Com Lula e FHC, o Brasil pode ousar e vencer

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Na manhã de céu azul deste último domingo ensolarado do outono, os cariocas assistiriam a um desfile inusitado. Uma brigada de policiais, milicianos e seus agregados, montados em potentes motos, exibiu seu poderio bélico pela orla das zonas Oeste e Sul da cidade. Estavam armados e prontos para a guerra em defesa de seu chefe, que liderou a manifestação. Numa parada em frente ao posto Seis, em Copacabana, desligaram as máquinas, promoveram um buzinaço e estenderam o braço direito, fazendo uma saudação militar.

Os homens e as mulheres que se dirigiam à praia afastaram-se com as crianças, liberando a pista para a passagem do espalhafatoso cortejo. Pessoas vestidas de bermudas e shorts, usando máscaras, que caminhavam para o calçadão. Os integrantes do desfile militarizado elevaram o ronco do motor das motocicletas. Houve aplausos, protestos e vaias. Cena típica do momento conturbado vivido pelo país, mergulhado em crises sucessivas, atacado por dois vírus malditos, sem espaço político para mediações.

Enquanto transcorrem as atividades de campanha para a eleição presidencial de 2022, instala-se um quadro de ódio e confronto, com nuvens de tempestade se acumulando no horizonte. De seu bunker no Palácio, cercado por militares que ocupam os gabinetes do poder, o chefe avalia o melhor momento de tentar o golpe. Já anunciou a seus comandados que não aceitará o resultado das eleições, porque não confia em urna eletrônica. Antevê a derrota e prepara sua tropa.

Ao contrário de seu líder Trump, contido pelo aparato constitucional da democracia americana, ele pode ir além. Derrotado nas urnas, o republicando exortou seus seguidores a uma anárquica invasão do Capitólio, em janeiro Diante da indecisão do Exército em se posicionar, pode deslocar tropas para as ruas. Levado por seu incontornável impulso de insanidade e com o apoio de suas milícias, Bolsonaro já deixou claro que deseja um governo autoritário e ditatorial, sem contrastes e sem oposição.

A sociedade se encontra amedrontada, discutindo meios de sobrevivência diante do meio milhão de mortos pela pandemia. Partidos de oposição se opõem entre si, brigam pela divisão de cargos num poder que não alcançarão, enquanto o fogo se alastra pela floresta com rapidez. O Centrão navega em seu barco sabendo que conservará suas posições no governo, de braços dados com o negacionista matador de brasileiros..

Há uma pergunta que as pessoas querem fazer, mas não conseguem: não será melhor gritar agora do que sacrificar outra vez o país dos brasileiros nas trevas de uma nova ditadura? É hora de soltar aquele brado que jovens rebeldes lançaram em meados da década 1960: Ousar lutar, ousar vencer. Um dia, os muros amanheceram com estas palavras escritas de uma maneira caprichada, em letras de fôrma, ameaçando os detentores do poder. A realidade mudou, as táticas de enfrentamento para romper a inércia e o silêncio são outras. Um gesto de ousadia, até aqui impossível, surge com uma proposta de formação de uma frente política capaz de derrotar a extrema direita em 2022.

Não é de hoje que Fernando Henrique Cardoso, 90 anos, sociólogo, e Luiz Inácio Lula da Silva, 76, metalúrgico, se conhecem. Cada um ocupou a presidência duas vezes no período da redemocratização. Um passou a faixa para o outro. Avançaram e recuaram, sempre com o Centrão ao lado e os milicos contidos nos quartéis, mantidas suas prerrogativas e protegidos de seus crimes durante o regime que comandaram.

Se tomarmos como base 1978, ano das greves no ABC quando fizeram panfletagem juntos em São Bernardo, são 43 anos de convívio, quase meio século. Não importa se um veio da casa grande e o outro cresceu numa casa sem teto. Não são antípodas, são políticos de partidos rivais, dos quais foram fundadores, que contribuíram cada um a seu modo para manter a democracia. Construíram um legado. A relação entre os dois é de rivalidade, entremeada por gestos de aproximação e críticas, muitas vezes duras.

Depois de um período de silêncio e de provocações mútuas tornaram a surgir juntos nesta foto em que aparecem mascarados e tocam os punhos estendidos num gesto de entendimento, no momento que Lula trabalha alianças para sua candidatura em 22. Um apoio determinante para a eleição presidencial. Nos últimos 50 anos de atividade política, há fotos dos dois tomando cafezinho no Congresso, em Brasília, visita a Lula no hospital em tratamento de um câncer, e os velórios de dona Ruth e dona Marisa.

O almoço no apartamento do ex-ministro Nelson Jobim tem uma dimensão maior, foi classificado como histórico. O tucano e o petista estiveram em lados opostos nas últimas sete eleições presidenciais. O voto de FHC em Lula numa disputa contra Bolsonaro, dá ao petista respaldo junto à classe média anti-PT e abre uma ampla avenida pelo centro, chegando até parte da direita civilizada e não negacionista.

O senador Jaques Wagner, um dos maiores amigos de Lula, disse que o “Galego já é de centro.” Os tucanos criticaram, Ciro esbravejou com mais rancor e parte da esquerda, representada pelo deputado federal Marcelo Freixo, viu no encontro um gesto de grandeza e responsabilidade. “Nossas diferenças são muito menores do que o dever histórico de derrotar Bolsonaro. É hora de dialogar porque está em jogo a democracia e vida dos brasileiros.”

*Jornalista e escritor