O risco de uma faísca num país em ruínas

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JB
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Em meio ao caos na saúde e na economia, às famílias arruinadas e vendo seu patrimônio destruído, o Brasil caminha para o abismo, como se estivesse no front de uma guerra perdida. Conduzido de forma destrutiva por um presidente inepto e aliado da morte, e ao mesmo tempo dizimado pelo vírus que ele propaga, o país chegou nas últimas semanas a um desolador estado de ruínas.

Humilhados nas filas para tomar vacina e aviltados pelo desemprego, seus habitantes perderam as condições de levar comida para casa. Reúnem-se para ouvir, a cada final de tarde, pelo som de um alto-falante no centro da praça vazia, o fúnebre anúncio da contagem do número de mortos, que ultrapassa as mais sombrias previsões. Olhando por cima de suas máscaras, para além do horizonte, esses homens e mulheres vislumbram uma paisagem deserta e calcinada.

Há cadáveres espalhados pelos corredores de hospitais e empilhados nos cemitérios. Os estragos e as dores invisíveis permeiam o convívio e o apoio solidário entre as pessoas, suas famílias e seus vizinhos, em especial os mais pobres, nas favelas e periferias. Isolado em seu bunker no Palácio, o governante sem escrúpulos contempla o caos. Uma ruptura dolorosa se aproxima e a pergunta que todos fazem é: quanto tempo vai durar essa agonia?

Um tempo infinito que, no entanto, pode ser rompido a qualquer momento por uma faísca, uma fagulha inesperada. Em decorrência da devastação provocada pela crise, o isolamento de Bolsonaro acentuou-se rapidamente. Banqueiros e empresários, seus aliados e sustentadores desde o inicio do governo, começaram a se afastar de seu negacionismo destrutivo. Pelo menos uma parte deles, os denominados liberais democratas, uma vez que os neoliberais, aliados ideológicos, seguem de mãos dadas até uma ditadura. O mercado gosta de Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, a irrupção de Lula na cena política, com seus direitos readquiridos e potencial candidato em 2022, o desestabiliza e amedronta.

O ponto de virada para esses setores da classe dominante não foi a Covid nem o assustador número de 300 mil mortos, mas a rápida deterioração da economia. A perda de controle fiscal, a alta da inflação, a impossibilidade de recuperação do consumo, aliada à sua interferência desestabilizadora na Petrobrás e Banco do Brasil. Não há à vista a menor chance de recuperação para a economia.

A realidade expõe um país estraçalhado pelo desastre da gestão na saúde, nas mãos de um governante sádico e incompetente. Sua sustentação política e econômica desmoronou. Economistas, banqueiros e empresários divulgaram carta aberta com duras críticas, exigindo a formação de um gabinete de crise para acelerar a vacinação e implementar medidas de distanciamento. Tudo que seu governo sabotou até agora.

Governadores rompem com Bolsonaro. Os presidentes da Câmara e do Senado manifestam descontentamento e procuram ganhar autonomia. Líderes do Centrão não querem naufragar com a nave presidencial. Das janelas dos apartamentos, reverberam o som e a fúria dos moradores aprisionados.
Soluções para a crise dependem do Judiciário e não mais passam pelo bunker palaciano. A esquerda adormecida e os partidos de oposição precisam se colocar urgentemente neste jogo em defesa da democracia, do estado de direito, de um programa emergencial de renda e da garantia do emprego.

O governo Bolsonaro caminha para um ponto de estrangulamento. Há duas incógnitas colocadas por ele: Deus e o Exército. Um só ouve, não fala. O outro, dividido, está calado. É o momento de articulação de uma ampla frente democrática com o objetivo de deter a escalada autoritária e destruidora do presidente, e ao mesmo tempo iniciar a preparação de um processo de reconstrução nacional. Um trabalho para líderes capacitados, como o ex-presidente Lula, num país à deriva colocado em ruínas.

Exercícios imaginários
A título de formulações imaginárias, duas imagens me ocorreram na elaboração deste texto. Uma de fatos da história brasileira recente, outra cinematográfica, mais distante. Começando pela segunda. De carona num filme, viajei até Berlim, abril de 1945, nos dias que precedem a tomada da capital do III Reich pelo Exército Vermelho. A data marca a derrota do nazismo e será comemorada em todo o mundo, no dia 16 de abril próximo, Revi cenas de uma das últimas grandes ofensivas militares ao final da 2ª da Guerra.

Tropas do Exército Soviético convergem para o cerco da capital. Em movimentos coordenados pelos flancos, inicia a invasão, tomando quadra por quadra, rua por rua. Trancado em seu bunker com um grupo de oficiais, Hitler sente o tremor da aproximação dos tanques. Comete suicídio no dia 30 de abril. Com a chegada das Forças Aliadas, a conquista da cidade é repartida. E Berlim dividida em duas.

Na memória da história recente do país, três presidentes terminaram seus dias de maneira trágica. Getúlio Vargas, líder da revolução de 30, reeleito numa apoteose em 1950, dá um tiro no coração dentro de seu quarto, no Palácio do Catete, em agosto de 1954. João Goulart, gaúcho e trabalhista como Vargas, estava à frente de um governo democrático e reformista quando foi deposto por um golpe militar e empresarial de direita, em abril de 1964.

E o terceiro é aquele instável e irrequieto homem da vassoura, que veio para acabar com a corrupção e tinha uma filha chamada Tutu. Jânio da Silva Quadros, ex-prefeito e governador de São Paulo. Renunciou em agosto de 1961, sete meses depois de assumir. Com seu tom de farsa, uma tragédia o para o país.

*Jornalista e escritor

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