A atualidade da presença de Callado, um escritor brasileiro

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Com Reflexos do Baile, lançado em 1977 pela editora Paz e Terra, Antônio Callado iniciou uma nova fase em sua carreira de escritor. Ele morreu vinte anos depois, aos 80, carregando o peso de um enorme desalento com este país que não dava certo, ao qual dedicou “uma paixão inútil”. Voltei ao livro e ao autor agora, depois que vi Callado, documentário de grande atualidade de Emília Silveira, sobre a vida e obra do jornalista, escritor e dramaturgo. Com criatividade, recursos gráficos, entrevistas e imagens de arquivo, ela põe o autor de Quarup ao alcance das novas gerações.

Ao mesmo tempo, me vi revolvido pelos variados reflexos que Callado deixou em minha trajetória de jornalista. Era um “foca” no Jornal do Brasil, onde entrei meses depois do golpe, em 1964, e já o admirava de longe em seus discretos passeios pela redação, saindo da sala dos editorialistas. Poderia concordar com o que dele disse depois Nelson Rodrigues, que se tratava “do único inglês da vida real”. Recordei que deu-se com ele meu batismo de repórter, na cobertura da mais famosa de suas prisões, o episódio conhecido como os “Oito do Glória”, em novembro de 1965.

Reflexos do Baile foi o seu livro preferido, que ele queria deixar como sua marca e herança, feito com liberdade sem as contaminações do exercício do jornalismo, Quem foi repórter sabe que esta luta é árdua. À primeira vista, o livro não tem pé nem cabeça, mas tem os seus próprios pés e cabeças. Um mosaico de cartas, fragmentos de diário, conversações, divagações. Na orelha, o filólogo Antônio Houaiss diz que se trata de um livro pujante, um mosaico que não aspira a ter linearidade nem circularidade. E pergunta: “Pode-se pedir mais de uma obra-prima?” Fui atrás. Estava aqui a meu lado, na estante, emparelhado com Quarup, Bar Don Juan e Sempreviva.

Aos fatos, pois. Os célebres “Oito do Glória” na verdade são nove, protagonistas da primeira manifestação pública contra o golpe de 1964. Com o auxílio de minha neta Luiza, cheguei às páginas do JB de 18 de novembro de 1965, dia seguinte ao protesto. Um grupo de artistas, intelectuais e estudantes postou-se em frente ao hotel, na praia do Flamengo, rodeado por fotógrafos e correspondentes internacionais. Entre eles o “foca” do JB. O jornal alugou um apartamento e montou uma pequena redação no Glória, sob a chefia de Luiz Orlando Carneiro e coordenação de Octávio Bonfim, com o objetivo de cobrir a Conferência Extraordinária da OEA, a Organização dos Estados Americanos, convocada para chancelar a ditadura militar há pouco instalada no país.

De repente, atrás do ronco dos batedores, surge um Rolls Royce trazendo o presidente Castelo Branco, que iria abrir a conferência. Ele desce do carro e começa a agitação e correria. Callado e Carlos Heitor Cony erguem faixas com os dizeres “abaixo a ditadura” e “viva a liberdade”, palavras de ordem repetidas aos gritos pelos demais manifestantes, cerda de 50. Na condição de líderes, os dois escritores são presos por agentes de segurança e enfiados dentro de um camburão, sob as luzes dos flashes dos fotógrafos.
Solidários, os demais foram se aproximando e sendo engaiolados, mais ou menos nesta ordem: o embaixador Jayme de Azevedo Rodrigues, o jornalista Márcio Moreira Alves, os cineastas Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Mário Carneiro, e o diretor teatral Flávio Rangel. Não deu tempo para o nono, o poeta Thiago de Mello, que saiu correndo atrás do camburão.

Na primeira parada, no prédio do ministério do Exército, o poeta se apresentou a tempo de sair para comprar cigarros, principal reinvindicação dos prisioneiros. Do ministério foram conduzidos para o Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca, que mais tarde, a partir de 69, sediou a oficina de torturas do DOI-Codi. Ficaram um mês em cana, apesar de toda a repercussão internacional, com manifestos pedindo sua libertação assinados por cineastas e escritores como Godard, Buñuel, Pasolini e Alberto Moravia.

A ditadura ainda não torturava. Conversando e fumando entre as quatro paredes, os oito do Glória deram início a novos projetos de livros e filmes. Ali, no celão do segundo andar da PE, teriam nascido o Quarup, de Callado, e Terra em Transe, de Glauber, lançados em 1967. No dia seguinte, a matéria do JB para a qual contribuí deu chamada de capa com foto e o titulo “Protesto acaba em pancadaria”. Dentro, “Manifestação em frente ao Hotel Glória dá prisão para intelectuais”.

O concorrente O Globo perdeu o respeito consigo mesmo e com seus leitores. Numa edição que envergonha o jornalismo profissional, chamou os respeitáveis senhores artistas do protesto de “arruaceiros.” Estampou na primeira página. “Esquerdistas fazem arruaça e acabam presos pelo DOPS.”
Com roteiro de Miguel Paiva e entrevistas preciosas de Ana Arruda, jornalista, sua viúva, e Tessy Callado, atriz, sua filha, o documentário de Emília, em exibição no Now, mostra que Callado teve presença ativa de um intelectual engajado em sua geração. Um homem de esquerda sem ser militante, um escritor dotado de muitas luzes. A contragosto, vestiu o fardão da Academia. Trabalhou nos principais diários da época, JB e Correio da Manhã. Em Londres, durante a 2ª Guerra, trabalhou no Serviço Radiofônico da BBC. Viajou para conhecer o país e fazer reportagens que se transformaram em livros. Cobriu a derrota americana guerra do Vietnã como enviado especial do JB.

São muitos os reflexos deixados pelo escritor Antônio Callado na vida brasileira.

*Jornalista e escritor