Mais do que o Censo, é o IBGE que corre riscos

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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vive uma das maiores crises de sua história de quase um século. Sufocado pelo governo da dupla Bolsonaro e Paulo Guedes, que lhe nega recursos e reposição de pessoal, encontra-se sob a ameaça real de ser deletado do sistema federal, ternar-se irrelevante e até desaparecer. Mas antes terá que se virar para cumprir a decisão do ministro Marco Aurélio Mello, do STF, que determinou a realização do Censo Demográfico este ano, depois de já cancelado por cortes no orçamento efetuados por Guedes e aprovados pelos parlamentares.

De um total de R$ 2 bilhões previstos inicialmente no orçamento, sobraram depois de todas as tramoias apenas R$ 50 milhões para a realização da pesquisa, o que não dá nem para cobrir o custo dos estudos iniciais. O IBGE teria que receber de volta os recursos e mobilizar rapidamente 200 mil recenseadores para visitar 72 milhões de residências em todo o país. A realização do censo a cada dez anos é obrigação prevista em lei. A última edição foi feita em 2010. A decisão do ministro Marco Aurélio terá ainda que ser ratificada pelo plenário da Corte.

Nas duas sedes do Instituto, no Rio, há um clima de descrença e temor. Os funcionários estão se sentindo com a corda no pescoço diante das investidas governamentais contra a instituição. Grupos se reúnem, fazem relatórios e trocam mensagens discutindo suas dúvidas sobre o futuro. Nas últimas semanas, um presidente foi afastado e outra, Susana Cordeiro Guerra, pediu para sair depois da aprovação dos cortes. O cargo ficou vago à espera de uma demorada decisão do ministro da Economia, que age com o intuito deliberado de provocar um colapso na instituição.

Guedes não demonstra interesse na realização das pesquisas, cujos números irão confirmar a dramaticidade da realidade econômica e social brasileira, com o registro de um desemprego recorde de 20 milhões de pessoas e a alarmante cifra de 400 mil mortes por Covid. Marcas que entrarão para a História como a confirmação do fracasso das políticas econômica e sanitária da gestão neoliberal do governo.

O IBGE foi criado para fazer retratos periódicos e atualizados da realidade brasileira. Os dados colhidos em suas pesquisas de campo constituem fontes de informações importantes para o cálculo de índices sociais e de preços. Ao mesmo tempo, orientam políticas públicas, como investimentos nas áreas de saúde, educação e habitação A contagem da população é usada também para calcular os repasses dos fundos de participação de estados e municípios.

A suspensão do Censo pelo segundo ano consecutivo é apenas a parte mais visível de uma operação de abandono e sucateamento em curso, efetivada através de um processo de sufoco econômico, com corte gradual de verbas e perda de pessoal. O que Guedes e Bolsonaro estão fazendo com o IBGE é um crime contra o Brasil. Um ignaro, Bolsonaro certamente não tem noção do que está por trás da sigla. Seus únicos temas de interesse são a família, a reeleição, milícias, igreja evangélica e agora a CPI da Covid.
Já Guedes, doutor em Economia pela Universidade de Chicago, fundador do Banco Pactual e da Bozano Investimentos, velho banqueiro neoliberal, sabe do que se trata e da importância do trabalho para a economia. Os recenseadores do IBGE lidam com o povo. Vão à casa das pessoas perguntar o que fazem, o que estudam, quanto ganham e o que comem. Quando há comida em casa.

Não há nada de novo neste cenário em relação aos métodos de atuação da nefasta dupla, que articula tenebrosas transações para desmontar e destruir instituições de relevo do Estado, nas áreas de educação, meio ambiente, cultura, saúde, ciência e tecnologia. Empreendem uma verdadeira blitz, estúpida e aparentemente irracional, que tem em mira o patrimônio material e imaterial do país.

Enquanto asssistem com o desprezo do negacionismo a mortandade da Covid dizimar a população pobre.
O IBGE entra nesse processo de queima de arquivos e da memória de uma forma mais silenciosa - que só veio à tona pelo Censo - porque menos visível na grande mídia e nas redes sociais. Poucas pessoas têm conhecimento do alcance do seu trabalho, de grande impacto para a definição de políticas sociais e econômicas para o futuro.

Reconhecido pela seriedade do IPCA, o índice oficial de inflação, o IBGE tornou-se referência para organismos e entidades internacionais que usam seus dados para estudos sobre a realidade brasileira. Com um quadro técnico e especializado de gabarito, já teve entre seus presidentes nomes como Isaac Kerstenetzky, Edson de Oliveira Nunes, Edmar Bacha, Simon Schwartzman, Sérgio Basserman e Wasmália Bivar.

Esta não é a primeira vez que governos interferem em suas atividades, seja cortando verbas ou tentando censurar/manipular dados de pesquisas e índices de preços. Na ditadura, Antônio Delfim Neto, o economista que assinou o AI 5, depois de “congelar” o índice de inflação da FGV, partiu para fazer o mesmo no IBGE, Denunciada pelo então vice-presidente Marco Antônio Sousa Aguiar, a manobra não prosperou. Mas, agora, a situação é mais grave. O governo quer provocar um colapso na instituição.

*Jornalista e escritor

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