Mãe de Raul Amaro manteve viva a memória do filho

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JB
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Contar e prantear a história de um crime absurdo e repugnante é o que faz há 50 anos a família e os amigos de Raul Amaro Nin Ferreira, engenheiro de 27 anos assassi-nado nas dependências do Hospital Central do Exercito, em Benfica, Rio de Janeiro, em agosto de 1971. Sem nenhuma acusação formal, Raul foi preso na noite do dia 1º numa blitz de rua, interrogado no pau de arara, condenado à morte e executado de uma forma lenta e brutal, como só pode acontecer em um país arrastado por uma ditadura.

Há um misto de luto, de lamento e de dores pela perda do primogênito, mas tam-bém de protesto, indignação e advertência no comunicado divulgado pelos familiares para resgatar do esquecimento um crime inaceitável em qualquer sociedade civilizada. Num vídeo feito para os 50 anos do assassinato, os atores Paulo Beti e Osmar Prado leem um manifesto condenando a impunidade dos agentes do Estado brasileiro e home-nageiam todos os que se insurgiram contra as arbitrariedades da ditadura.

Quando a sociedade, de volta à democracia, finalmente consegue investigar alguns destes crimes, os responsáveis se escondem protegidos pela Anistia, pelo poder judiciá-rio, os governantes e o silêncio da imprensa, que até hoje não fez uma discussão pública, como fizeram outros países, sobre as atrocidades praticadas no período. O manifesto adverte que se ficarmos de braços cruzados, o terror pode voltar de novo amanhã. Sau-dosistas da ditadura, Bolsonaro e seu vice Mourão exaltam os métodos de extermínio na figura do torturador maior, coronel Brilhante Ustra.

Nestes 50 anos decorridos, cruzei algumas vezes com Raul Amaro. Filho mais velho dos nove de uma família da burguesia tradicional, estudou no Colégio São Bento e for-mou-se em engenharia pela Puc-Rio. Influenciado desde jovem pela doutrina social da igreja e pela atuação dos papas Paulo VI e Joao XXIII, sua visão de mundo era aberta, próxima da esquerda. Sua mãe, Mariana, fora militante católica, próxima do pensamento de Alceu Amoroso Lima.

Da primeira vez, não nos encontramos fisicamente. Estivemos no mesmo lugar, o Doicodi da Tijuca, com um ano de diferença, eu em 1970, ele em 71. Conhecemos por dentro as engrenagens daquela oficina de torturas. Na segunda vez, em 2013, o mundo mudara radicalmente. Há coisas que jamais acreditaria que fossem acontecer. Eu me tor-nara membro da Comissão da Verdade do Rio, e pude então conhecer mais de perto partes da trajetória de vida e morte de Raul Amaro,

A CEV recebeu uma extensa e valiosa documentação produzida por dois sobrinhos de Raul, Felipe e Raul Nin Ferreira, com a ajuda de Marcelo Zelic, do Armazém Memó-ria. No Relatório final que preparamos, Raul está no capítulo da Violência e Terror do Estado, seção Inventário de Cicatrizes. Nele, consta a acusação não comprovada de que ele integrava uma rede de apoio do MR-8. À custa de seu sangue, os algozes queriam enquadrá-lo como dirigente da organização.

Seu percurso nos subterrâneos do terror começou no DOPS e passou para o Doicodi. Um ex-soldado do Exército testemunhou na Justiça que viu Raul de capuz, despido, sendo espancado e tomando choques elétricos. Na última cena relatada por ele, o enge-nheiro estava desmaiado, o corpo estendido no chão, coberto por uma manta.

De lá foi levado para o HCE. No dia 12, onze dias depois da prisão, seus pais, Joa-quim Rodrigo e Mariana Lanari Ferreira, foram chamados para receber o corpo do filho mais velho. No Hospital militar, voltou a ser interrogado sob torturas por dois agentes do DOPS. O enfermeiro que o atendeu contou a Mariana que Raul chegou a lhe implorar: “Tire-me desse horror, Pedro.” O mais chocante foi descobrir que o filho passou por du-as sessões de tortura enquanto estava internado no hospital do Exército.

A agonia durou 12 dias e terminou com um novo insulto. A direção do HCE in-formou que “o paciente tivera morte instantânea, em decorrência de um edema pulmonar ocasionado por um infarto”. São personagens deste filme de terror generais como Gar-rastazu Medici, então presidente; Sylvio Frota, comandante do I Exercito, e Adyr Fiúza de Castro, então no comando CODI.

Para a execução da infâmia nas salas equipadas dos porões, pequenos grupos de esquadrões da morte se formaram, integrados por oficiais de inteligência, oficiais milita-res, subalternos e agentes policiais treinados, agindo com total liberdade e cobertura dos superiores. Clandestinos, os crimes foram perpetrados em quarteis e imóveis do Estado.

Passei algum tempo sem noticias do Raul. Até que, ainda em plena vigência do silêncio e da censura, noto a publicação de um corpo estranho na página de obituário dos jornais. O anúncio fúnebre de uma missa em nome Raul Amaro Nin Ferreira, convocada por dona Mariana. A mãe não queria perder o contato com o filho. De forma contida, extravasava sua dor chamando familiares e amigos para homenageá-lo, ao mesmo tempo em que denunciava as circunstancias de sua morte.

Vi esse anúncio várias vezes, todo mês de setembro, durante anos, até me acostu-mar com ele. Tão perto da morte, Mariana se sentiu liberada para passar uma mensagem e confrontar os poderosos que assassinaram seu filho. Raul Amaro foi um jovem livre, que viveu com intensidade um momento rico de transformações sociais e políticas, de liberdade de criação artística e cultural, interrompido estupidamente pelo golpe militar de 64.

Mariana enviou cartas a generais e bispos, reuniu-se com familiares de presos e desaparecidos políticos, foi à redação dos jornais. Com uma ação declaratória na Justiça Federal, obteve em novembro de 1994 o reconhecimento da tortura e assassinado do filho pelo Estado.

Leitora do poeta Pablo Neruda, levada pelo arrebatador impulso dos seus “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada,” a mãe de Raul Amaro dedicou-se com amor à luta pela verdade e justiça, num momento em que até a respiração era vigiada. Por que mataram seu filho? Porque vivíamos numa ditadura.

*Jornalista e escritor

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