Literatura reflete os fantasmas das ditaduras

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Cicatrizes deixadas pelas ditaduras e ditadores latino-americanos não fecham jamais. Elas se fixam em pontos diversos, em sensações materiais e imateriais, no cotidiano de cada um. São transmitidas de pais para filhos e netos. Às vezes ficam invisíveis, outras vezes explodem. Grudam nos corpos e nas almas, mas também podem aparecer sorrateiramente nas ruas, nos estádios de futebol, nos bares, nas salas de cinema, no interior de uma livraria. E até na lembrança de um telefonema recebido à noite, fumando diante da janela da sala.

Elas são fugazes e se multiplicam, não surgem apenas nas lembranças de cenas dolorosas e de ausência de liberdade. Em tudo se inserem e se imiscuem - as nuvens cinzentas das ditaduras que não acabam nunca. É o que parece dizer ao leitor, com sua encantadora delicadeza, o escritor chileno Alejandro Zambra em alguns de seus livros, nos quais reafirma a força de sua original e admirável literatura.
Não me proponho a fazer a resenha de seu novo romance, Poeta chileno, aqui recém-lançado pela Companhia das Letras. No livro, o protagonista é um adolescente aspirante a poeta, algo que pode se tornar frustrante num pais em que a poesia é um mito poderoso, que já rendeu dois prêmios Nobel, a Gabriela Mistral, 1945, e Pablo Neruda, 1971.

Ao sentar para escrever este texto meu objetivo era fazer, por assim dizer, uma resenha de seu país, o Chile, que saiu de uma grande convulsão social e elegeu uma Constituinte, com maioria de deputados de centro-esquerda, que há cem dias elabora uma nova Constituição, justamente para substituir a deixada pelo ditador, que conserva as marcas do sangue de suas garras.

Um país que está a caminho de novas eleições, em 21 de novembro, com chances de vitória do candidato de esquerda, o deputado da Frente Ampla Gabriel Boric, em aliança com o Partido Comunista. Mas o texto mudou, levado pelas luzes e sombras que emanam da escrita de Zenha, permeadas pelos desencontros e descobertas de seus personagens, que foram tomando a frente.

É mais ou menos reconhecido que o ato da escrita não é fácil, que muitas vezes o tema vira e se impõe sobre o criador. Como na história contada por Borges, em que um famoso pintor sai de casa numa manhã de primavera e monta seu cavalete, com os instrumentos de trabalho, diante de uma bela paisagem montanhosa. Logo começa a misturar as tintas e a usar o pincel para transpô-la para o quadro. Ao final da tarde, vê que na tela surgiu seu autorretrato.

Indo por partes, abrirei espaço para a arte de Alejandro Zambra, já equiparado ao consagrado conterrâneo Roberto Bolaño. Em pouco tempo, aos 46 anos, tornou-se um escritor cult, autor dos romances Bonsai, A Vida privada das árvores, Formas de voltar para casa, Meus documentos e Múltipla escolha. Intercalando as descobertas de sua literatura com o agitado andamento da realidade política e social chilena. Cuja alta pressão pode ser sentida por outro livro também saindo no Brasil, Chile em chamas, a revolta antineoliberal, do Coletivo Tinta Limón, pela editora Elefante.

Uma reconstituição dos gigantescos protestos ocorridos em todo o país em 2019. Milhares de ativistas, estudantes, aposentados, indígenas, desempregados, todos espoliados pelo sistema, foram às ruas enfrentando a feroz repressão das tropas do Presidente Sebastián Piñera. Acuado, ele suspendeu Estado de Emergência, demitiu ministros, pediu desculpas públicas pelas mortes e terminou por convocar a Constituinte, destinada a enterrar a Carta ditatorial-neoliberal de Pinochet, o execrável.

O Chile continua em chamas. E Piñera, ao contrário de Bolsonaro, acaba de ter o seu impeachment pedido por deputados de todos os partidos de oposição, pela venda de uma mineradora privada em um paraíso fiscal, segredo revelado pelos papeis da caixa de Pandora. O país de Allende, que resistiu ao bombardeio no La Moneda, e de Neruda, o poeta comunista, protagoniza uma mudança de comportamento e de ações na esquerda da América Latina, apostando na democracia, na pluralidade e na recriação de laços comunitários com a população.

O romance Formas de voltar para casa e os contos de Meus documentos enfocam o período em que Alejandro Zambra cresceu sob a ditadura de Pinochet. É comum encontrar referências ao ditador na vivência de seus personagens. São acontecimentos triviais, inscritos na vida de um adolescente. Como o estudante Camilo, advertido por policiais por brincadeiras na rua, por estar perturbando a ordem pública. Seu amigo o afasta e diz: “Não se esqueça de que estamos numa ditadura”.
Em outro conto, ao ser informado da prisão do ditador Pinochet em Londres pelo juiz espanhol Baltazar

Garzón, que emitiu um surpreendente mandato internacional de prisão, um funcionário da Telefônica comemora. Convoca os colegas, recorta do jornal uma foto do juiz e a coloca ao lado da jarra com flores, em cima da escrivaninha. Zambra movimenta seus personagens com a liberdade e o entendimento de que as ditaduras, sejam a chilena, a brasileira, uruguaia ou argentina, não são acontecimentos aprisionados no passado. Situam-se como parte de um processo em evolução, influenciando o presente. Dai não terminarem nunca.

Em suas histórias, ao lado da descoberta do sexo, da impossibilidade do amor, de uma certa fragilidade masculina e dos conflitos familiares do personagem, lá estava a nuvem pesada da ditadura chilena, que se arrastou por quase duas décadas, nas mãos assassinas do general Pinochet.

*Jornalista e escritor

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