Morreu o nosso comunista felliniano

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Nunca o vi de paletó e gravata. A camisa sempre para fora da calça. Em muitas ocasiões, percorrendo ruas e bares pelo centro da Cidade, trajava sua guayabera branca, chapéu e óculos escuros. De espírito jovem e galanteador, não tinha uma idade precisa, não sei o que poderá constar do seu obituário, talvez escrevam 87 anos. Seis filhos reconhecidos, viúvas não me darei ao trabalho de contá-las, amigos, infindáveis. Causa mortis deve ter sido uma disposição incansável para viajar e descobrir a vida, que afinal o deixou molestado por um câncer e sem nenhum vestígio de memória para recordar o que viveu.

Morreu Henrique João Cordeiro Filho, é assim dizendo o nome completo que eu gostava de chamá-lo, o Quinho, para a família, e o Rico nas rodas da clandestinidade. Personagem felliniano, criado nas entranhas do velho Partidão, com passagens marcantes pelas escaramuças da vida clandestina e as lutas políticas no século que passou. De profissão jornalista e gráfico, herdada do pai, um velho comunista boêmio da Lapa, dotado das artes de sedução e da culinária. Cozinheiro requintado, fui seu ajudante de ordens numa inesquecível dobradinha com feijão branco, bucho bovino e linguiça, que ele preparou para celebrar meu aniversário de 50 anos.

Desde que o vi pela primeira, em alguma assembleia na ABI, notei que se tratava de um espécime raro, fora dos compêndios tradicionais. Um comunista irreverente, bem humorado, pouco disciplinado para a espécie, que me fez lembrar o Alberto, interpretado por Alberto Sordi, um daqueles quatro amigos da turma de Rimini reunida por Fellini na comédia dramática I Vitelloni (Os boas vidas). Havia algo de italiano em seu gestual expansivo.

Na segunda vez que o vi eu estava chegando, em agosto de 1971, ao Regimento Caetano de Faria da Polícia Militar, depois de um ano e meio de cana dura em quarteis do Exército, na Vila Militar. No Batalhão da PM tinha direito à prisão especial, com uma extraordinária reviravolta de hábitos carcerários. Na noite mesmo de minha chegada, mestre Henrique João Cordeiro preparou uma surpresa. Feita a chamada noturna e fechados os portões, preparei-me para dormir, obediente aos meus condicionamentos. Eis que vejo um PM aproximar-se das grades do portão arrastando uma sacola. Forma-se uma fila no interior e o soldado começa a passar garrafas de cerveja que vão de mão em mão até a geladeira. Contemplei atônito aquela operação comandada por dom Cordeiro, o xerife da cela. Com uma abstinência de 18 meses, rapidamente fiquei de porre.

Nunca precisou fazer autocrítica, não carregava culpas pelas trapalhadas e mudanças de linha do Partido, em especial após o terremoto provocado pelo XX Congresso, quando o santo Stalin manchado de sangue foi destronado do altar. Conseguiu levar em harmonia os duros confrontos entre os reformistas (era um) e os ditos revolucionários (que foram para a luta armada). Foi motorista do camarada Prestes, então o secretário-geral do PCB, e mais tarde amigo de Jorge Medeiros Vale, o Bom Burguês, o bancário que desviou dinheiro do Banco do Brasil para grupos de luta armada.

Uma tarde, de boné na cabeça, Rico levou Prestes para uma reunião do CC num aparelho clandestino no Engenho de Dentro, e esqueceu-se de pedir ao chefe para vendar os olhos. Levou uma altissonante bronca, que entrou para a ata da reunião. Bom Burguês tornou-se seu amigo no cárcere. Em meados de 1977 estavam de novo clandestinos em busca de uma embaixada para entrar. No desespero, invadiram à noite a Nunciatura Apostólica do Vaticano, em Brasília. A ditadura negou-se a dar o asilo, mas acabou reconhecendo e os dois viajaram para o exílio no México. Lá passou uma temporada, casou-se, teve duas filhas e voltou para integrar-se à luta pela anistia.

Henrique João Cordeiro Filho teve que mudar de profissão, nome e de aparência inúmeras vezes, para sobreviver. Ganhou o título de doutor em clandestinidade pela Universidade Popular do Méier. A mais engraçada foi quando virou porteiro e mestre de cerimônias de um puteiro no interior do Estado do Rio. Seu cunhado, Mário Lago, narrou essa aventura num pequeno folhetim intitulado “Manuscrito do (heroico) empregadinho de bordel”.

Detestava a solidão e não tinha medo de avião. Tomava seu uísque e fazia planos durante os voos. Como jornalista e agitador cultural, desceu com seu passaporte falsificado em aeroportos estranhos mundo afora, viajando ora como quadro do Partido ora como fugitivo e exilado. Esteve duas vezes em Moscou, destino na época de futuros dirigentes dos partidos comunistas, que lá iam fazer seus cursos de formação marxista. Conversou com Lenin no mausoléu. À noite era visto rondando o Kremlin ou no Teatro Bolshoi, e às tardes juntava-se aos camaradas soviéticos na redação do Pravda, com o distintivo de correspondente de Novos Rumos, o jornal do PCB.

A passagem do camarada Henrique João Cordeiro por Praga foi inesquecível. Levado para um vetusto hotel com ares de um antigo palácio, usado para receber viajantes comunistas, uma companheira do Partido finalmente lhe deu um tratamento privilegiado. À noite, saiu para conhecer o majestoso rio Moldava com uma intérprete branquinha que cantarolava músicas de Tom Jobim. Viveram uma noite de namorados no vasto e rebuscado apartamento do hotel, onde se banhou na mais luxuosa banheira que jamais havia visto.

No auge do bloqueio econômico americano a Cuba, coordenou durante anos um programa particular de ajuda aos cubanos seus amigos. Os que partiam daqui levavam em suas malas sabonetes, pasta, escovas de dente, papel higiênico, tudo artigo de primeira necessidade. No dia seguinte ao de sua chegada ao hotel, lá se apresentava um feliz emissário cubano para recolher e agradecer as doações.

Mas a maior façanha de sua vida, a grande performance da qual mais se orgulhava o contraditório e felliniano Henrique João Cordeiro Filho, foi a construção subterrânea de uma gráfica em terreno de sua família, em Campo Grande, subúrbio do Rio. Requintada obra de engenharia artesanal, a gráfica clandestina foi montada nos fundos da casa, no subsolo, encoberta por uma caixa d´agua e um galinheiro. Durante anos imprimiu o jornal Voz Operária, documentos do Partido e de outras organizações. O gráfico “caiu” no final dos anos 1960, não abriu a sua obra na tortura, que só foi descoberta anos depois, quando a repressão voltou a caçá-lo para matar.

Personagem paradoxal, típico de uma fase de transição, precisou fazer concessões em vários momentos de sua vida. Um final de tarde, sentados em sua mesa cativa na Casa Paladino, um bar e mercearia histórico no Centro do Rio, o velho Cordeiro me contou a cinematográfica operação da gráfica de Campo Grande. Entremeando goles de cerveja com bicadas no Steinhaeger, a história saiu inteira e redonda. Depois, para descansar, ele tirou do bolso uma gaita e solfejou a melodia do Carinhoso, de Pixinguinha.

*Jornalista e escritor