Literatura, escravidão e preconceito no diálogo com o leitor

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JB
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O leitor dá bronca, critica, aplaude, elogia, viaja. Certamente que é um prazer para o autor de qualquer texto, seja literário ou jornalístico, dialogar com o seu leitor. Não aquele distraído, chato, apenas provocador, mas o leitor verdadeiro, empenhado de corpo e alma no trabalho de decifrar o que está escrito na página. Concordar ou não com as ideias expostas, tentando muitas vezes decifrar o que se passa naquele contexto perigoso entre a ficção e a realidade.

Em sua busca para traçar os traços desta figura emblemática e desconhecida, o consagrado escritor argentino Ricardo Piglia escreveu um livro, O último leitor. Personagens reais e imaginários povoam as páginas do seu livro que procura encontrar este leitor primordial, que personifica a própria literatura. Lembrei-me do autor de Respiração artificial ao ler três das últimas - eu diria cartas, mas se trata de e-mails - que recebi. Com criticas, elogios e sugestões às minhas cônicas, escritas de uma forma esclarecedora, como se fossem uma bronca dada com carinho.

As colunas em questão tratam de temas como a literatura e a escravidão, envolvendo o uso de formas preconceituosas para designar pessoas ou grupos. Trata-se de equívocos comuns, assimilados pelo hábito e o costume da fala. A linguagem reproduz de forma mecânica o estereótipo, revelador da intolerância, que desqualifica o outro.

Começo com uma leitora que me chama de “prezado senhor Caldas”. Sua carta vem de longe, de Utrecht, uma cidadezinha medieval encantadora, cheia de canais, catedrais e universidades, pertinho de Amsterdã. Deixo que a historiadora se apresente e dê sua aula, comentando a coluna A terceira via no país dos Bruzundangas, publicada pelo Ultrajano e pelo site do “Jornal do Brasil” on-line.

“Primeiramente, receba minhas saudações e os cumprimentos pelo belo artigo. Sou Alda Cotta, historiadora, residente há quase 30 anos no norte europeu. Entre outras, também sou ativista política de esquerda, feminista e, não mais filiada ao PT, mas fundadora do mesmo na cidade do Rio de Janeiro. Depois dessa introdução, posso agora entrar no assunto que me fez escrever tal missiva.

Quando o senhor descreve nosso grande escritor negro, Lima Barreto, me perdoe dizer, comete o mesmo erro que muitos e muitas intelectuais de esquerda ou progressistas fazem : descrevê-lo como “descendente de escravos". Nós, negros e negras, responsáveis pela acumulação de riquezas na América e/ ou na Europa, descendemos de seres humanos, de pessoas que foram escravizadas. Estar na condição de escravo não faz ninguém ser descendente do mesmo, como categoria social, sociológica ou histórica. Descendência se dá por fatores étnicos e sanguíneos. Da mesma forma que não se intitula somente que alguém é “descendente de escravagistas , de Faraó, de Verdugo", etc.

Portanto, humildemente, eu sugiro que o senhor, se desejar, faça essa revisão de texto, nesse seu belo e informativo artigo. Colocando em suas próprias palavras algo como : " descendente de pessoas escravizadas e/ou de africanos que foram escravizados.

Agradeço sua atenção e, ao mesmo tempo, por estar do lado dos/das oprimidas, oprimidos, nesse Brasil de famintos e miseráveis.

Fica a esperança de que o nosso país saia das garras do neo-nazifascismo. E que, como o senhor, haja mais profissionais do jornalismo crítico e decente. Parabéns, saudações Socialistas. Alda Cotta, Utrecht, 23 de outubro”

Preconceito também foi notado por outro leitor, Luiz Guilherme Xavier, que chamou minha atenção para uma passagem da coluna Neste verão, vamos embora pra Pasárgada, em que descrevo uma imaginária conversa com meu neto sobre esse estranho país em que vivemos. Diz o Luiz Guilherme:

“Achei linda a sua crônica, lindo o seu neto, cada detalhe descrito pelo senhor. Ainda não o conhecia e nem havia lido nada seu. Gosto de crônicas do cotidiano e isso me deixa bem perto do escritor. Gosto desta aproximação através do texto. Porém preciso somente expressar minha decepção quando o senhor fala de um ministro que “é pastor”. Se ele fosse católico, umbandista, satanista, o senhor colocaria a religião dele antes de seu nome?

Lendo seu texto percebo que o senhor é um homem muito inteligente e com inúmeras outras qualidades, porém foi preconceituoso, nivelando-se assim ao preconceito das falas do senhor ministro. Me desculpa a sinceridade. Espero poder voltar a ler as suas crônicas. Um abraço, Luiz Guilherme.”

Foram duas reprimendas categóricas e justas. Meu terceiro personagem epistolar veio do Chile, desta América castigada por ditaduras. O professor de Inglês Diego Muñoz me saúda e agradece por ter em meu artigo enaltecido o papel da literatura chilena, em especial do escritor Alejandro Zambra, na revelação do terror criado pela ditadura de Pinochet. São leitores atenciosos, interessados em reconstruir o texto junto com o autor. Um tipo especial de leitor, como mostra Ricardo Piglia nos belos ensaios de seu livro, em que busca desvendar os vínculos entre autores de obras e leitores.

*Jornalista e escritor

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