Suspensa a liquidação do acervo da Fundação Palmares

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Dirigida por um jornalista praticante de racismo, que se define como “negro de direita”, a Fundação Cultural Palmares está fazendo um expurgo em seu acervo de livros. Numa operação de grande impacto, trezentas obras foram banidas, entre clássicos da literatura, dicionários e livros de história social. Numa decisão anunciada na noite de quarta-feira, 23/06, o juiz federal Erik Navarro Wolkart, da 22ª Vara Federal, suspendeu o expurgo do material bibliográfico e fixou numa multa para o presidente da Palmares. Sérgio Camargo afirmou que vai recorrer contra a liminar

Ao longo da história, livros já foram censurados, execrados, rasgados ou queimados por governos ditatoriais. Os nazistas fizeram cerimônias em praça pública para lançá-los em fogueiras. Sérgio Camargo resolveu à sua maneira autoritária. Decidiu excluir do acervo da Fundação “um conjunto de obras pautadas pela revolução sexual, sexualização de crianças, pela bandidolatria, e por um amplo material de estudo das revoluções marxistas e das técnicas de guerrilhas.”

Com o expurgo em andamento, o escritor negro Machado de Assis perguntou a seu colega e admirador Lima Barreto - filho de uma antiga escrava - lá no espaço cósmico onde são vizinhos, porque seus livros não haviam sido jogados na fogueira junina do impostor Sérgio Camargo. Machado sentiu-se discriminado. Nem ele nem Lima escreveram livros marxistas, não fizeram a apologia da pornografia e do erotismo, nem escreveram manuais de greve, qualificações atribuídas às obras banidas pelo censor. Mas são negros e autores literários de sucesso.

Condição intolerável para o presidente da Fundação Palmares, que tem profunda aversão aos pretos e suas manifestações culturais e artísticas. Considera o movimento negro uma escória maldita e defende a extinção do dia da Consciência Negra. Seu racismo é virulento e não tem limites. É contrário ao reconhecimento das religiões de matrizes africanas, e considera a escravidão benéfica para os descendentes de escravos no país.

O cronista Lima Barreto está convencido de que ele e Machado só não foram colocados na lista de autores censurados por obra e graça do seu amigo, que fundou a Academia Brasileira de Letras. De lá onde se encontra, O autor de Os Bruzundangas criou uma conexão direta com seu fictício país e recebe boletins diários dos acontecimentos. Num deles, leu que Camargo xingou Zumbi dos Palmares de filho da puta e afirmou que enquanto ele estiver na Fundação, com a cobertura de seu amigo Bolsonaro, os terreiros não vão ter nada. Macumbeiro não receberá um centavo.

Com sua imperturbável discrição, o autor de Dom Casmurro não se abala. Ouve calado as sátiras de seu vizinho, que ele chama de Isaías Caminha. Nascido em1839, no Morro do Livramento, Zona Portuária do Rio, Joaquim Maria Machado de Assis, filho de um descendente de negros alforriado e uma lavadeira portuguesa, testemunhou a abolição da escravatura. Ganhou nome e projeção internacional. Tornou-se uma celebridade, o que intimidou o censor exibicionista, que tem prazer em se mostrar como um racista ao revés assumido.

A crítica e a academia o elegeram como o mais elevado expoente da literatura brasileira. Harold Bloon, o consagrado crítico norte-americano, apaixonou-se por seus livros e escreveu que Machado de Assis é o maior escritor negro de todos os tempos. Lima Barreto pede licença para Machado e faz um aceno para um grupo que está ouvindo a conversa ao lado. E pergunta: quem é este Sérgio Camargo para colocar no índex o criador das Memórias Póstumas de Brás Cubas? Falta-lhe coragem moral!

O presidente da Fundação Palmares é parte integrante do governo extremista de Bolsonaro, cúmplice de suas ideias e de seus projetos para o desmonte do setor cultural. Foi indicado pelo dramaturgo e ex-secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, aquele que foi afastado depois que reproduziu frases de Joseph Goebbels, ministro de Propaganda da Alemanha nazista, num discurso de lançamento do Prêmio Nacional de Artes.

O expurgo de livros do acervo da Fundação Palmares foi colocado em suspenso até que a liminar do juiz seja apreciada em segunda instância. Obras de Simone de Beauvoir, Nikolai Gogol, clássicos da literatura russa, Marx, Engels, Max Weber, Paulo Freire, Caio Prado Jr., Celso Furtado, Eric Hobsbawm, Luís da Câmara Cascudo, Gramsci, Carlos Marighella, e de vários autores brasileiros comunistas, integram a lista das obras que poderão ser doadas.

O juiz federal Erik Wolkart deu 15 dias para que Camargo se manifeste, sob pena de multa pessoal de R$ 500,00 por cada item que for doado. A decisão significa uma vitória política, jurídica e simbólica para o movimento negro e a democracia, segundo o advogado Paulo Henrique Lima, autor da ação e coordenador do coletivo Direito Popular.

*Jornalista e escritor