Fragilidades e potência de duas mulheres negras

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Se colocadas lado a lado, as trajetórias de vida de Marielle Franco, socióloga, vereadora e ativista de direitos humanos, executada em plena via pública no Rio de Janeiro, e Djamila Ribeiro, filósofa, escritora e militante antirracista, em plena atividade politica e intelectual, expõem a brutal violência que atravessa a sociedade brasileira desde tempos remotos. Desnudam suas vísceras, suas misérias e sua grandeza, que subsiste na tenacidade de luta das mulheres negras e dos oprimidos.

Marielle chegaria aos 42 anos neste 27 de julho, num momento em que, três anos e meio depois do crime, ainda se questiona quem mandou matá-la e ao motorista Anderson Gomes. Djamila lança seu quarto livro, Cartas para minha avó, Cia das Letras, reafirmando sua convicção de que o lugar da mulher negra é doloroso, mas também potente. É em busca desta potência que elas se entregam aos riscos de denunciar e construir um futuro, expondo suas próprias vidas.

De dentro do carro em que se encontrava ela não pôde ver o semblante sinistro dos pistoleiros de aluguel contratados, dois deles presos. Um, Ronnie Lessa, morador do mesmo condomínio Vivendas da Barra em que Bolsonaro tem casa, na Barra da Tijuca. O cadáver de Marielle Franco continua insepulto pairando sobre a consciência democrática do país. Vítima de um crime de natureza política, como tantos que foram praticados durante a ditadura militar, que permanecem, como o seu, impunes até hoje.

As duas mulheres se aproximam não apenas porque são negras e nasceram pobres, conseguiram furar inúmeros filtros e bloqueios, estudaram, passaram por uma universidade e adquiriram consciência das injustiças de classe e de raça. Além disso, mulher, tem outras coisas, como canta Adorinan Barbosa em seu Trem das Onze.

São mães. Tiveram uma filha cada, casaram e se separaram, abraçaram a causa LGBT acrescida de novas letrinhas, amadureceram na mesma época, chegando aos 40 anos. Uma, Marielle, nasceu na favela do Complexo da Maré, assumiu um relacionamento amoroso com outra mulher, Mônica, e foram viver juntas na Tijuca, bairro de classe média onde moram muitos militares.

A outra, Djamila, pesquisadora e mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), veio de Santos e iniciou sua formação política na infância, em conversas com o pai, estivador e militante comunista. Aos 18 anos frequentou a Ong Casa de Cultura da Mulher Negra e passou a estudar temas relacionados a gênero e raça. Aprendeu que é muito importante para a formação das crianças ouvir histórias de mulheres negras contadas por elas mesmas, e passou a recomendar esse aprendizado a seus alunos. Ensinou-as a ouvir as narrativas de seus ancestrais, convencida do valor que tem o lugar da fala, título de outro de seus livros.

A filósofa aprendeu em seus estudos e pesquisas que aqui a população negra é acusada de violenta se denunciar o racismo. É o país onde todos adoram o samba e carnaval, mas onde se mata mais negros no mundo. O brasileiro não é cordial. O brasileiro é racista. A violência de gênero atinge todas as mulheres, mas as negras sofrem de uma forma mais grave e profunda, porque combinam mais de uma forma de opressão.

A emboscada que matou Marielle em março de 2018 provocou comoção social no país e repercutiu fortemente no exterior (capa do “Washington Post” e mensagem do Papa, entre outras manifestações), foi planejada em detalhes por agentes do Estado. São nítidas as digitais deixadas por seus autores, na escolha do alvo e no cálculo de suas consequências. Os mandantes continuam no controle das investigações, substituindo juízes e procuradores quando lhes interessa.

A agência URBN Experience já realizou três ações para cobrar respostas sobre os autores do assassinato. No dia de seu aniversário relançou o videocase Despertador da Justiça, feito em conjunto com a Anistia Internacional Brasil e o Instituto Marielle Franco. Dezenas de despertadores, com o rosto de Marielle, foram colocados em frente à Câmara de Vereadores do Rio, formando a frase 1321 dias sem resposta. O vídeo está disponível no canal da URBN, no Youtube.

Trata-se de uma batalha para despertar a sociedade e cobrar justiça pelo crime contra a ex-vereadora do PSOL. Aos 11 anos, ela já estava trabalhando como camelô com os pais nas ruas, juntando dinheiro para pagar seus estudos. Na adolescência trabalhou numa creche infantil e foi dançarina da equipe de funk Furacão 2000. Tinha forte presença em público, uma mulher bonita, sensual, que usava mechas coloridas no cabelo.

Não informei ainda que a escritora Djamila Ribeiro tem outro livro publicado, Quem tem medo do feminismo negro? Nem que ela tem o porte altivo de uma princesa africana. Gosta de fazer coisas e de falar, de viajar e tomar vinho. De passar horas com a filha vendo filmes na televisão, de namorar, de ouvir Otis Redding e Milton Nascimento. Em sua trajetória, procura demonstrar que podemos fazer as coisas de outro modo, com ações afirmativas, criando redes de solidariedade e trabalho coletivo. Aí, ela costuma dizer, nem o céu nos deterá.

*Jornalista e escritor