço da dor, não deu muito trabalho ao ‘porco’, como Fleury era chamado entre os policiais. Entregou os pontos rapidamente, estava pronto para a rendição total.

Em toda sua sórdida trajetória de infiltrado, seu encontro com a militante paraguaia Soledad Barret constitui um ponto de desequilíbrio e inflexão, por envolver sensações e sentimentos conflituosos de paixão, ódio e culpa. Na incontável imensidão de suas vítimas, a bela Soledad é a pessoa que se encontra no centro e grita mais alto. De uma família de poetas e comunistas, ela se envolve com o traidor e passeia com ele de mãos dadas pelas ruas de Recife, às vésperas do massacre.

Nesta ficção verdadeira, a chacina da Chácara de São Bento (PE) figura como um dos mais hediondos crimes da ditadura. Em janeiro de 1973, as organizações estavam esfaceladas, seus dirigentes divididos e envolvidos em disputas internas pelo poder, sem controle da segurança. Seis guerrilheiros da VPR foram atraídos para uma cilada planejada por Daniel e Fleury, que montou sua base de operações no DOI-Codi Recife. Torturados, tiveram seus corpos violados e depois baleados para dar a impressão de resistência. Soledad Barrett Viedma, a Sol, era sua mulher e estava grávida. Abortou e o feto ficou a seus pés, numa poça de sangue.

Soledad, não viveste em solidão/ por isso sua vida não se apaga/Simplesmente transborda de sinais/Soledad, não morreste em solidão/por isso tua morte não se chora/ simplesmente a levantamos no ar. Do poeta Mario Benedetti

*Jornalista e escritor

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