O amor nos tempos de chumbo

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Iara e Carlos morreram enamorados. Ela, no dia 20 de agosto de 1971, entocada dentro de um apartamento em Salvador, Bahia. Tinha 27 anos. Ele, menos de um mês depois, no dia 17 de setembro, metralhado à sombra de uma baraúna, no povoado de Pintada, sertão baiano. Tinha 33 anos. Durante dois anos, viveram uma intensa paixão num tempo vertiginoso, marcado por rupturas, descobertas, enfrentamentos e dura vida clandestina. Os dois foram lembrados este mês, nas memórias dos 50 anos de suas trajetórias de lutas e morte.

Conheceram e se apaixonaram na resistência contra a ditadura militar. Vieram de origem e formação inteiramente diferentes. Ele, filho de um sapateiro criado no morro de São Carlos, Estácio, Rio de Janeiro. Fez carreira militar. Desertou do quartel levando numa kombi um carregamento de armas para a revolução. Ela, de uma família judia de classe média do Bom Retiro, São Paulo. Estudou Psicologia na USP, tornou-se professora, fez teatro, movimento estudantil e entrou na luta armada.

Aproximarem-se na febril convivência dos aparelhos, nos intervalos das reuniões e intermináveis discussões políticas em busca de um projeto revolucionário perfeito. As afinidades entre os dois surgem rapidamente, apesar das ásperas divergências entre os integrantes dos grupos. Entre eles havia estudantes, metalúrgicos e militares, que destrinchavam os programas da Política Operária e da VPR, a Var Palmares veio depois. Convergência apenas na escolha do caminho, a luta armada. Nos intervalos, saíam para a varanda para fumar e aclarar as divergências.

Numa noite iluminada pela lua crescente, ela pediu fogo e ele se aproximou com a guimba em brasa. Tocaram-se e deram o primeiro beijo. A partir dai o ritmo é alucinante, permeado por fugas, troca de aparelhos, expropriações de bancos, sequestros de embaixadores, treinamento de guerrilha, quedas e mortos em combate. Uma sensação premente de urgência, mas a força da relação amorosa se consolida. Iara (Clara) e Carlos (Cid) experimentam juntos momentos de intensa felicidade.

São amantes, parte de um tempo histórico em que, encurralados nos aparelhos, moças e rapazes revolucionários, iguais em sua rebeldia, entram numa viagem em que o amor vivido com liberdade implode as convenções que traziam da casa dos pais. A luta armada torna-se uma miragem. Acossados por uma tensão permanente, neste efêmero jardim das delícias que por vezes lhes serve de refúgio, a entrega à Revolução foi um incomparável afrodisíaco para o sexo. Estavam às vésperas do apocalipse. E o apocalipse quer tudo. Tudo imediatamente.

Uma noite, trancafiados num aparelho no centro de São Paulo repassando os detalhes de uma ação de banco marcada o para o dia seguinte, Carlos pressente movimentos e ronco de motores do lado de fora. Apaga as luzes e faz um sinal para Iara. Vão até a janela, abaixam a persiana e veem na calçada em frente uma caminhonete estacionada e três homens de japona, ao lado. Ela sussurra, o aparelho caiu. A impressão é de que estão cercados. Caminham na ponta dos pés até o quarto, ele abre uma sacola e tira duas metralhadoras e dois 38, com os pentes de balas

Só lhes resta resistir. Ele a puxa para a área de serviço para examinar uma possível rota de fuga pelas escadas. Dão se as mãos, os dedos dela estão suados. Seus rostos se aproximam e as bocas se abrem num beijo de língua apaixonado, que pode ser de despedida.

Carlos Lamarca, o capitão que desertou para combater a ditadura, foi desde cedo um exímio atirador, Sua mulher e os dois filhos menores foram enviados para Cuba. Conheceu Iara dois meses depois, em abril de 69. Soldado estoico, olhar duro, magro, de 1.70 de altura, aos poucos foi perdendo a formalidade. Na solidão dos apartamentos em que eram confinados, um de seus prazeres era cozinhar. Exercitava-se diariamente na alvorada, relia trechos de O Estado e a Revolução, de Lênin. Um volume de Guerra e Paz, de Tolstói, o acompanhou por toda parte.

Numa das raras vezes em que desfrutaram de maior liberdade, o casal de namorados foi levado para uma chácara, em Jacarepaguá. Iara o presenteou com um colar de dentes de cavalo, que lhe transmitiria força, ternura e humor. Lamarca estava retornando da cirurgia plástica providenciada pela organização para mudar sua fisionomia, cortando parte do nariz. Os militares espalharam cartazes com sua foto sob o titulo Terrorista Procurado, e o caçavam de todas as formas. A “neguinha” recebeu-o com brincadeiras, tratou da ferida e o sentou em seu colo. Seu carinho desmanchou o mau humor do capitão, que reclamou de que estava parecendo um estropiado de guerra.

Loura e alta, de olhos claros, Iara Iavelberg era uma jovem guerrilheira que chamava a atenção. Casou-se de véu e grinalda aos 16 anos. O casamento não durou três. Na USP, em 1964, entrou de cabeça no movimento estudantil. Fase de agitação política e cultural e de muitos namorados. Na militância clandestina, disfarçava a aparência com perucas de cores variadas e óculos escuros. No convívio solitário dos aparelhos, quando a tensão cotidiana crescia, sofria de crises de asma e alergia. O capitão a mimava. Isolava-se para estudar e ouvir música. Amava Schubert, em especial a Sinfonia nº 8, a Inacabada, que gravou numa fita cassete.

A viagem de carro para Salvador, em junho de 1971, conduzidos por um militante da organização, foi a última vez em que estiveram juntos. De lá, cada um foi levado para seu destino. O soldado para Buriti Cristalino, sertão do Estado, onde o aguardava, num sítio no meio do mato, o ex-metalúrgico Zequinha, da VPR, seu solitário companheiro até o momento final. A psicóloga e guerrilheira foi deixada num aparelho na rua Minas Gerais, na Pituba, onde foi encurralada e executada por agentes da repressão.

Entre julho e agosto, fustigado, dormindo debaixo de uma tenda, o apaixonado capitão da guerrilha começou um diário e escreveu cartas para a amada. No diário, escreveu frases como “nosso amor é uma realidade que veio sendo transformada. Está ligado à revolução e construção do socialismo... Sonho com uma fazenda coletiva, juro não ser ciumento e lutar contigo pela tua liberdade. Penso adoidadamente em ti, nunca pensei amar tanto”. Num dos últimos trechos, registra: “Te amo, te adoro. Vou te ver nem que seja a última coisa da vida. Mil beijos do teu amor.”

Usava carinhosamente o tratamento de “minha neguinha”. Poucas cartas chegaram. O diário só foi encontrado tempos depois, dentro de um envelope, no banco de um fusca, no Rio de Janeiro, deixado por um companheiro em fuga.

 

Álvaro Caldas. Jornalista e escritor

 

* Consultei o livro Iara, Reportagem Biográfica, de Judith Patarra, e reli o conto Morituri te salutant, do livro Crônicas do mundo ao revés, de Flávio Aguiar.

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