A obscena presença de torturadores e genocidas

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Houve um tempo no Brasil pós-ditadura em que tivemos uma indesejável intimi-dade com torturadores. Como foram anistiados e não foram presos, eles andavam pelas ruas, moravam perto da gente, faziam compras nos supermercados. Eu mesmo cruzei em duas ocasiões com dois deles. Fiquei paralisado, sem saber o que fazer. Agora, estamos diante do intolerável risco de conviver com um tipo ainda mais abjeto e criminoso, o genocida. Com a conta de quase 600 mil mortos pelo covid 19, ficamos enojados só de pensar nesta proximidade.

O golpe contra a ordem constitucional legítima em andamento pode qualificar Bol-sonaro e seus cúmplices como agentes deste crime nefando, o que mudaria o seu territó-rio de jurisprudência. Cabe ao Tribunal Internacional de Haia o julgamento de crimes de guerra e genocídio. O futuro é uma incógnita, mas diante das reações do Supremo e con-tando com a cumplicidade do Parlamento, o celerado executor do putsch tupiniquim ganhou tempo para decidir o momento em que vai colocar suas milícias nas ruas.

Trata-se de golpe sui generis, anunciado, proclamado e festejado cinicamente à luz do dia, como neste sete de setembro que ele usou para afrontar a sociedade, ministros e as Cortes, incorrendo em novos crimes de responsabilidade. Tão acintosos os preparati-vos que dispensam o clássico modelo no qual conspiradores se reúnem e tramam na “ca-lada da noite”, como ficou registrado no velho clichê.

Mais do que perpetuar o bolsonarismo extremista no poder, ele precisa do golpe para defender o futuro de sua família fora das grades de uma penitenciária. Sabe que sua prisão e a dos três filhos estão postas na mesa, com inquéritos já investigadas em diver-sas instâncias. Chegará o momento que ele, os filhos, a ex-mulher e todo o pequeno co-mitê que roubou durante anos do Estado, serão denunciados e presos.

Por estar à frente deste processo, o STF tornou-se seu principal inimigo. Seus mi-nistros são “canalhas” e suas sentenças não devem ser obedecidas. O candidato a dita-dor reverbera ânsias de enviar ao pelotão de fuzilamento o ministro Alexandre de Mora-es, o que mais o acossa com suas investigações.

Neste domingo, 7 de setembro, Brasília, Rio e São Paulo foram palcos de ensaios carnavalescos, a céu aberto, para treinamento do enredo que será apresentado no dia do desfile final. Foi também uma oportunidade para avaliar o contingente de seus fanáticos seguidores, auscultar o que se que passa em seus corações e mentes. Afinal de contas, eles têm demonstrado excessiva devoção e ferocidade em suas ações.

Quando entrei na praia de Copacabana dei de cara com uma manifestação ruidosa, uma produção grande e cara. Carros de som, telões, postos de venda de fotos e camise-tas com a imagem do mito, um guindaste erguendo faixas. Palavras de ordem como “Pá-tria amada”, “Nova constituição Já”, e “STF corrupto”, balançavam ao ar.

Estava fotografando com meu celular quando vi se aproximar um turista, saindo do Copacabana Palace. Demorei alguns segundos mas o reconheci, em especial pela altu-ra e gestos, o rosto coberto pela máscara. Inesquecível o francês Jean Jacques Faust, ex-correspondente da France Presse, agora jornalista aposentado. Chegara na noite anterior. Na década de 60, chefiou o escritório da Agência no Rio, onde trabalhei. Falamos sobre a improbabilidade de nosso reencontro num local como aquele. Começou provocando: “Continuo sem nada entender de seu país.”

Sabia que era feriado, dia da pátria, mas estranhou todo mundo fantasiado de ver-de e amarelo. Perguntou o que estavam reivindicando, se eram grevistas, carnavalescos, que slogans gritavam. Disse que eram adoradores do presidente que tramava um golpe, e que eles estavam ali para dizer que o apoiam, darão a vida por ele, se preciso for. Faust sorriu, contrafeito. “Curiosa essa manifestação. Quer dizer que estas milhares de pessoas estão defendendo um coup d`Etat! Mas elas sabem disto?” Respondi que uma parte sim, outra não.

O que posso dizer é que eles não foram mobilizados por questões de direitos, de-semprego, crimes contra gays, vagas nas escolas e nas universidades, causas dos negros e dos índios, o SUS, a Amazônia, a falta de vacinas. Os bolsolnaristas não gostam das politicas públicas que reduziram a barbárie brasileira nos últimos 30 anos. De manhã, pegaram o boné e enrolaram-se na bandeira, arrastaram os filhos menores e vieram para a praia oferecer-se em oferenda ao mito, seu deus.

Dançam e cantam hinos evangélicos, gritam contra os comunistas e os corruptos. Olhamos aquela extensão de gente tomando as duas pistas fechadas. Grupos de amigos, vizinhos, famílias, colegas de trabalho, a maioria sem máscara. Poucos jovens, gays no armário. São brancos, negros, de meia idade, uma classe média pobre. Boa parte funcio-nários públicos aposentados, que dependem do Estado. Nunca ouviram falar em bolche-viques. Queda do muro de Berlim é uma comédia musical. E garantem que nossa ban-deira nunca será vermelha. 

É o fim do mundo. Para eles ser genocida nada significa, o negacionismo não pas-sa de uma abstração, o nazismo uma era de grandeza. Se dessem aqui e agora o grito de “Ame-o ou deixe-o”, da ditadura do general Médici, certamente a maioria ergueria os punhos a espera do dia de glória. Como fizeram os alemães nos desfiles pelas ruas de Berlim, ouvindo a voz rouca do chanceler do Reich inculcando-lhes a sua própria gran-deza, num trágico espetáculo de conquista e destruição.

Jean Jacques Faust, o amável francês, me convida para um café em nome dos ve-lhos tempos. Caminhamos espremidos em meio àquela multidão até um botequim. Ao se despedir, ele se lembra de Pierrot le fou, o filme. Diz que estava triste com a morte do Belmondo, o grande ator da nouvelle vague francesa, dos filmes de Godard. Uma vez tomaram um Bordeaux juntos, quando ele fazia frilas para a Cahiers du cinema. De mi-nha parte faço uma homenagem à memória do pianista João Carlos Assis Brasil, morto no mesmo dia, prodígio do piano brasileiro. Intérprete das bachianas de Villa Lobos e das valsas de Nazareth.

Nos despedimos com um até breve ao final desta esfumaçada tarde de Copacabana, arrepiados com a sombra da suástica que pairou sobre o desfile, mas levando na cabeça os nomes desses dois artistas de gênio.

*Jornalista e escritor