Na arte do balé, a cura do que não tem cura

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Veio da bailarina e coreógrafa Deborah Colker a inspiração para esta coluna. Mais precisamente, de seu novo espetáculo Cura, inspirado na criatura que ela mais ama, seu neto Theo, 12 anos, portador de uma doença crônica raríssima, a epidermólise bolhosa, EB, causada por uma mutação genética, que deixa a pele muito frágil. Com ele nas costas e no coração, ela subiu e desceu montanhas até chegar à descoberta de seu novo trabalho, um balé em que os bailarinos cantam e dançam, com trilha sonora criada por Carlinhos Brown.

Tenho com ela duas afinidades, a de ter um neto também chamado Theo, 9 anos, e o fato de que ele é deficiente visual. Nasceu com uma doença chamada Amaurose Congênita de Leber, herdada do cruzamento das variações genéticas dos pais, segundo revelou um sequenciamento de seus genes. Somos avós de dois meninos especiais, sensíveis e inteligentes, que nos levam a buscar novos conhecimentos. O meu, um excelente apresentador de TV, narrador de jogos de futebol e cantor de banheira.

O Theo da Deborah tem a pele do corpo muito sensível, marcada por feridas, o que o torna alvo de preconceitos e indelicadezas. Desde que nasceu, a avó e os pais tentaram de tudo para reduzir os efeitos da doença, até a realização de um transplante de medula nos EUA. Em 2019, no Nordeste, apresentando Cão sem Plumas, baseado no poema de Joao Cabral de Melo Neto, Deborah teve a ideia de Cura, uma síntese de todo esse sobe e desce de montanhas, uma ponte entre ciência e fé.

“Se não existe a cura ainda, preciso encontrar na arte a cura do que não tem cura. Descobri que dentro da fragilidade do menino Theo existe uma enorme força”, disse a premiada coreógrafa e bailarina, em depoimento a Tiago Coelho, na revista piaui.

A incansável determinação de Deborah Colker, que passou a entender a vida de outra maneira, levou-me a fazer um paralelo com este país brasileiro, a propósito do trágico balanço dos mil dias e das 600 mil mortes no rastro das trevas do bolsonarismo. Sempre haveremos de saber, ao longo do tempo, qual é a verdade. Essa outra verdade que começa a despontar no levantamento da cortina revelando o que se passa no jogo sujo dos bastidores.

Uma realidade escondida atrás de manipulações, mentiras, de segredos de Estado, dos pactos feitos entre agentes e representantes do governo envolvidos em falcatruas. Não é por acaso que entre eles estejam generais, políticos, empresários e burocratas que foram treinados para esses papéis durante os longos anos da ditadura de 1964.

São pessoas formadas na direita radical, com ideário fascista, profissionais de regimes autoritários. Trazem experiência para desempenhar seus ofícios, organizam rachadinhas para roubar dinheiro do Estado. Enriquecem rapidamente os amigos e familiares com suas ações. São mestres em ocultá-las. No regime anterior, seus crimes só se tornaram conhecidos 20 anos depois, com a volta da democracia. Tentaram impedir a criação e depois sabotar de todas as formas a Comissão Nacional da Verdade, criada no governo Dilma.

Fomos obrigados a cumprir um período de mutismo e silêncio. Convivemos com a dor e a mentira, com a grotesca farsa dos mortos e desaparecidos, deixando um legado irreparável de desprezo e clamor pela justiça, para a punição dos criminosos protegidos pelos ditadores que se sucederam. Mentiras que geraram ódio. Avós, filhos e netos até hoje não sabem a verdade, onde foram jogados os corpos de seus entes.
Acompanhando a sórdida mistificação bolsonarista, temos a certeza de que não queremos mais olhar para o horizonte e enxergar um beco, o beco escuro e sem saída. No poema do Beco, um dos mais curtos da língua portuguesa, quase um haicai, o poeta Manuel Bandeira diz: “Que importa a paisagem, a Glória, a Baía, a linha do horizonte? – O que eu vejo é o beco”.

Não queremos mais ser encostados na parede de um beco, com os braços cruzados atrás da nuca, enquanto policiais passam as mãos em nossos corpos, enfiam os dedos entre nossas coxas, tudo porque estamos numa ditadura, e perturbamos a ordem pública. Os mil dias dos generais e milicianos de Bolsonaro foram suficientes para se conhecer um acervo variado de crimes, jamais visto na história republicana.

Agem com total desprezo pela inteligência, a verdade e a democracia. A CPI da Pandemia descobriu e identificou autores de crimes. Comprovou a responsabilidade do governo pela morte de mais de cem mil brasileiros. Revelou os negócios escancarados de corrupção na compra de vacinas. Com o STF, abriu a caixa preta embutida nas redes sociais para difusão maciça fake news por meio de robôs. São empresários bandidos financiando a propagação de mentiras com vista às eleições de 2022.

Um Brasil que segue perigosamente dançando na corda bamba. Que no sábado, dia 2 de outubro, está convocado para uma grande manifestação nacional pela democracia, com vacina no braço, comida no prato e um rotundo “Fora Bolsonaro”, com a ênfase dada pelo gaúcho Leonel Brizola. O Brasil pode ter cura, mostra a incansável subida e descida de montanhas de Deborah para criar o seu balé.

 

*Jornalista e escritor

 

O espetáculo Cura, de Deborah Colker, estreia, com a presença de público, no dia 6 de outubro na Cidade das Artes, Rio de Janeiro. Está disponível no Globoplay.

 

 

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