Mídia silencia sobre os segredos da caixa de Pandora

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A revelação de que duas autoridades do primeiro escalão do governo Bolsonaro, responsáveis por sua gestão econômica e financeira, possuem fortunas em contas offshore abertas em paraísos fiscais, num flagrante conflito ético e de interesses com as funções que ocupam, não abalou o governo. Em grande parte porque pôde contar com o inestimável e solidário silêncio da mídia impressa e televisiva, que tratou de abafar a divulgação dos segredos contidos nos chamados “Pandora Papers”.

Os documentos foram coletados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), um pool mundial de empresas jornalísticas, que inclui revista Piaui, o espanhol El País e o site da Agência Pública. Devido ao elevado número de lideres políticos e empresariais citados, proprietários de grandes fortunas escondidas nas Ilhas Virgens Britânicas, a repercussão internacional foi impactante. Ao contrário do que sucedeu entre nós, onde o escândalo foi suavizado e retirado das capas dos jornais.

Até agora, os dois altos funcionários brasileiros não se sentiram constrangidos nem inclinados a dar explicações ao público, que paga seus salários e lhes dá mordomias variadas. “Qual a origem deste dinheiro”, é uma das questões, “porque decidi aplicar em contas secretas e sonegar impostos”, é outra. Permanecem em silêncio em seus gabinetes de Brasília, confabulando e consultando seus advogados, sem serem cobrados ou incomodados, protegidos pelo silêncio da mídia.

Repórteres de veículos amigos, admitidos em seus gabinetes, não questionam diretamente sobre as aplicações que fizeram em dólares. Fruto de negócios não confessáveis, sonegação de impostos, heranças? Os jornais passam o pente fino de uma censura no material, invisível para o leitor, que interessa também aos objetivos de preservar seus próprios interesses. Executivos de suas empresas jornalísticas usam o mesmo esquema de proteção de suas riquezas.

Personalidades estrangeiras envolvidas, presidentes e ex-presidentes, empresários e bilionários de países europeus e latino americanos, são nomes usados para abrir as matérias. Em relação aos dois brasileiros notáveis, melhor deixá-los em paz com seus dólares, que se valorizam a cada dia em relação ao real no exterior.

O jornal Valor publicou entrevista de página inteira com o presidente do Banco Central e não fez nenhum questionamento sobre a inclusão de seu nome no escândalo da caixa de Pandora, divulgado dois dias antes. O Globo, Estado e Folha de S.Paulo tiraram a notícia da primeira página e deram pequenas notas sem destaque nas páginas internas. Um velho esquema conhecido nas redações para enganar o leitor, que faz uso, segundo sua conveniência, dos conceitos de “ênfase” e “omissão”. Objeto de um esclarecedor ensaio do jornalista Perseu Abramo, “Padrões de manipulação na grande imprensa”, ensinado nos bons cursos de jornalismo aos futuros profissionais.

Ter contas em paraísos fiscais não é ilegal, desde que sejam declaradas ao Imposto de Renda. Mas Paulo Guedes, o ministro da Economia, e Roberto Campos Neto, o presidente do Banco Central, dois servidores públicos, sabem que é antiético, pois eles dispõem de poder para tomar decisões que elevam seus ganhos, promovendo mudanças na legislação a seu favor. O que fizeram.

Ladislau Dowbor, um economista maior, professor da PUC de São Paulo e estudioso de aplicações fraudulentas de origem duvidosa, mostra que nelas predomina o capital improdutivo, que não veio nem retorna para a produção. São investidores capitalistas que querem fugir da instabilidade política e econômica de seus países, que muitas vezes eles próprios contribuíram para criar, caso de Guedes e Campos Neto.

E, ao mesmo tempo, garantem um alto rendimento em dólares. Nesta operação parasitária, alguns brasileiros inescrupulosos são mestres, segundo Dowbor. Que se lasque o país, que se lasque a democracia, que se lasque o desemprego e o número de pessoas miseráveis nas ruas catando restos de comida. Uma ditadura faz bem.

O envolvimento de duas autoridades, responsáveis pela gestão da economia e fiscalização do sistema financeiro, em operações de sonegação de impostos desta natureza, é um escândalo digno de manchete de primeira página. Mas não foi. Fizeram de conta que o fato não existiu.

Ele tentava se passar por um grande economista. Acreditava que um dia seria reconhecido nos salões como um barão da alta finança neoliberal, usando um chapéu de camurça verde. Enganou durante um tempo. Descobriu-se que Paulo Guedes é um sujeito medíocre, um homem sem qualidades, que prestava serviços para empresas financeiras e de repente foi alçado a ministro.

Nesta semana de enterro do defunto voto impresso, Guedes teve seu enésimo enterro. Afunda de mãos dadas com seu chefe Bolsonaro, enquanto continuam a desmontar e destruir o país. Na mitologia grega, Pandora recebeu de Zeus uma caixa fechada como presente de casamento, com a recomendação de jamais abrir. Abriu, é claro, e liberou de uma vez todos os fantasmas das maldades do mundo. Sobrou apenas a esperança, que continuou no fundo da caixa, sob o triste olhar de Pandora.

*Jornalista e escritor

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