A confissão dos "arrependidos" nos autos da inquisição

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Para o renomado historiador inglês Peter Brown, pior do que o esquecimento é a distorção da História, sua manipulação para forjar como verdadeiras versões falsas dos acontecimentos com a finalidade de incutir o medo. Lembrei-me das palavras do professor ao ver, no fim de semana, o documentário “Os Arrependidos”, de Ricardo Calil e Armando Antenore, vencedor da competição de longas brasileiros no Festival É Tudo Verdade. Em cena, o espectador verá rostos angustiados de pessoas que tiveram suas identidades destruídas nos calabouços da inquisição ditatorial, e a seguir no processo de montagem dos autos de arrependimento.

Na tela inicial surgem três jovens, entrevistados na bancada de um estúdio de TV com o logotipo da AN, a Agência Nocional do governo. Eles se entreolham e dirigem o olhar assustado para a câmara, com o esboço de um sorriso constrangido. O locutor anuncia que escreveram cartas renunciando ao terrorismo. Diz também que foram doutrinados por agentes do comunismo internacional. Um a um, eles confirmam que abandonaram a luta armada e estavam ali para advertir a juventude sobre os perigos desta farsa que é o terrorismo. Não, não foram torturados. Um deles admite “excessos”, e o outro, com uma risadinha, fala em “petelecos”

Talvez com medo de pronunciar uma palavra obscena, que seria censurada pelos jornalistas cooptados. O tema era o Brasil ufanista do “Ame ou Deixe-o”, com a ditadura instalada sangrando os opositores. As silenciosas mortes cotidianas que ocorriam no submundo não eram noticiadas e não vinham ao caso. Estamos nos anos 1970, no início de um processo que vai durar seis anos, alcançando a marca de 40 “renegados”, estudantes, em sua maioria, que “abdicaram de suas convicções politicas e ideológicas”.
Não está no documentário premiado de Calil e Antenore, mas registro que não tenho conhecimento de mulheres entre os que se desgarraram, como também não há registro de presença delas nas salas de tortura, interrogando e aplicando choques elétricos em seus semelhantes.

Marcus Vinícius Fernandes, Rômulo Fontes e Massafumi Yoshinaga, que foi capa da revista Veja, têm entre 19 e 21 anos. São jovens de bairros da periferia de São Paulo, saindo do curso secundário à procura de um lugar ao sol, uma oportunidade para seguir a vida. Tinham planos de ir para uma fábrica ou se inscrever num curso noturno, mas encontraram a revolução em seu caminho. De repente, toparam na estrada com grupos desgarrados da cavalaria vermelha, comemorando os ecos de uma greve dos metalúrgicos. Entre os operários, soldados da VPR do capitão Carlos Lamarca, o caçado desertor do quartel de Itaúna. Confraternizaram, ficaram amigos, marcaram encontros.

Não se trata de jovens arrependidos fazendo autocrítica. Não tiveram tempo de ter convicções políticas e uma ideologia para se arrepender. Não são traidores, muito menos infiltrados, ou qualquer outro vocábulo usado neste jargão pera designar os que se desviaram do caminho original. Nem podem ser classificados como desbundados, esta uma palavra mais chique para designar os que tomaram outra estrada e fazer outra viagem, temperada com a liberdade do sexo, drogas e das guitarras.

Com o tempo ficaram estigmatizados, veio o rancor e a amargura, conforme mostra o documentário de Calil e Antenore ao entrevistar os dois senhores, que lembram de suas aventuras na juventude. Sobrou Massafumi. O miúdo japonesinho integra um grupo à parte. Ao contrario dos outros dois, ele se apresentou, aconselhado pelo amigo Marcus. Participou do movimento estudantil secundarista e integrou a VPR. Nas mãos dos homens, condenou “o terrorismo sanguinário”. Levado à Transamazônica, elogiou Médici. Na bancada da entrevista, seu olhar se perdia, talvez à procura da luz do sol. Enlouqueceu e se matou cinco anos depois, aos 27 anos.

Neste redemoinho de vultos e vozes que “Os Arrependidos” trás de volta, Massa se situa ao lado de outros dois personagens trágicos, Celso Lungaretti e Manuel Henrique Ferreira, cada um com sua história. Massafumi foi estrela de campanha de combate ao terrorismo. Sem nenhum viés crítico, a mídia o transformou num herói. Sem trabalho e isolado, caiu em depressão. A partir de certo momento não quis mais falar com ninguém. Refugiado numa praia, se dilacerava ouvindo vozes de seus interrogadores. Tentou se matar duas vezes antes de conseguir, enforcando-se com a mangueira de plástico do chuveiro do apartamento que dividia com o pai e dois de seus cinco irmãos.

Lungaretti e Manuel Henrique gravaram vídeos para a televisão com mensagens para os jovens. Entrevistado pela equipe do documentário, Lungaretti diz, com uma expressão de profunda tristeza, que jamais teria feito aquilo. Por Manuel, já falecido, falaram sua filha e sua viúva, a jornalista Graça Lago. Ambos sofreram em seus corpos a violência sem piedade da tortura. Empalideceram, cagaram e urinaram sangue, vomitaram e cuspiram fogo. Passaram por instantes de mortes silenciosas, de dor, convulsão e de choro, em que abraçavam suas mães. Depois, jogados nas celas ficavam sozinhos, tremendo de medo e de frio. Aqui dentro há esta agonia, e lá fora os caras e as caras estão se matando, correndo e se escondendo, trocando tiros, sendo baleados, tropeçando e caindo. Estarão melhores do que nós?

Ainda na prisão, Manuel Henrique (VPR e MR-8), escreveu uma detalhada carta a dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de S. Paulo, em que denuncia a “farsa do arrependimento” e sua luta pessoal para se reerguer, recuperar sua voz e identidade roubadas. “Ou me matava ou fazia isto”, diz ele na carta. Fez isto, sozinho, num esforço gigantesco. Voltou a ser o tranquilo mineiro Manuel, mas em alguns momentos você podia vê-lo de semblante triste.

Lungaretti, 18 anos quando caiu, tornou-se um dos mais famosos “arrependidos” produzidos pela ditadura. Assinou uma carta aos jovens e gravou entrevista para a televisão no estúdio da TV Globo, no Jardim Botânico. Seu gesto teve o impacto e o significado de um ato de traição. 35 anos depois reescreveu seu passado e contou sua própria história em “Náufrago da Utopia”, (Geração Editorial). A questão principal subjacente ao livro de Lungaretti é a que justapõe identidade e tortura, que identidade ou identidades o preso politico é forçado a assumir no inferno da tortura.

Trata se de uma questão para outro filme, obra de ficção, para a aclamada dupla Costa-Gravas e Yves Montand, com roteiro de Jorge Semprun, juntos em A Confissão, clássico do suspense político passado na Tchecoslováquia comunista. O relato de Lungaretti, ou Júlio, ou Douglas ou Lourenço, mostra que ele perdeu o controle da negociação, sacrificou sua inocência e confundiu suas identidades. Lentamente, passo a passo, aniquilado, foi induzido a assumir os atos e as ações de cada um dos “outros” que ele viveu como guerrilheiro, as faces de cada uma das personas que usou na clandestinidade.

*Jornalista e escritor